Livro As 24 horas

LUÍSA PICCARRETA – (Itália 1865-1947)

As Vinte e Quatro Horas da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

“… A satisfação que o bendito Jesus experimenta da meditação destas Horas é tão grande que desejaria que destas meditações houvesse pelo menos um exemplar para cada cidade ou aldeia e elas fossem praticadas; então, nessas reparações, Jesus sentiria reproduzir-se a Sua própria voz e as Suas orações, que Ele dirigia ao Seu Pai nas 24 Horas da Sua dolorosa Paixão; e, se isto fosse feito em cada aldeia ou cidade por algumas almas, Jesus parece fazer-me entender que a Justiça Divina ficaria parcialmente aplacada e, em parte, terminariam e seriam interrompidos os Seus flagelos nestes tristes tempos de desgraça e de derramamento de sangue. Reverendo Padre, dirija este apelo a todos: cumpra assim, a pequena obra que o meu amável Jesus me fez realizar…”

(De uma carta de Luísa ao seu Confessor extraordinário, Cônego Aníbal Maria Di Francia)

 

Luísa Piccarreta

«A Pequena Filha da Divina Vontade»

Nihil obstat

Trani, 4 de março de 1997

+ D. Carmelo Cassati – Arcebispo

 

J.M.J.A.

 

Messina, 29 de outubro de 1926.

Intelligentes quae sit voluntas Dei

PREFÁCIO

 

Esta leitura é indispensável para compreender a suprema importância desta obra que, daquilo que se verá, poderia chamar-se Livro do Céu.

Com esta primeira impressão, empreende-se a publicação de mais de vinte volumes manuscritos de Revelações sublimes que, piedosamente, se julgam – exceto sempre o juízo da Santa Igreja – terem sido feitas por nosso Senhor Jesus Cristo a uma alma, Sua caríssima filha e discípula, que é a piedosa Autora do livro O Relógio da Paixão.

Desde agora, comunica-se que estas Revelações que seguem e seguirão – não sabemos quanto – têm em vista estabelecer-se na Terra: o Triunfo completo do Reino da Divina Vontade.

Quem é esta filha e discípula predileta de nosso Senhor, que foi autora do Relógio da Paixão, e agora escreveu 20 volumes de Revelações divinas?

Não podemos revelar as conotações, o nome, o sobrenome, o endereço, etc., porque seria como prostrá-la à mais atroz das aflições, ao mais sensível esmorecimento de alma e de corpo.

Ela quer viver solitária, escondida e desconhecida.

Por nenhum pacto com o mundo teria escrito as íntimas e prolongadas comunicações com o adorável Jesus, desde a mais tenra idade até hoje, e que ainda continuam, quem sabe até quando, se nosso Senhor mesmo não a tivesse reiteradamente obrigado, tanto por Si mesmo como por meio da santa obediência aos seus Diretores, à qual se rende sempre com imensa violência e, ao mesmo tempo, com grande fortaleza e generosidade, porque o conceito que ela tem da santa obediência lhe faria rejeitar até mesmo o ingresso no Paraíso, como efetivamente aconteceu e se verificará nas Revelações de 11 e 30 de outubro de 1909.

Igualmente graciosos são as apóstrofes e os diálogos que mantem com a Senhora Obediência, como ela lhe chama, como se quisesse refazer-se da sujeição a que é obrigada. Ora fala-lhe como a uma grande Princesa e Rainha, que se impõe com severidade, ora prefigura-a como uma Guerreira poderosíssima, armada dos pés à cabeça e golpeia assim que alguém a quer contradizer.

Em síntese, esta alma está em luta tremenda entre um fortíssimo amor ao escondimento e o severo império da Obediência a que deve ceder absolutamente. E a Obediência sempre a vence.

Este constitui um dos mais importantes caracteres de um espírito genuíno, de uma virtude sólida e provada, pois há cerca de quarenta anos que, com a mais vigorosa violência contra si mesma, se submete à grande Senhora que a domina!

Esta alma solitária é uma virgem puríssima, totalmente de Deus, que se manifesta como objeto de singular predileção do Redentor Divino, Jesus.

Parece que nosso Senhor, de século a século, aumenta cada vez mais as maravilhas do Seu amor. “Quis fazer desta virgem, que Ele chama “a menor entre todas que encontrou na terra”, destituída de toda a instrução, um instrumento adequado para uma Missão tão sublime, a que nenhuma outra se poderá comparar, ou seja, o triunfo da Divina Vontade sobre todo o Universo, em conformidade com quanto se diz no Pater Noster: Fiat Voluntas tua, sicut in Coelo et in terra.

Há mais de 40 anos que esta virgem do Senhor, desde quando era ainda adolescente, foi colocada na cama como vítima do Amor Divino. Trata-se do leito de uma longa série de dores naturais e sobrenaturais, e de inebriações da Caridade eterna do Coração de Jesus. A origem das dores, que ultrapassam toda a ordem da natureza, foi quase sempre uma alternada privação de Deus, que constitui a noite obscura do espírito, a que o místico Doutor São João da Cruz chamava “amarga e terrível”, a comparar-se com as penas que padecem as almas do Purgatório pela privação de Deus. Ele compara-a, de certa forma, a uma sufocação da alma, como a quem falta a respiração, uma vez que a respiração da alma é Deus, como justamente diz o Profeta Jeremias: “Christus spiritus oris nostri”, Cristo é o respiro da nossa boca.

Na continuação destas publicações, serão lidas as lamentações desta pomba ferida que procura o seu Dileto; lamentações tão íntimas, agudas e sensíveis a ponto de se sentirem arrebatados por uma profunda impressão diante desta Vítima do Amor Divino. Mas, às vezes, rasga-se o denso véu: a alma vê Jesus, abraçam-se, felicitam-se e a alma pede o místico beijo da Sagrada Esposa dos Cânticos. Às vezes, o êxtase é tão grande que, no delírio do amor, a resistência humana se debilita e a alma exclama: “Basta, basta! Chega Senhor, porque julgo não poder aguentar mais”, como em casos semelhantes costumava exclamar São Francisco Xavier.

Todas estas manifestações do Amor Divino se verificam sobretudo no silêncio da noite.  No dia seguinte, ela recebe a Sagrada Comunhão, depois fica só e recolhe-se durante duas horas.

Aos sofrimentos da alma acrescentam-se também os do corpo, cuja maior parte, a nível místico.

Sem que qualquer sinal apareça nas mãos, nos pés, no lado ou na testa, esta recebe do próprio nosso Senhor uma frequente crucifixão. O próprio Jesus a estende sobre a cruz e lhe crava os pregos. Então, verifica-se nela aquilo que Santa Teresa dizia quando recebia a ferida do Seráfico, isto é: uma dor extremamente sensível, a ponto de a fazer esmorecer e, ao mesmo tempo, um êxtase de amor.

Mas se Jesus não fizesse assim, seria para esta alma um sofrimento imensamente maior, porque como a Serafina do Carmelo, também ela diz: “Ó padecer, ó morrer!”

Eis outro sinal do verdadeiro espírito.

Nosso Senhor, coroado de espinhos, apareceu-lhe muitas vezes, abstraindo-a primeiro dos sentidos, e ela, com delicadeza, tirava-lhe a coroa espinhosa e colocava-a sobre a própria cabeça, experimentando comoções desumanas, mas também júbilos místicos.

Na continuação destas publicações você ficará assombrado ao tomar conhecimento da extraordinária familiaridade de nosso Senhor com esta alma, a ponto de nada invejar de Santa Gertrudes, nem de Santa Matilde, nem sequer da Santa Margarida ou de qualquer outra. Como observa em casos semelhantes o Doutor místico, muito mencionado, a familiaridade e interioridade com que nosso Senhor trata esta alma, a torna temerária, a ponto de usar certas expressões e determinadas pretensões que pareceriam exageradas, se não se considerasse que, no campo da Fé, o adorável Jesus nos deu muitas provas de Seu amor, ainda maiores de quantas se podem receber nos colóquios familiares entre Jesus e qualquer alma privilegiada.

Bastaria, no entanto, o fato de nos ter dado a Si mesmo em forma de alimento, na Santíssima Eucaristia.

Depois do que mencionamos da longa e contínua morada de anos e anos imobilizada numa cama como vítima, com a participação de muitos sofrimentos espirituais e físicos, pode ser que a visão desta virgem desconhecida cause alguma aflição, por vermos uma pessoa deitada, com todos os sintomas das dores padecidas e dos reais sofrimentos.

Contudo, estamos diante de algo admirável. Esta Esposa de Jesus crucificado, que passa a noite em êxtases dolorosos, com dores de todos os tipos, quando é vista depois, durante o dia, meio sentada na cama, trabalhando com agulhas e alfinetes, é impossível notar as dores sofridas durante a noite. Nada transparece. Nada de extraordinário ou sobrenatural. Em vez disso, tem a aparência de uma pessoa saudável, feliz e jovial. Fala, conversa, sorri, no entanto, recebe poucos amigos. Às vezes algum coração atribulado confia-se a ela e pede-lhe orações. Ela escuta benignamente e conforta, mas nunca diz uma palavra que se refira às Revelações. O grande conforto que ela apresenta é sempre um, sempre o mesmo argumento: a Divina Vontade.

Embora não possua qualquer ciência humana, é, contudo, dotada em abundância de uma Sabedoria totalmente celestial, a Ciência dos Santos. O seu falar ilumina e consola.

Sua natureza não é desprovida de inteligência.

Quanto aos estudos, não fez mais que o primeiro ano escolar quando era criança; o seu escrever é cheio de erros, embora não lhe faltem termos apropriados, em conformidade com as Revelações, que lhe parece serem infundidas por nosso Senhor.

 

 

O RELÓGIO DA PAIXÃO

 

Contemporaneamente às sublimes Revelações sobre as Virtudes em geral e, especialmente, sobre a Divina Vontade, esta alma desde há muitos anos, à noite, entrava na contemplação dos Sofrimentos de nosso Senhor Jesus Cristo, que lhe acrescentava as notícias distintas de muitas cenas da Paixão.

O sistema consistia em percorrer as 24 Horas da Adorável Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, começando com a Santa Ceia e terminando com a Morte de Cruz.

Às vezes, estas visões eram intercaladas com especiais Revelações de nosso Senhor.

Dado que nada se tinha publicado das Visões e Revelações desta alma, ela, extremamente desejosa de querer esconder tudo e temendo que uma publicação, mesmo anônima, a pudesse descobrir, pretendia enterrar em si mesma este Tesouro de ciências divinas, de compaixão sobre-humana, de sobrenatural fonte dos afetos mais amorosos.

Mas o seu diretor espiritual colocou-a diante da majestosa “Senhora Obediência”, o fortíssimo “guerreiro” armado dos pés à cabeça; nosso Senhor mesmo a estimulava à publicação para o bem de muitas almas. Não é sem motivo que este livro suscitou tanto entusiasmo, porque é ditado com o transporte do amor, com tal introspecção dos sofrimentos do Verbo feito carne, que arrebata o ânimo de quem o lê e muito mais daquele que o medita.

Mas obtém-se mais, uma inegável contribuição da Graça, que se poderia dizer que deseja duas coisas: uma consiste nas vastas Reparações de todos os pecados do mundo, de todos os tipos, reproduzindo as mesmas que apresentaram nosso Senhor Jesus Cristo, interiormente, no tempo de Sua Paixão mais amarga, ao seu Eterno Pai. Por estas reparações da autora de O Relógio, nosso Senhor, como piedosamente se acredita, prometeu àqueles que meditam essas horas, e aonde meditam, muitas isenções de punições divinas. Outra finalidade divina é precisamente a da aplacação da Justiça divina, o perdão dos flagelos que o Senhor prepara.

Na sequência das publicações há capítulos que prenunciam os flagelos divinos, terremotos, guerras, fogo, inundações, devastações dos campos, epidemias, misérias e semelhantes. Tudo, tudo foi predito há vários anos, e tudo aconteceu, e ainda muito deve realizar-se. Porém, o estado de vítima desta alma e as suas orações e lágrimas, os seus sofrimentos e ousadias de amor a Jesus, pouparam uma parte dos flagelos e ainda hão de poupar outros mais.

Uma característica de seu grande desapego de todas as coisas terrestres, encontra-se no desprezo delas e na constância em não aceitar qualquer presente ou dinheiro, nem outras coisas.

As pessoas que leram O Relógio da Paixão, nas quais nasceu um sentido de sagrado afeto por esta alma solitária e desconhecida, muitas vezes me escreveram dizendo que lhe queriam enviar dinheiro. Contudo, ela opôs-se decididamente, como se a tivessem ofendido.

A sua vida é muito modesta. Ela possui pouco e vive com uma amorosa parente que a assiste. O pouco que ambas possuem – insuficiente para o aluguel da casa e para a manutenção indispensável nessa triste época de alto custo de vida – é completado pelo seu tranquilo trabalho, como já dissemos antes, do qual obtém algum lucro e do qual deve usufruir especialmente a sua amorosa parente. Ela não gasta em roupas nem em calçados e se alimenta  de poucos gramas, oferecidos diariamente pela assistente, já que ela nada pede. Além disso, depois de poucas horas de ter ingerido o pobre alimento, vomita-o.

Porém, o seu aspecto não é de uma moribunda, tampouco de uma pessoa perfeitamente sadia. Todavia, não está inerte: consome as suas forças, quer com as vicissitudes sobre-humanas do padecimento e do cansaço noturno, quer com o trabalho diurno.

Portanto, a sua vida reduz-se quase que a um milagre perene.

Ao seu grande desapego a qualquer lucro que não obtenha com as suas próprias mãos, deve acrescentar-se a sua firmeza de jamais ter desejado aceitar o pouco que, por direito, lhe pertenceria como proprietária literária da edição e da venda de O Relógio da Paixão.

Quando impelida a não recusar o lucro, respondeu: “Não tenho qualquer direito, porque o trabalho não é meu, mas de Deus”. Não vou além.

É mais celeste que terrestre a vida desta Virgem Esposa de Jesus, que quer passar pelo mundo ignorada e desconhecida, buscando unicamente a Jesus e a sua santíssima Mãe, a quem ela chama Mamãe e de cuja alma recebeu uma especial proteção.

Na medida em que, com a ajuda do Senhor, forem publicados os seus volumosos escritos, que lhe são ditados por nosso Senhor, pela ternura com que Jesus a trata, pelas palavras dóceis com que a chama, pelos abraços celestes e pela sua amorosa correspondência, irão se revelar coisas admiráveis das virtudes singulares desta alma que, talvez um dia, depois de sair triunfante dos juízos infalíveis da Santa Igreja, suba aos altares em proteção de muitos e de muitas.

 

 

PLANO DOS ESCRITOS DA PIEDOSA AUTORA

DE O RELÓGIO DA PAIXÃO

 

Estes escritos que nos foram confiados pela Serva do Senhor, por ordem autorizada do Arcebispo, Carrano Francesco, a quem ela pertence, podem dividir-se em três partes.

A primeira é um breve resumo da sua infância e juventude, antes que fosse condenada a ficar de cama. Trata-se de um verdadeiro compêndio, escrito recentemente por obediência, sem a qual, por nenhum pacto ao mundo, teria revelado as suas antigas memórias.

Mas são notícias que revelam como nosso Senhor a predestinava a coisas sublimes.

Quando recebeu esta obediência, consultou nosso Senhor e desejou que lhe fosse afastado este cálice sem que o tivesse de beber.

Todavia, nosso Senhor apoiou a Obediência, e eis como se concluiu a questão.

A segunda parte, que compreende o volume 1º ao 10º, é formada por escritos que remontam à sua vida juvenil; e neles têm início as Revelações atribuídas a Nosso Senhor, que a instrui acerca do começo das práticas de piedade, da mortificação e do exercício de todas as santas virtudes da Fé, da Esperança, da Caridade, da Humildade, da Pureza, da Obediência, da Mansidão, da Constância nas obras de bem, sobre o Amor Divino e coisas semelhantes.

Trata-se de lições admiráveis, que revelam um espírito sobre-humano, com características muito simples.

A terceira parte encerra todo o objetivo pelo qual nosso Senhor Jesus Cristo quis escolher para si uma alma como instrumento na Sua mão Onipotente, desejando formá-la à Sua maneira e fazer dela um meio para manifestar ao mundo uma doutrina totalmente nova, em demonstração do que quer dizer a Divina Vontade e preparar, assim, o grande triunfo do terceiro Fiat na terra.

O primeiro Fiat tirou do nada o Universo criado.

Ao segundo Fiat, nos lábios purpúreos da santíssima Virgem Maria saudada pelo Anjo, vai unida a Encarnação do Verbo Divino no seu Seio puríssimo e a consequente Redenção do gênero humano.

O terceiro Fiat foi-nos entregue por nosso Senhor Jesus Cristo na grandiosa oração do Pai-Nosso, com estas palavras divinas: “Fiat Voluntas tua, sicut in Coelo et in terra” (Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu).

Esta súplica do terceiro Fiat, que desde há vinte séculos ressoa nos lábios dos filhos da Santa Igreja, no Sacerdócio real do grande sacrifício da Santa Missa, apesar de todas as oposições e iniquidades humanas, deve obter a sua grande realização.

Ela não pode deixar de ser ouvida. Todos os Santos, Doutores, Pregadores e Mestres da Teologia ascética exaltaram o cumprimento da Vontade de Deus como ápice da perfeição. Verificaram-se três níveis: de uniformidade ao Desejo Divino, de conformidade com este e de transformação, ou seja, de aniquilamento da nossa vontade à Vontade Divina.

Todavia, as Revelações, que preenchem volumes de manuscritos da autora da Paixão sobre este argumento, têm a característica de uma instrução totalmente nova e celeste, sempre da maneira mais fácil e persuasiva. As comparações e as semelhanças ilustram de forma admirável esta doutrina ditada, às vezes de modo autorizado, e que faz recordar a afirmação de São João no Evangelho: “Jesus ensinava com autoridade”.

Às três partes da uniformidade, da conformidade e da transformação, é acrescentada a esta nova doutrina, a quarta qualidade, em que tudo se resume e que até agora nunca foi expressa por qualquer escritor, mas que, de certa forma, se estabelece nos Livros Sagrados, especialmente no Salmista e no Apóstolo das gentes: atuar, em tudo, na Divina Vontade.

Quando esta fórmula apareceu pela primeira vez nos dois pequenos tratados de O Relógio da Paixão, para muitos – aliás, para todos – pareceu pouco compreensível.

Ainda assim, algo deveria ser entendido à primeira vista, considerando a preposição, articulada ou não, que abre o horizonte a grandes significados.

O Símbolo dos Apóstolos faz-nos dizer: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso”, o que é muito diferente de afirmar: “Creio que Deus é Todo-Poderoso”, ou “ao Deus Todo-Poderoso”.

Depois da leitura de O Relógio da Paixão, muitas pessoas pediram explicações acerca do que haveria de significar atuar e viver na Divina Vontade.

Estes escritos admiráveis, que piedosamente acreditamos terem sido ditados pelo Verbo Divino feito homem, pouco a pouco, conduzem quem os lê com fé, sempre mais apaixonado, à compreensão desta fórmula. De muitas maneiras, as Revelações operam novos horizontes, até agora não contemplados, nos mistérios da Divina Vontade, no atuar e no viver nela. Uma coisa é certa: antes ainda de se chegar ao conhecimento total do que significa atuar e viver na Divina Vontade, quem lê estes escritos não pode deixar de ficar apaixonado pela Vontade de Deus, de sentir novos e generosos impulsos, e um compromisso divino em transformar-se totalmente a si mesmo na Divina Vontade.

Essas Revelações diriam que esta ciência da Divina Vontade formará santos, de uma perfeição mais sublime do que todos os santos que já existiram.

Se alguém considerar esta expressão exagerada, convido-o a ler o Tratado da Santíssima Virgem Maria, de São Luís M. Grignion, onde encontrará uma página em que se diz que na Santa Igreja deverão nascer homens de santidade, em comparação com os quais os maiores santos da Igreja não serão mais que arbustos diante de grandes árvores.

Estas previsões evocariam a doutrina do livro do teólogo alemão Roleng, livro este que foi traduzido para o francês e do francês para o italiano, e depois oferecido ao Santo Padre, o papa Pio X, que escreveu uma carta de louvor ao tradutor, elogiando também os estudos feitos por Roleng sobre a Sagrada Escritura e sobre eventos futuros.

Será então, porventura, que se concretizará o triunfo do Fiat com um só rebanho e um só Pastor?

De qualquer forma, Deus prepara sempre os seus triunfos universais com triunfos particulares.

Ele forjou esta alma incomum e transformou-a no Seu Divino Querer de tal maneira que, da vontade desta alma e da Vontade de Jesus adorável, se formasse uma única: a Divina Vontade.

Quem sabe quantas almas se hão de formar com esta doutrina celeste, antes que chegue o seu triunfo universal.

* * *

 

EXORTAÇÃO

 

Ó almas que amais a Jesus Cristo, ó almas que fazeis a profissão de vida espiritual e especialmente vós, Esposas de Jesus Cristo, a Ele consagradas com os votos ou com a pertença às sagradas Congregações, considerai, de todas as informações acima mencionadas, quanta felicidade proporcionais ao Coração santíssimo de Jesus quando praticais estas Horas da Paixão. É particularmente para vós que este Relógio da Paixão foi inspirado por nosso Senhor nessa alma solitária e contemplativa, que desde há muitos anos o exerce com grande proveito para si mesma e para toda a Santa Igreja. Graças especiais vos são reservadas se vos afeiçoardes a este santo exercício diário e tiverdes os mesmos sentimentos e as mesmas disposições da alma que o ditou e o pratica há muitos anos.

Dos sentimentos tão íntimos e das disposições tão amorosas desta alma, passareis aos sentimentos e às disposições mesmas de nosso Senhor Jesus Cristo nas 24 Horas em que padecia por nosso amor. É impossível que neste exercício compassivo, as almas não se encontrem com a Mãe das Dores e não se unam à mesma compaixão e aos mesmos afetos incompreensíveis da Mãe de Deus! Será uma vida com Jesus sofredor e com Maria dolorosa, o desfrutar dos imensos bens eternos para si e para todos!

O que dizer do grande bem que isto seria para cada Comunidade religiosa, em vista de progredir em santidade, conservar-se, crescer em número de almas eleitas e gozar da mais genuína prosperidade? Portanto, quanto empenho cada Comunidade deveria assumir, praticando constantemente este piedoso exercício! E as almas daquela Comunidade, que dia após dia se aproximariam da Santa Mesa, receberiam a sagrada Comunhão com tais disposições de fervor e amor a Jesus, que em cada Comunhão seriam como que renovadas as núpcias da alma com Jesus, na mais íntima e crescente união de amor!

Se Jesus, por uma só alma que percorresse estas Horas, pouparia castigos àquela cidade e concederia graças a tantas almas quantas são as palavras deste Relógio doloroso, quantas graças poderia esperar uma Comunidade, de quantos defeitos e abatimentos seria curada ou preservada, e de quantas almas obteria a santificação e a salvação, praticando este piedoso exercício!

Se em cada Comunidade houvesse uma alma que se aplicasse em praticá-lo com maior atenção durante o dia, ainda que no meio das jornadas atarefadas, e à noite com uma breve vigília!

Porém, seria o cúmulo do divino e o máximo do proveito para a Comunidade e para o mundo inteiro, se tal exercício fosse praticado por todas, alternadamente, de dia e de noite!

* * *

 

O prefácio e demais introduções foram escritos pelo confessor extraordinário da serva de Deus  Luísa Piccarreta, cônego Aníbal Maria di Francia, fundador dos Padres Rogacionistas e das Irmãs do Divino Zelo, canonizado por Sua Santidade São João Paulo II.

Santo Aníbal esteve por vários anos encarregado da publicação dos escritos de Luísa, o que fez com grande empenho até a sua morte. A obra de Luísa continuou e o Livro do Céu conta com trinta e seis volumes publicados.

 

 

 

PUBLICAÇÃO DE UMA CARTA ENVIADA PELA PIEDOSA

AUTORA  AO REV. MO CÔNEGO ANÍBAL DI FRANCIA

 

“Reverendíssimo Padre,

Eis que finalmente lhe envio as Horas escritas da Paixão, e tudo para glória de nosso Senhor. Incluo também outro folheto que contém os afetos e as lindas promessas de Jesus para quem pratica estas Horas da Paixão. Julgo que se quem as meditar for pecador, se converterá; se é imperfeito, se tornará perfeito; se é santo, será mais santo; se é tentado, triunfará; se é sofredor, encontrará nestas Horas a força, o remédio e o conforto; e se a sua alma é frágil e pobre, encontrará o alimento espiritual e um espelho onde se admirará continuamente para se embelezar e tornar-se semelhante a Jesus, nosso modelo. A satisfação que o bendito Jesus experimenta da meditação destas Horas é tão grande que desejaria que destas meditações houvesse pelo menos um exemplar para cada cidade ou aldeia e elas fossem praticadas; então, nessas reparações, Jesus sentiria reproduzir-se a Sua própria voz e as Suas orações, assim como Ele dirigia ao Seu Pai nas 24 Horas da Sua dolorosa Paixão; e se isto fosse feito em cada aldeia ou cidade por algumas almas, Jesus parece fazer-me entender que a Justiça divina ficaria parcialmente aplacada e, em parte, terminariam e seriam interrompidos os seus flagelos nestes tristes tempos de desgraça e de derramamento de sangue.

Reverendo Padre, dirija este apelo a todos: cumpra assim, a pequena obra que o meu amável Jesus me fez realizar. Digo-lhe também que o objetivo destas Horas da Paixão não é tanto de narrar a história da Paixão, dado que existem muitos livros que abordam este piedoso tema, e não seria necessário escrever outro; mas a sua finalidade é a reparação, unindo os vários pontos da Paixão de nosso Senhor à diversidade de tantas ofensas e, juntamente com Jesus, fazer a digna reparação das mesmas, fazendo-lhe quase tudo aquilo que todas as criaturas lhe devem; e daqui, os vários modos de reparação. Nestas Horas, isto  é, em alguns trechos, abençoa-se e em outros compadece-se; em alguns louva-se e em outros conforta-se o sofredor; em alguns compensa-se e em outros suplica-se, reza-se e pede-se. Por isso, deixo-lhe, Reverendo Padre, a tarefa de tornar conhecida a finalidade destes escritos com um prefácio.”

* * *

 

 

 

IMPORTÂNCIA E VALOR DAS “VINTE E QUATRO HORAS

DA PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO”

 

Luísa, Livro do Céu, vol.7  – 9 de novembro de 1906.

 

Efeitos de sempre meditar na Paixão.

 

Encontrando-me no meu estado habitual, estava a pensar na Paixão de nosso Senhor, e enquanto fazia isto, Ele veio e disse-me:

 

“Minha filha, agrada-Me tanto quem vai meditando sempre na Minha Paixão, a sente e  compadece de Mim, que me sinto recompensado por tudo aquilo que sofri durante a Minha Paixão, e a alma, meditando sempre nela, prepara um alimento contínuo, e neste alimento existem diversos temperos e sabores que produzem diversos efeitos. Assim, como durante a Minha Paixão me deram cordas e correntes para me prenderem, assim a alma me desata e me dá a liberdade; eles desprezaram-Me, escarraram-Me e desonraram-Me; ela estima-Me, limpa-Me daqueles escarros e honra-Me; eles despiram-Me e flagelaram-Me; ela cura-Me e veste-Me; eles coroaram-me de espinhos tratando-Me como falso rei, amargaram-Me a boca com fel e crucificaram-Me; a alma, meditando todas as Minhas penas, coroa-Me de glória e honra-Me como seu Rei, enche-Me a boca de doçura, dando-Me o alimento mais delicioso, que é a memória das Minhas próprias obras, e, despregando-Me da Cruz, faz-Me ressuscitar no seu coração. Dou-lhe, como recompensa, cada vez que faz isto, uma nova vida de graça, de modo que ela é o Meu alimento, e Eu, faço-Me seu alimento contínuo. Por isso, a coisa que mais Me agrada é o meditar sempre na Minha Paixão.”

***

 

 

Luísa, Livro do Céu, vol. 11 – 10 de abril de 1913.

 

Efeitos dos exercícios das Horas da Paixão

 

Esta manhã, o meu sempre amável Jesus veio e estreitando-me ao seu coração, disse-me:

 

“Minha filha, quem pensa sempre na Minha Paixão forma no seu coração uma nascente, e quanto mais pensa nela, mais esta nascente cresce; e assim, como as águas que brotam dela são águas para todos, esta nascente da Minha Paixão, que se forma no coração, serve para o bem da alma, para a Minha glória e para o bem de todas as criaturas.”

E eu: “Meu bem, diz-me o que darás como recompensa àqueles que farão as Horas da Paixão como Tu me ensinaste?”

E Ele: “Minha filha, não olharei para estas Horas como coisas vossas, mas como feitas por Mim, e vos darei os Meus próprios méritos e os mesmos efeitos, como se Eu estivesse sofrendo a Minha Paixão em ato, segundo a disposição das almas; nesta terra, não podia dar-lhes prêmio maior. Depois, no Céu, irei colocá-las de frente, lançando-as com setas de amor e de contentamento, por quantas vezes fizeram as Horas da Minha Paixão, e elas Me lançarão a Mim. Isto será um doce encanto para todos os bem-aventurados!”

Então ele acrescentou: “O Meu amor é como fogo, mas não como fogo que consome as coisas e destrói os cenários; o meu fogo vivifica, aperfeiçoa, queima e consome só aquilo que não é santo: os desejos, os afetos, os pensamentos que não são bons. Esta é a virtude do Meu fogo: queima o mal e dá vida ao bem.  Então, se a alma não sente em si nenhuma tendência ao mal, pode estar certa que é o meu fogo; se sente em si mesma o fogo e uma mistura de maldade, há muito a duvidar que não seja o Meu verdadeiro fogo.”

***

 

Luísa, Livro do Céu , vol. 11 –  outubro, 1914

 

Valor das Horas da Paixão e a recompensa que Jesus dará para aquele que as faz.

 

Estava a escrever as Horas da Paixão e pensava para comigo: “Quantos sacrifícios fiz para escrever estas benditas Horas da Paixão, sobretudo ao ter que escrever certos atos que ocorreram só entre mim e Jesus! Qual será a recompensa que Ele me dará por tudo isto?”. E Jesus fazendo-me escutar a sua voz suave e melodiosa, disse-me:

“Minha filha, como recompensa, por teres escrito as Horas da Minha Paixão, irei te dar um beijo e uma alma, por cada palavra que escreveste.”

E eu: “Meu Amor, isto é o que dás a mim. E a quem as fizer, o que é que lhe darás?”

E Jesus: “Se as fizerem juntamente Comigo e com a Minha própria Vontade, por cada palavra que recitarem, irei dar-lhes, também, uma alma, porque a maior ou menor eficácia destas Horas da Minha Paixão, encontra-se na maior ou menor união que têm Comigo; e fazendo-as com a Minha Vontade, a criatura esconde-se no Meu Querer, e quando o Meu Querer age, posso fazer todo o bem que quero, mesmo por uma só palavra; e isto cada vez que as fizerem.”

Noutra vez, estava a lamentar-me com Jesus, porque depois de tantos sacrifícios para escrever estas Horas da Paixão, eram tão poucas as almas que as faziam, e Ele:

“Minha filha, não te lamentes; ainda que fosse uma só, deverias estar feliz. Não teria Eu sofrido toda a Minha Paixão ainda que fosse para salvar uma só alma? Assim também tu. Nunca se deve deixar de fazer o bem só porque poucos aproveitarão; o mal é para quem não aproveita. E como a Minha Paixão fez adquirir o mérito à Minha Humanidade como se todos se salvassem; se bem que nem todos se salvem, porque a Minha Vontade queria salvar a todos, e mereci segundo aquilo que Eu queria, não segundo o proveito que teriam as criaturas. Assim tu, na medida em que a tua vontade se uniu à Minha em querer fazer bem a todos, serás recompensada. O mal é para aqueles que podendo fazê-las, não as fazem. Estas Horas são as mais preciosas de todas, porque não são outra coisa senão repetir aquilo que fiz no percorrer da Minha vida mortal e continuo a fazer no Santíssimo Sacramento. Quando sinto estas Horas da Minha Paixão, é como se sentisse a Minha própria voz, as Minhas próprias orações. Naquela alma, vejo a Minha Vontade, que é aquela de querer o bem de todos e de reparar por todos, e Eu, sinto-Me levado a morar nela, para poder fazer nela, aquilo que ela própria faz. Oh, como gostaria que, em cada país, existisse ao menos uma que fizesse estas Horas da Minha Paixão! Iria Me sentir, a Mim próprio, em cada país, e nestes tempos, a Minha Justiça tão descontente, ficaria, em parte, aplacada.”

Acrescento que um dia estava fazendo a hora em que a celeste Mãe sepultou Jesus, e eu a segui para lhe fazer companhia e partilhar a sua amarga desolação. Não era meu costume fazer esta hora. Só a fazia algumas vezes. Estava indecisa se devia fazê-la ou não, e Jesus bendito, todo cheio de amor e como se me pedisse, disse:

“Minha filha, não quero que deixes de fazê-la; irá fazer por amor a Mim e em honra de Minha Mãe. Deves saber que cada vez que tu a fazes, a Minha Mãe sente-se como se estivesse pessoalmente na terra a repetir a sua vida, como se recebesse aquela glória e amor que me deu sobre a terra; e para Mim, é como se a Minha Mãe estivesse de novo na terra; sinto as suas ternuras maternas, o seu amor e toda a glória que Me deu; portanto, será como se fosses Minha mãe.”

 Depois, abraçando-me, sentia dizer baixinho: “Minha Mãe, Mamãe”. E recordava-me aquilo que fez e sofreu a doce Mãe naquela hora, e eu a seguia; e desde então, nunca mais deixei de fazê-la, ajudada por Sua Graça.

***

 

Luísa, Livro do Céu, vol. 11 – 4 de novembro de 1914

 

Complacência de Jesus pela Hora da Paixão.

 

Enquanto fazia as Horas da Paixão, Jesus contentando-se, disse-me:

 

“Minha filha, se tu soubesses o grande prazer que experimento ao ver-te repetir e voltar a repetir sempre estas Horas da Minha Paixão, tu te sentirias feliz. É verdade, que os Meus santos meditaram a Minha Paixão e compreenderam quanto sofri e desfizeram-se em lágrimas de compaixão, por amor às Minhas penas; mas não assim, deste modo tão contínuo e repetido tantas vezes, com esta ordem. De modo que posso dizer que tu és a primeira que Me dás este prazer tão grande e especial e vais repetindo minuciosamente em ti, hora a hora, a Minha vida e aquilo que Eu sofri; e Eu, sinto-Me tão atraído que, hora a hora, dou-te o alimento e como contigo o mesmo alimento, e faço contigo aquilo que tu fazes. Saiba que te recompensarei abundantemente com nova luz e novas graças; e depois da tua morte, no Céu, irei te cobrir sempre de nova luz e glória, todas as vezes que na terra as almas fizerem estas Horas da Minha Paixão.”

 ***

 

Luísa, Livro do Céu, vol. 11 – 6 de novembro de 1914

 

Quem faz as Horas da Paixão faz sua a vida de Cristo, e toma seu próprio ofício.

 

Continuando as habituais Horas da Paixão, o meu amável Jesus disse-me:

“Minha filha, o mundo está em constante ato de renovar a Minha Paixão e, como a Minha imensidade envolve tudo, dentro e fora das criaturas, assim sou constrangido, ao seu contato, a receber cravos, espinhos, flagelos, desprezos, escarros e tudo o mais que sofri na Paixão, e ainda mais. Ora, ao contato com estas almas que fazem estas Horas da Minha Paixão, sinto que Me arrancam os cravos, me tiram os espinhos, me suavizam as Chagas e Me limpam os escarros; sinto que Me retribuem com o bem, o mal que os outros Me fazem; e Eu, sentindo que o seu contato não Me faz mal, mas bem, apoio-Me sempre mais nelas.”

***

 

Luísa, Livro do Céu, vol. 12 – 16 de maio de 1917.

 

Efeitos das Horas da Paixão.

 

Encontrando-me no meu estado habitual, estava a unir-me toda ao meu doce Jesus, e depois me derramava toda nas criaturas, para dar Jesus a todas as criaturas; e o meu amável Jesus me disse:

“Minha filha, cada vez que a criatura se funde em Mim, dá a todas as criaturas o fluxo de vida divina e, segundo a necessidade que as criaturas têm, obtêm o seu efeito: quem é frágil sente a força; quem é obstinado na culpa recebe a luz; quem sofre recebe conforto; e assim para o resto.”

Depois, achei-me fora de mim mesma, encontrava-me no meio de muitas almas – parecia que eram almas do purgatório e santos – e nomeavam uma pessoa que eu conhecia, que tinha falecido não há muito tempo, e me diziam: “Ele sente-se como que feliz ao ver que não existe alma que entre no Purgatório, que não leve a marca das Horas da Paixão, e obsequiadas, ajudadas por estas Horas, tomam o seu posto em lugar seguro; e não existe alma que voe para o Paraíso, que não seja acompanhada destas Horas da Paixão; estas Horas fazem chover do Céu um orvalho contínuo sobre a Terra, no Purgatório e até no Céu”. Ao escutar isto, dizia para comigo: “Certamente, o meu Jesus, para manter a palavra dada, que a cada palavra das Horas da Paixão me daria uma alma, faz com que não exista nenhuma alma que se salve que não se sirva destas Horas.”

Depois voltei a mim, e tendo encontrado o meu doce Jesus, perguntei-lhe se seria verdade.

E Ele: “Estas Horas são a ordem do universo, e colocam em harmonia o Céu e a Terra e sustentam-Me para não mandar destruir o mundo; sinto circular o Meu sangue, as Minhas chagas, o Meu amor e tudo o que fiz, e deslizam em todos para salvar a todos. E quando as almas fazem estas Horas da Minha Paixão, sinto colocar a caminho o Meu sangue, as Minhas chagas, as Minhas ânsias de salvar as almas, e sinto repetir a Minha vida. Como poderão as criaturas obter algum bem se não for por meio destas Horas?  Por que dúvidas? Isto não é coisa tua, mas Minha; tu foste o instrumento forçado e débil.”

 ***

 

Oração de Preparação para ser feita antes de cada Hora

 

Ó meu Senhor Jesus Cristo, prostrado diante da Tua Presença divina, suplico ao Teu amorosíssimo Coração que me admita à dolorosa meditação das Vinte e Quatro Horas da Tua Paixão durante as quais, por amor a nós, tanto sofreste no Teu Corpo adorável e na Tua Alma santíssima, até a morte de cruz. Ajuda-me e dá-me graça, amor, profunda compaixão e compreensão dos Teus sofrimentos, agora, enquanto medito a Hora_____ (mencionar a Hora).

E por aquelas Horas que não posso meditar, Te ofereço a vontade e o desejo que tenho de as meditar em todas as horas que sou obrigado a me aplicar aos meus deveres ou a repousar.

Ó misericordioso Senhor, aceita a minha amorosa intenção e faz com que ela seja de proveito para mim e para todos, como se, efetiva e santamente, realizasse o quanto eu desejaria praticar.

Eu Te dou graças, ó meu Jesus, que por meio da oração me chamas à união Contigo; e, para Te agradar ainda mais, tomo os Teus pensamentos, a Tua língua, o Teu Coração e, com eles, desejo rezar, me unindo inteiramente a Ti, na Tua Vontade e no Teu amor.

Ao estender meus braços para Te abraçar, apoio a minha cabeça no Teu Coração e dou início a esta Hora.

 

 

 

Oração de Agradecimento para ser feita depois de cada Hora

 

Ó meu Jesus, Tu me chamaste para Te fazer companhia nesta Hora da Tua Paixão e eu vim. Parecia-me que Te ouvia, angustiado e sofredor, a reparar e sofrer, e a pedir, com as palavras mais comovedoras e eloquentes, a salvação das almas.

Procurei Te seguir em tudo e agora, ao Te deixar para me dedicar aos meus afazeres, sinto o dever de dizer: eu Te agradeço e bendigo!

Sim, ó Jesus, repito: eu Te agradeço milhares de vezes e Te bendigo por tudo o que fizeste e sofreste por mim e por todos. Eu Te agradeço e bendigo por cada gota de sangue que derramaste, por cada respiro, palpitação, passo, palavra, olhar; e também pela amargura e ofensa que padeceste. Por tudo, ó meu Jesus, eu Te agradeço e bendigo!

Ó Jesus, faz com que de todo o meu ser brote um fluxo contínuo de gratidão e bênçãos, de forma a atrair sobre mim e sobre todos o derramamento das Tuas bênçãos e graças. Ó Jesus, me aperta ao Teu Coração e com as Tuas mãos santíssimas, assinala cada partícula do meu ser com o Teu “abençoo-Te”, para que de mim brote um hino contínuo de louvor a Ti.

 

 

Primeira Hora – das 5 às 6 da tarde

Jesus despede-se de Sua santíssima Mãe

 

Ó Mãe celeste, aproxima-se a hora da separação, e quero estar junto de ti. Ó Mãe, dá-me o teu amor, as tuas reparações e a tua dor, porque quero seguir contigo, passo a passo, o adorado Jesus. E eis que Jesus vem, e tu, com o ânimo transbordante de amor, corres ao Seu encontro e, O vendo tão pálido e triste, o teu Coração se aperta de dor, as forças te faltam e já estás prestes a cair a Seus pés.

Ó Mãe, te abraço, com toda a ternura de que é capaz este meu pobre coração, a fim de que, abraçado e unido a ti, eu também possa receber os abraços do adorado Jesus. Será que não te cansarás de mim? Creio que não; antes, não será um conforto para o teu coração ter uma alma perto de ti, com a qual possas dividir os sofrimentos, os afetos, as reparações?

Ó Jesus, nesta hora tão angustiante para o Teu terníssimo Coração, que ensinamento nos dás, de filial e amorosa obediência à Tua Mãe! Que doce harmonia perpassa entre Ti e Maria! Que suave encanto de amor sobe até o trono do Eterno e se dilata para a salvação de todas as criaturas da terra!

Ó minha Mãe celeste, sabes o que o adorado Jesus quer de ti? Nada mais que a última bênção. É verdade que, de todas as partículas do teu ser, saem somente bênçãos e louvores a Teu Criador; mas Jesus, ao despedir-se de ti, quer escutar a doce palavra: “Ó Filho, abençoo-Te”. E aquela bênção afasta todas as blasfêmias do Seu Ouvido e, doce e suave, desce ao Seu Coração; Jesus quer o teu “abençoo-Te” como que para colocar uma reparação em todas as ofensas das criaturas.

Também eu me uno a ti, ó doce Mãe: nas asas dos ventos quero girar pelo Céu e pedir ao Pai, ao Espírito Santo e a todos os Anjos, um “abençoo-Te” para Jesus, a fim de que, quando formos nos encontrar com Ele, possamos levar-Lhe as suas bênçãos. E, aqui na terra, desejo ir a todas as criaturas e pedir de todos os lábios, de cada palpitação, de cada passo, de cada respiro, de cada olhar, de cada pensamento, bênçãos e louvores para Jesus; e, se alguma não me quiser dá-los, eu o farei por ela.

Ó doce Mãe, depois de ter girado e voltado a girar, para pedir à Santíssima Trindade, aos Anjos, a todas as criaturas, à luz do sol, ao perfume das flores, às ondas do mar, a cada sopro de vento, a cada centelha de fogo, a cada folha que se move, ao brilho das estrelas, a cada movimento da natureza, um “abençoo-Te”; venho a ti e, juntamente às tuas, coloco as minhas bênçãos.

Ó minha doce Mãe, vejo que Tu recebes conforto e alívio e ofereces a Jesus todas as minhas bênçãos, em reparação das blasfêmias e maldições que Ele recebe das criaturas. Mas enquanto ofereço tudo a ti, ouço a tua voz trêmula que diz: “Filho, abençoa-me também!”

Ó Jesus, meu doce Amor, me abençoa juntamente com a Tua Mãe; abençoa os meus pensamentos, o meu coração, as minhas mãos, as minhas obras, os meus passos e, com a Tua Mãe, abençoa todas as criaturas.

Ó minha Mãe, quando olhas para o rosto do amargurado Jesus, pálido, triste e sofredor, nasce em ti a recordação das dores que, dentre em pouco, Ele irá sofrer. Prevês o Seu rosto coberto de escarros, a cabeça trespassada pelos espinhos, os olhos vedados, o Corpo dilacerado pelas flagelações, as mãos e os pés furados pelos cravos, e tu a abençoá-Lo. Aonde quer que Ele vá, tu o segues com as tuas bênçãos; contigo, eu também O sigo. Quando Jesus for atingido pelas flagelações, coroado de espinhos, esbofeteado, trespassado pelos pregos, encontrará em toda a parte, juntamente com o teu, também o meu “abençoo-Te”.

Ó Jesus, ó Mãe, tenho compaixão de vós; a vossa dor é imensa nestes últimos momentos; o coração de um, parece arrebatar o coração do outro.

Ó Mãe, tira o meu coração da terra e prende-o com força a Jesus, a fim de que, junto a Ele, possa tomar parte nas Tuas dores e, enquanto vos estreitais, vos abraçais, vos lançais mutuamente os últimos olhares, os derradeiros beijos, estando no meio dos vossos corações, eu possa receber os vossos últimos beijos, os vossos derradeiros abraços. Não vedes que não posso ficar sem vós, apesar da minha miséria e da minha frieza?

Ó Jesus, ó doce Mãe, conservai-me unido a vós; dai-me o vosso amor, o vosso desejo; fulminai o meu pobre coração, me mantenha em vossos braços; e, contigo, ó doce Mãe, quero seguir, passo a passo, o adorado Jesus com a intenção de Lhe dar conforto, alívio, amor e reparação por todos.

Ó Jesus, juntamente com a Tua Mãe, beijo o Teu pé esquerdo, implorando que me perdoes, assim como a todas as criaturas, pelas inúmeras vezes que não caminhamos para Deus.

Beijo o Teu pé direito: perdoa-me, a mim e a todos, pelas vezes que não seguimos a perfeição que Tu desejavas de nós.

Beijo a Tua mão esquerda: comunica-nos a Tua pureza.

Beijo a Tua mão direita: abençoa todas as minhas palpitações, pensamentos, afetos, a fim de que, revigorados por Tua bênção, todos se santifiquem; e comigo, abençoa ainda todas as criaturas e sela a salvação de suas almas com a Tua bênção.

Ó Jesus, juntamente com a Tua Mãe Te abraço e, beijando o Teu Coração, Te peço que coloques no meio dos vossos corações, também o meu, para que se alimente continuamente dos vossos amores, das vossas dores, dos vossos próprios afetos, dos vossos desejos e da vossa própria vida. Assim seja!

 

Reflexões e práticas

 

Antes de dar início à Sua Paixão, Jesus vai ao encontro de Sua Mãe para pedir-lhe a bênção. Neste ato, Jesus nos ensina a obediência, não apenas externa, mas também interna, que devemos ter para corresponder às inspirações da Graça. Às vezes, não estamos prontos a concretizar uma boa inspiração, ou porque somos impedidos pelo amor-próprio a que se une à tentação, ou por respeito humano, ou ainda, por não fazer santa violência a nós mesmos.

Contudo, quando rejeitamos a boa inspiração de exercer uma virtude, de realizar um ato virtuoso, de fazer uma boa obra, de praticar uma devoção, fazemos com que o Senhor se afaste, privando-nos de novas inspirações.

Ao contrário, a pronta correspondência, piedosa e prudente às santas inspirações, nos atrai luzes e graças maiores.

Em caso de dúvida, recorre-se, prontamente e com reta intenção, ao grande instrumento da oração e ao conselho reto e honesto. Assim, o bom Deus não deixa de iluminar a alma para realizar a salutar inspiração e dar-lhe sempre mais, para seu próprio proveito.

As nossas ações, nossas orações, as Horas da Paixão, devemos fazê-las com as mesmas intenções de Jesus, segundo a Sua Vontade, sacrificando-nos a nós mesmos, como Ele fez, para a glória do Pai e para o bem das almas.

Devemos estar dispostos a sacrificar-nos em tudo por amor a nosso amável Jesus, conformando-nos ao Seu Espírito, agindo com os Seus próprios sentimentos e abandonando-nos n’Ele, não só em todas as dores e contrariedades externas, mas, sobretudo, em tudo aquilo que puder dispor o nosso interior; assim, no momento oportuno, nos encontraremos prontos a aceitar qualquer sofrimento. Fazendo assim, daremos ao nosso Jesus pequenas porções de doçura; além disso, se fizermos tudo isto segundo a Vontade de Deus, que contém todas as ternuras, todas as alegrias de modo imenso, daremos a Jesus grandes porções de doçura, de maneira a aliviar a amargura que Lhe proporcionam as criaturas e consolar o Seu Coração Divino.

Antes de começar qualquer ação, invoquemos sempre a bênção de Deus, para fazer com que as nossas ações tenham o toque da divindade e atraiam as suas bênçãos sobre nós e sobre todas as criaturas.

Meu Jesus, a Tua bênção me preceda, me acompanhe e me siga, a fim de que tudo o que eu fizer possua o sinal do Teu “abençoo-Te”.

 

 

 

Segunda Hora – Das 6 às 7 da noite

Jesus separa-se de Sua santíssima Mãe e vai ao Cenáculo

 

Meu adorável Jesus, depois de ter participado das Tuas dores e das dores de Tua aflita Mãe, vejo que decides partir, ir para aonde a Vontade do Pai Te chama. O amor entre Filho e Mãe é tanto que vos torna inseparáveis; amor pelo qual Tu te abandonas ao coração da Mãe, e a Rainha e doce Mãe se coloca no Teu; de outro modo seria impossível separar-vos. Depois, abençoando-vos reciprocamente, Tu lhe dás o último beijo, para fortalecê-la nas dores amargas que está para suportar; lhe dás o último adeus e partes.

A palidez do Teu rosto, os Teus lábios trêmulos, a Tua voz sufocada, como se quisesses desatar em pranto ao dizer adeus, tudo me diz quanto a amas e como sofres ao deixá-la!

Mas para cumprir a Vontade do Pai, com os vossos corações unidos, vos submeteis a tudo, desejando reparar por aqueles que, para não renunciar às ternuras de parentes e amigos, aos vínculos e afetos, não se preocupam em cumprir a Santa Vontade de Deus, nem em corresponder ao estado de santidade a que Deus os chama. Quanta dor Te causam estas almas, ao afastarem do Seu Coração o amor que lhes queres dar, para contentarem-se do amor das criaturas!

Meu adorável Amor, enquanto reparo Contigo, permite-me que permaneça com a Tua Mãe para consolá-la e sustentá-la, enquanto partes; depois acelerarei o passo para ir ao Teu encontro. Mas é com suma dor que vejo que a minha angustiada Mãe treme, e a dor é tanta que, enquanto está prestes a dizer adeus ao Filho, a voz morre em seus lábios e ela não consegue articular uma só palavra; quase desfalece e no seu desfalecimento de amor diz: “Meu Filho, meu Filho, abençoo-Te! Que amarga separação, mais cruel que toda a morte!”. Mas a dor a impede de falar e a emudece!

Rainha desconsolada, deixa-me que te ampare, que enxugue as tuas lágrimas e que me compadeça diante da tua amarga dor! Minha mãe, não te deixarei sozinha; e tu, leva-me contigo, ensina-me neste período tão doloroso para ti e para Jesus, o que devo fazer, como hei de defendê-lo, repará-lo e consolá-lo, e se devo entregar a minha vida para salvaguardar a sua.

Não, não me afastarei debaixo de teu manto. Ao teu sinal, voarei até Jesus e Lhe apresentarei o teu amor, os teus afetos, os teus beijos juntamente com os meus, e os colocarei em cada ferida, em cada gota do Seu sangue, em cada sofrimento e insulto a fim de que, sentindo os beijos e o amor da Mãe, as Suas dores sejam aliviadas. Depois, voltarei para baixo do teu manto, levando- te os Seus beijos para confortar o teu coração trespassado. Minha Mãe, o meu coração bate forte, quero ir ao encontro de Jesus. E enquanto beijo as tuas mãos maternas, abençoa-me como abençoaste  Jesus e permite que eu vá me encontrar com Ele.

Meu doce Jesus, o amor indica-me os Teus passos e alcanço-Te, enquanto percorres as ruas de Jerusalém juntamente com os Teus amados discípulos. Olho para Ti e vejo-Te ainda pálido. Ouço a Tua voz doce, sim, mas tão triste que despedaça o coração de Teus discípulos, que estão inquietos.

“É a última vez – dizes – que percorro estas ruas sozinho; amanhã irei percorrê-las atado, arrastado entre mil insultos”. E indicando os pontos onde serás mais desonrado e dilacerado, continuas a dizer: “A Minha vida aqui na terra está para terminar, assim como o sol está prestes a se pôr; amanhã a esta hora já não estarei vivo! Mas, como o sol, ressurgirei no terceiro dia!”

Quando dizes isto, os apóstolos se entristecem, se calam e não sabem o que responder. Mas Tu acrescentas: “Coragem, não vos desanimeis; Eu não vos abandono e estarei sempre convosco; porém, é necessário que Eu morra para o bem de todos vós.”

Ao dizeres isto, ficas comovido, mas com voz trêmula continuas a instruí-los. E antes de Te fechares no Cenáculo, contemplas o sol que se põe, como a Tua vida  que está para terminar; ofereces os Teus passos por aqueles que se encontram no ocaso da própria vida e lhes dá a graça de fazer com que esta termine em Ti, reparando por aqueles que, apesar dos desgostos e desenganos da vida, obstinam-se em não se renderem a Ti.

Depois olhas de novo para Jerusalém, o centro dos Teus prodígios e das predileções do Teu Coração, e que, em retribuição, já Te está preparando a cruz, afiando os pregos para cometer o deicídio. E Tu estremeces, sentes o Teu Coração destroçado e choras a destruição de Jerusalém.

Assim, reparas por tantas almas a Ti consagradas, que com muito cuidado procuravas formar como prodígios do Teu amor, e elas, ingratas e não reconhecidas, fazem-Te padecer mais amarguras! Quero reparar Contigo para aliviar o tormento do Teu coração.

Mas vejo que ficas horrorizado ao ver Jerusalém e, afastando o olhar, entras no Cenáculo. Meu Amor, aperta-me ao Teu Coração a fim de que eu faça minhas as Tuas amarguras, para oferecê-las Contigo; conservas com piedade a minha alma e, derramando sobre ela o Teu amor, abençoa-me.

 

Reflexões e práticas

 

Jesus separa-se de Sua Mãe com prontidão, contudo, isto suscita aflição ao Seu Coração extremamente terno.

Estamos nós, prontos a sacrificar também os afetos mais legítimos e santos para cumprir a Divina Vontade? (Examinemo-nos especialmente nos casos de afastamento da Presença Divina sensível ou da devoção sensível).

Jesus não dava estes últimos passos em vão; neles, glorificava o Pai e pedia a salvação das almas. Nos nossos passos, devemos ter as mesmas intenções de Jesus, ou seja, de nos sacrificarmos pela glória do Pai e para o bem das almas. Além disso, devemos imaginar que seguimos as pegadas de Jesus Cristo, que não caminhava em vão, mas inseria nos Seus passos aqueles de todas as criaturas, reparando todos os passos equivocados, para prestar ao Pai a glória devida, e dava vida a todos os passos desacertados das criaturas, para que pudessem percorrer o caminho do bem. Assim faremos nós agora, seguindo as pegadas de Jesus Cristo com as Suas próprias intenções.

Quando caminhamos pela rua, o fazemos com modéstia, recolhidos de modo a servir de exemplo para os outros? Enquanto Jesus caminhava aflito, de vez em quando dirigia algumas palavras aos apóstolos, falando-lhes da Sua Paixão já iminente; e nós, em nossas conversas, o que dizemos?

Em nossas conversas, quando nos é oferecida a ocasião, falamos do argumento da Paixão do Divino Redentor?

Jesus, cheio de amor, procurava confortar os apóstolos quando eles se entristeciam e desanimavam. Em nossas conversas, manifestamos a intenção de aliviar Jesus Cristo? Procuramos cumprir a Vontade de Deus, infundindo no próximo o espírito de Jesus Cristo?

Jesus vai ao Cenáculo: devemos colocar nossos pensamentos, afetos, palpitações, preces, ações, alimentação e trabalho no Coração de Jesus Cristo, no ato de operar; agindo assim, nossas ações vão adquirir a atitude divina. Não é fácil, porém, ter sempre esta atitude divina, porque dificilmente a alma pode fundir, continuamente, os seus atos n’Ele; pode, no entanto, suprir com a atitude da sua boa vontade, e assim agradará muito a Jesus. Ele se fará sentinela vigilante de cada um dos seus pensamentos, palavras e palpitações; os manifestará dentro e fora de Si, conservando-os com grande amor, como fruto da boa vontade da criatura. Quando a alma, fundindo-se n’Ele, faz os seus atos ao mesmo tempo com os de Jesus, o bom Jesus sente-se tão atraído por esta alma, que fará com ela aquilo que ela faz, e transformará em divina a ação da criatura. Tudo isto é efeito da bondade de Deus, que tudo considera e tudo recompensa, mesmo que seja um pequeno ato, na Vontade de Deus, para fazer com que a criatura em nada seja defraudada.

Ó minha Vida e meu Tudo, os Teus passos orientem os meus e, enquanto piso a terra, faz com que os meus pensamentos estejam no Céu!

 

 

 

Terceira Hora – Das 7 às 8 da noite

A Ceia segundo a Lei

 

Ó Jesus, já chegas ao Cenáculo e juntamente com os Teus amados discípulos, senta-Te à mesa para cear com eles. Quanta doçura, quanta afabilidade demonstras em toda a Tua Pessoa, abaixando-Te para tomar pela última vez o alimento material! Em Ti, tudo é amor; também nisto Tu não só reparas os pecados da gula, mas imploras a santificação do alimento.

Jesus, minha Vida, o Teu olhar dócil e penetrante parece perscrutar todos os apóstolos e, naquele ato de tomar o alimento, também o Teu Coração é trespassado ao ver os Teus queridos ainda débeis e frágeis, especialmente o pérfido Judas, que já colocou o pé no Inferno. E Tu, do íntimo do Teu coração, dizes com amargura: “Qual é a utilidade do Meu sangue? Eis uma alma que tanto beneficiei: está perdida!”

Olhas para ele com os Teus olhos cintilantes de luz e de amor, como que para fazer-lhe compreender o grande mal que está prestes a cometer. Mas a Tua suprema caridade faz com que suportes esta dor e não a manifeste nem sequer aos Teus amados discípulos.

E, enquanto Te entristeces por Judas, o Teu Coração cumula-se de alegria quando vês, à Tua esquerda, o Teu amado discípulo, João, a tal ponto que, não podendo mais conter o amor, atraindo-o docilmente, Tu o fazes reclinar a cabeça sobre o Teu peito, fazendo-o provar do Paraíso antecipado.

É nesta hora solene que, nos dois discípulos, são representados os dois povos: o dos reprovados e o dos eleitos; o dos reprovados, em Judas, que já sente o Inferno no seu coração; o dos eleitos, em João, que em Ti deleita-se e descansa.

Ó meu doce Bem, também eu me aproximo de Ti e, juntamente com o Teu amado discípulo, quero reclinar minha cabeça no Teu adorável peito e suplicar-Te que me faças experimentar, nesta terra, as delícias do Céu; assim, arrebatado pelas doces harmonias do Teu coração, para mim, a terra já não seja terra, mas Céu.

Mas nessas harmonias dulcíssimas e divinas, percebo que em Ti se sentem palpitações dolorosas pelas almas perdidas. Ó Jesus, por favor, não permitas que outras almas se percam; faz com que a Tua palpitação, pulsando nelas, faça-as experimentar as palpitações da vida celeste, como as sentiu João, o Teu amado discípulo e, atraídas pela suavidade e docilidade do Teu amor, todas   elas possam render-se a Ti.

Ó Jesus, enquanto permaneço apoiado no Teu peito, dá-me também o alimento, como o deste aos apóstolos: o alimento do amor, o alimento da Palavra Divina, o alimento da Tua Divina Vontade. Ó meu Jesus, não me negues este alimento que tanto desejas dar-me, para que em mim se forme a Tua própria Vida.

Meu doce Bem, enquanto estou perto de Ti, vejo que é um cordeiro o alimento que Tu tomas com os Teus amados discípulos. Este é o cordeiro figurativo; e, assim como neste cordeiro não permanece humor vital, pela força do fogo, também Tu, Cordeiro místico, pela força do amor, vais Te consumar inteiramente pelas criaturas; não conservarás sequer uma gota de sangue para Ti, derramando-o todo por nosso amor.

Por isso, ó Jesus, nada fazes que não represente vivamente a Tua dolorosíssima Paixão, que tens sempre presente na mente, no Coração, em tudo; assim, ensina-me que, se também eu tiver diante da mente e no coração o pensamento da Tua Paixão, jamais me negarás o alimento do Teu amor. Quanto te agradeço!

Ó meu Jesus, não Te passa despercebido qualquer ato que me diz respeito e que não tenhas a intenção de me concederes um bem especial. Por isso, peço-Te que a Tua Paixão esteja sempre na minha mente, no meu coração, nos meus olhares, nos meus passos e nos meus sofrimentos, a fim de que, para onde quer que me volte, dentro e fora de mim, Te encontre sempre presente; e concede-me a graça de nunca esquecer o que sofreste e padeceste por mim. Este seja meu  ímã que, atraindo todo o meu ser, nunca deixe afastar-me de Ti.

 

Reflexões e práticas

 

Antes de tomar o alimento, unamos nossas intenções àquelas do nosso amável e bom Jesus, imaginando que na nossa boca está a boca de Jesus, e movamos a nossa língua e as nossa faces unidas às Suas.

Fazendo assim, não só atrairemos a nós a vida de Jesus Cristo, mas nos uniremos a Ele para prestar ao Pai a glória, o louvor, o amor, a ação de graças e a reparação completa devida às criaturas, e que o bom Jesus fazia no ato de tomar o alimento. Imaginemos também que estamos à mesa, perto de Jesus e, depois de olharmos para Ele e pedirmos que compartilhe a refeição conosco, beijamos a orla do Seu manto,  contemplamos o movimento dos Seus lábios, dos Seus olhos celestes e observamos o repentino obscurecimento do Seu amabilíssimo rosto ao prever tantas ingratidões humanas!

Como o amado Jesus, que durante a ceia falava da sua Paixão, assim nós, ao tomarmos o alimento, faremos algumas reflexões sobre o modo como fizemos as Horas da Paixão. Os Anjos se inclinam aos nossos lábios para recolher nossas preces, nossas reparações, e levá-las diante do Pai para aliviar, de alguma forma, a Sua justa indignação por tantas ofensas que recebe das criaturas, como lhe faziam quando o nosso Jesus estava na terra. E nós, quando rezamos, podemos dizer que nos recolhemos e fomos reverentes e que os Anjos ficaram felizes porque puderam levar ao Céu, com alegria, nossas orações, como fizeram com as do nosso Jesus? Ou ficaram entristecidos?

Enquanto o aflito Jesus tomava o alimento, ficava petrificado ao ver que perdia Judas e, em Judas, via todas as almas que se perderiam. E, sendo a perda das almas o Seu maior sofrimento, sem poder contê-lo, chamou João para perto de Si, para dele receber conforto. Assim, também nós, como João, estaremos sempre próximos, compadecendo-nos de Suas dores, alentando-O e dando-Lhe descanso em nosso coração; faremos nosso o Seu sofrimento, nos identificaremos n’Ele e, assim, sentiremos as palpitações daquele Coração Divino, trespassado pela perda das almas. E nós Lhe daremos as nossas palpitações para curar aquelas feridas e, no lugar destas, colocaremos as almas que querem extraviar-se, a fim de que se convertam e se salvem.

Cada palpitação do Coração de Jesus é um “Eu te amo” que repercute em todas as palpitações do coração das criaturas; desejaria encerrar todas no Seu Coração para ter, em contrapartida, a palpitação destas. Mas o amante Jesus não possui a palpitação de muitas delas e, por isso, a Sua palpitação fica como que sufocada e amargurada. E nós, rezamos a Jesus para que assinale a nossa palpitação com o Seu “Eu te amo”, a fim de que também o nosso coração possa viver a vida do Seu Coração que, repercutindo-se na palpitação das criaturas, obrigue-as a dizer: “Jesus, eu te amo”? Aliás, nos uniremos a Ele e o amável Jesus nos fará sentir o Seu “Eu te amo” que cumula Céu e terra, circula nos Santos e desce ao Purgatório; todos os corações das criaturas são sensibilizados por esse “Eu te amo” e os próprios elementos sentem a nossa vida, de tal forma que todos experimentam os seus efeitos. Também na Sua respiração, Jesus se sente como que sufocado em virtude da perda das almas. E nós, daremos a Ele nossa respiração de amor para o Seu alívio e, tomando o Seu respiro, sensibilizaremos as almas que se afastam dos Seus braços, a fim de lhes dar a vida da respiração divina, para que, em vez de fugirem, possam retornar e estreitar-se mais a Ele?

E, quando nos encontramos em dificuldade e sentimos que a nossa respiração não é tão livre, então pensemos em Jesus, que na Sua respiração contém o respiro das criaturas: também Ele, quando as almas se perdem, sente que Lhe falta a respiração; então, inserimos o nosso respiro doloroso e ofegante na  respiração de Jesus para aliviá-Lo e, com o nosso sofrimento, corramos ao pecador para obrigá-lo a encerrar-se no Coração de Jesus.

Meu amado Bem, minha respiração seja um grito contínuo por cada respiração da criatura e a force a fechar-se em Tua respiração.

A primeira palavra que Jesus amado pronunciou na cruz foi a palavra de perdão, para justificar, perante o Pai, todas as almas, para transformar a justiça em misericórdia. E nós, lhe daremos  nossos atos como perdão dos pecadores a fim de que, compadecido por nossas desculpas, nenhuma alma possa ir para o Inferno? Nós nos uniremos a Ele como sentinelas dos corações das criaturas, para que ninguém O ofenda? Iremos fazer desabafar no amor, aceitando de boa vontade tudo o que se dispuser a nós: friezas, insensibilidades, obscuridades, opressões, tentações, distrações, calúnias, enfermidades e outras coisas, para aliviá-Lo das ofensas que recebe das criaturas? Não é somente com o amor que Jesus desabafa com as almas, mas muitas vezes, quando sente a frieza das criaturas, vai à alma e faz-lhe experimentar a Sua frieza, para desabafar com ela; e, se a alma a aceita, Jesus se sentirá aliviado de todas as friezas das criaturas, e esta frieza será a sentinela no coração dos outros, para fazer com que Jesus seja amado.

Outras vezes, Jesus experimenta no Seu Coração a insensibilidade dos corações e, não podendo contê-la, quer desabafar e vem ter conosco; toca o Seu Coração com o nosso, fazendo-nos partícipes do Seu sofrimento, enquanto nós, fazendo nossa a Sua dor, a colocaremos em volta do coração do pecador para eliminar a sua insensibilidade e reconduzi-lo até Ele.

Meu querido Bem, Tu sofres tanto pela perda das almas! E, eu, por compaixão, coloco o meu ser à Tua disposição; assumirei os Teus sofrimentos e as penas dos pecadores, Te aliviarei e Te farei conquistar o pecador.

Ó meu Jesus, por favor, faz com que todo o meu ser se desfaça em amor, a fim de que possa servir de contínuo alívio para suavizar todas as Tuas amarguras.

 

 

 

Quarta Hora – Das 8 às 9 da noite

A Ceia Eucarística

 

Meu querido Jesus, sempre insaciável no Teu amor, vejo que ao terminares a Ceia Pascal juntamente com os Teus amados discípulos, levantas da mesa e, unido a eles, elevas o hino de ação de graças ao Pai por vos ter dado o alimento, desejando assim, reparar a falta de gratidão das criaturas pelos inúmeros meios que nos concedes para a manutenção da vida corporal. Por isso, ó Jesus, naquilo que fazes, tocas ou vês, tens sempre nos lábios as palavras “graças Te sejam dadas, ó Pai!”. Também eu, Jesus, unido a Ti, tomo a palavra dos Teus próprios lábios e direi sempre e em tudo: “Obrigado por mim e por todos” , para continuar a reparação pela falta de gratidão.

 

O Lava-Pés

 

Mas, ó meu Jesus, parece que o Teu amor não conhece tréguas. Vejo que fazes sentar de novo os Teus amados discípulos, pegas uma bacia de água, cinges-Te com uma toalha branca e Te prostras aos pés dos apóstolos, num gesto tão humilde a ponto de chamar a atenção de todo o Céu fazendo-o ficar estático. Os próprios apóstolos permanecem quase imóveis, ao Te verem prostrado aos seus pés. Mas, diz-me, meu Amor: o que queres? O que pretendes com esse ato tão humilde? Humildade jamais vista e que nunca se verá!

“Ah, meu filho, quero todas as almas e, prostrado aos seus pés, como pobre mendigo, peço-lhes, importuno-as e, chorando, tramo contra elas insídias de amor para conquistá-las!

Prostrado aos seus pés com esta bacia de água misturada com as Minhas lágrimas, quero lavá-las de qualquer imperfeição e prepará-las para Me receberem no Sacramento.

Me importa tanto este ato, este ofício, que não quero confiá-lo aos Anjos e nem à Minha querida Mãe; Eu mesmo quero purificar até as fibras mais íntimas dos apóstolos, para dispô-los a receber o fruto do Sacramento; e, neles, é Minha intenção preparar todas as almas.

Pretendo reparar todas as obras santas, a administração dos Sacramentos e, em especial, as coisas realizadas, sobretudo pelos sacerdotes, com espírito de soberba, vazios de espírito  divino e de empenho. Ah, quantas obras boas Me chegam, mais para Me desonrar que para Me honrar! Mais para Me amargurar que para Me satisfazer! Mais para Me matar que para Me dar vida! Estas são as ofensas que mais Me entristecem. Ah, sim, meu filho, enumera todas as ofensas mais íntimas que se fazem contra mim e repara-Me com as Minhas próprias reparações; consola o Meu Coração amargurado!”

Ó Jesus aflito, faço minha a Tua vida e, unido a Ti, tenciono reparar-Te todas essas ofensas. Desejo entrar no mais íntimo do Teu Coração e reparar, com o Teu próprio Coração, as ofensas mais íntimas e secretas que recebes de Teus mais queridos. Ó meu Jesus, quero seguir-Te em tudo. Unido a Ti, quero girar por todas as almas que irão Te receber na Eucaristia, entrar em seus corações, e colocar minhas mãos nas Tuas para purificá-las.

Por favor, ó Jesus, com as Tuas lágrimas e com a água com que lavaste os pés dos apóstolos, lavemos as almas que Te devem receber; purifiquemos seus corações, as inflamemos, sacudamos a poeira com que são manchadas a fim de que, recebendo-Te, Tu possas encontrar nelas as Tuas condescendências e não as Tuas amarguras.

Porém, meu afetuoso Bem, enquanto estás totalmente absorvido em lavar os pés dos apóstolos, olho para Ti e vejo outra dor que dilacera o Teu santíssimo Coração. Estes apóstolos representam para Ti todos os futuros filhos da Igreja e, cada um, representa a série de todos os Teus sofrimentos. Em alguns, as fraquezas e em outros, os enganos; em alguns, as hipocrisias e em outros, o amor desmedido pelos interesses; em São Pedro, a falta de firmeza e todas as ofensas dos Chefes da Igreja; em São João, as ofensas dos Teus companheiros mais fiéis; em Judas, todos os apóstatas, com a série de males graves que cometem.

Ah, o Teu sofrimento é sufocado pela dor e pelo amor, a tal ponto que, não podendo mais suportar, Te deténs aos pés de cada um dos apóstolos e desatas em lágrimas; rezas, reparas cada uma destas ofensas e pedes para todos o remédio oportuno.

Meu Jesus, eu também me uno a Ti; faço minhas, as Tuas orações, as Tuas reparações e os Teus remédios oportunos para cada alma. Quero misturar as  minhas lágrimas às Tuas, a fim de que nunca mais fiques sozinho, mas sempre me tenhas Contigo para partilhar as Tuas dores.

Mas, ó meu Amor, enquanto continuas a lavar os pés dos apóstolos, vejo que já estás aos pés de Judas. Ouço a Tua respiração ofegante. Vejo que não só choras, mas soluças e, enquanto lavas aqueles pés, beija-os, aperta-os ao Teu Coração e, não podendo falar, porque a voz é sufocada pelo pranto, olha-o com os olhos rasos de lágrimas e lhe diz com o Coração:

“Meu filho, por favor, rogo-te com as vozes de Minhas lágrimas: não vás para o Inferno! Dá-Me a tua alma; Eu a peço prostrado aos teus pés. Diz, o que queres? O que pretendes? Te darei tudo, contanto que não te percas. Por favor, poupa-Me esta dor, a Mim, que sou Teu Deus!”

E voltas a abraçar aqueles pés contra o Teu peito. Mas vendo a insensibilidade de Judas, o Teu Coração se desespera e Te sufoca; estás prestes a desmaiar. Meu Coração e minha Vida, permita-me que Te ampare em meus braços. Compreendo que tens estratégias amorosas para cada um dos Teus pecadores obstinados.

Rogo-Te, por favor, meu Coração, enquanto me compadeço de Ti e reparo as ofensas que recebes das almas que se obstinam em não querer converter-se, demos juntos um giro à terra e, onde houver pecadores obstinados, ofereçamos-lhes as Tuas lágrimas para que se enterneçam, os Teus beijos e os Teus apertos de amor, para acorrentá-los a Ti, de maneira que não possam mais fugir; e, assim, refazer-Te do sofrimento causado pela perda de Judas.

 

A Instituição da Eucaristia

 

Meu Jesus, minha alegria e delícia, vejo que o Teu amor corre, e corre rapidamente. Tu Te ergues, desolado como estás, e quase corres até o altar, onde estão preparados o pão e o vinho para a consagração. Vejo que adquires um aspecto totalmente novo: a Tua Pessoa divina assume um aspecto terno, amoroso, afetuoso; os Teus olhos resplandecem luz, mais radiante que o sol; o Teu rosto é esplendoroso; os Teus lábios, risonhos e ardentes de amor; as Tuas mãos criadoras colocam-se em atitude de criar. Meu Amor, vejo-Te totalmente transformado; a divindade parece transbordar a humanidade.

Jesus, meu coração e minha vida, este Teu aspecto jamais visto chama a atenção de todos os apóstolos; eles são arrebatados por um doce encanto e sequer ousam abrir a boca. Tua doce Mãe corre em espírito, junto ao altar, para admirar os portentos do Teu amor. Os Anjos descem do Céu e se perguntam: “O que é? O que é? São autênticos prodígios, verdadeiros excessos de amor: um Deus que cria, não o Céu e a Terra, mas a Si mesmo. E onde? Dentro da matéria extremamente vil de um pouco de pão e vinho.”

Mas enquanto todos estão ao Teu redor,  ó Amor insaciável, vejo que tomas o pão em Tuas mãos,  ofereces ao Pai, e ouço a Tua voz dulcíssima que diz: “Pai Santo, graças Te sejam dadas, a Ti que sempre atendes Teu Filho. Pai Santo, participa Comigo. Certo dia, Tu me mandaste do Céu à Terra para Me encarnar no seio da Minha Mãe, para vir e salvar os Nossos filhos; agora, permite-Me que me encarne em cada Hóstia para continuar a sua salvação e ser Vida para cada um dos meus filhos. Vês, ó Pai, que restam poucas horas da Minha Vida: terei coração para deixar Meus filhos órfãos e sozinhos?

Muitos são os seus inimigos: as trevas, as paixões, as fraquezas a que são sujeitos. Quem os ajudará? Por favor, suplico-Te, que Eu permaneça em cada Hóstia para ser a Vida de cada um e, assim, afugentar os inimigos e ser para eles luz, fortaleza e auxílio em tudo. De outra forma, para onde irão? Quem os ajudará? Nossas obras são eternas e Meu amor é incomensurável;  não posso, nem quero abandonar os Meus filhos.”

O Pai enternece-se com a voz suave e afetuosa do Filho. Desce do Céu; já está sobre o altar, unido ao Espírito Santo, para cooperar com o Filho. E, com voz sonora e comovedora, Jesus pronuncia as palavras da Consagração e, sem deixar a Si mesmo, cria-Se, no Pão e no Vinho.

Depois, dá a comunhão aos Seus apóstolos; julgo que a nossa Mãe celestial não deixou de Te receber. Ah, Jesus, os Céus se inclinam e todos Te enviam um ato de adoração, no Teu novo estado de profundo aniquilamento.

Todavia, ó amável Jesus, enquanto o Teu amor está contente e satisfeito e, não havendo mais nada a fazer, vejo sobre este altar, Hóstias que se perpetuarão até o fim dos séculos; em cada Hóstia, está disposta toda a Tua dolorosa Paixão, porque as Tuas criaturas responderão aos excessos do Teu amor com excessos de ingratidão e crimes enormes. E eu, desejo permanecer sempre Contigo, em cada Tabernáculo, em todos os ostensórios e em cada Hóstia consagrada que se encontrar até o fim do mundo, para oferecer meus atos de amor e reparação pelas ofensas que recebes.

Ó Jesus, contemplo-Te na Hóstia Santa e, como se Te visse em Tua adorável Pessoa, beijo a Tua fronte majestosa; mas, beijando-Te, sinto as pontadas dos Teus espinhos. Ó meu Jesus, nesta Hóstia Santa, quantas criaturas não Te poupam os espinhos: elas apresentam-se diante de Ti e, em vez de Te prestarem a homenagem dos seus bons pensamentos, enviam-Te seus pensamentos perversos. E Tu, novamente abaixas a cabeça como fizeste na Paixão; recebes e toleras os espinhos daqueles pensamentos negativos. Ó meu Jesus, aproximo-me de Ti para compartilhar as Tuas dores; coloco todos os meus pensamentos em Tua mente para rejeitar estes espinhos que tanto te ferem. Que  cada um dos meus pensamentos penetre cada um dos Teus para fazer-Te um ato de reparação por todos os pensamentos maus e, assim, consolar a Tua mente tão cheia de tristeza.

Jesus, meu Bem, beijo os Teus belos olhos. Vejo o Teu olhar amoroso voltado para aqueles que vão à Tua presença, ansiosos por receber a retribuição aos seus olhares de amor. Mas quantos vão a Ti e, em vez de olhar e procurar por Ti, se fixam em coisas que os distraem, privando-Te do gosto que sentes na troca de olhares de amor! Tu choras, e eu, beijando-Te, sinto os meus lábios molhados por Tuas lágrimas. Meu Jesus, não chores, quero fixar os meus olhos nos Teus para partilhar Contigo Tuas dores e chorar Contigo; desejando reparar todos os olhares distraídos das criaturas, Te ofereço meus olhares sempre fixos em Ti.

Jesus, meu Amor, beijo os Teus santíssimos ouvidos; já Te vejo absorvido a ouvir o que querem de Ti as criaturas, para consolá-las. Porém, elas fazem chegar aos Teus ouvidos, preces mal recitadas, cheias de desconfiança, orações feitas por hábito; e o Teu ouvido, nesta Hóstia Sagrada, é mais incomodado do que na Tua própria Paixão. Ó meu Jesus, quero tomar todas as harmonias do Céu e colocá-las  em Teus ouvidos para resgatar-Te; desejo pôr os meus ouvidos nos Teus, não só para partilhar estas Tuas dores, mas para oferecer-Te o meu contínuo ato de reparação e consolar-Te.

Jesus, minha Vida, beijo o Teu santíssimo rosto; vejo-o ensanguentado, pálido e inchado. Ó Jesus, as criaturas vão à presença daquela Hóstia Sagrada e, com as suas posições indecentes e os seus discursos maldosos, em vez de Te prestarem honra, parecem Te dar bofetões e cuspirem em Ti. E Tu, como na Paixão, com toda a paz e paciência, os recebe e suportas tudo! Ó Jesus, quero colocar o meu rosto perto do Teu, não só para Te beijar e receber os insultos que Te chegam de Tuas criaturas, mas para partilhar Contigo todas as Tuas dores. Com as minhas mãos, desejo Te acariciar, limpar os escarros e Te apertar com força ao meu coração; reduzir o meu ser em inúmeros fragmentos e colocá-los diante de Ti, como tantas almas que Te adoram, e mudar todos os meus movimentos em contínuas prostrações para Te reparar das desonras que recebes de todas as criaturas.

Meu Jesus, beijo a Tua santíssima boca; vejo que ao desceres sacramentado ao coração das Tuas criaturas, és obrigado a se apoiar em muitas línguas mordazes, impuras e malvadas. Oh, como ficas amargurado por isso! Tu te sentes intoxicar por estas línguas; e, pior é ainda, quando desces aos seus corações! Ó Jesus, se fosse possível, gostaria de me encontrar na boca de cada criatura, para transformar em louvores todas as ofensas que delas recebes!

Meu exausto Bem, beijo a Tua santíssima cabeça. Vejo-a cansada, esgotada e totalmente ocupada com o Teu trabalho de amor: “Diz-me, o que fazes?”. E Tu respondes: “Meu filho, nesta Hóstia trabalho desde a manhã até à noite, formando correntes de amor; e quando as almas vêm a Mim, acorrento-as ao Meu Coração, mas sabes o que elas me fazem? Muitas, com esforço, se  desvinculam e despedaçam as Minhas amorosas correntes; e uma vez que estas cadeias estão ligadas ao Meu Coração, sou atormentado e entro em delírio. Depois, ao quebrarem as Minhas correntes, elas desvirtuam o Meu trabalho, procurando as cadeias das criaturas; e fazem-no também em Minha presença, servindo-se de Mim para alcançar suas finalidades. Isto Me entristece muito, despertando em Mim uma febre violenta a ponto de Me fazer desmaiar e delirar.”

Como tenho piedade de Ti, ó Jesus. Teu amor enfrenta dificuldades e eu, para Te aliviar das ofensas que recebes destas almas, peço-Te que acorrentes o meu coração com as cadeias que eles quebraram, para poder Te dar a minha retribuição de amor.

Meu Jesus, meu Flecheiro Divino, beijo o Teu preciosíssimo peito. Tanto é o fogo que ele contém que, para propiciar um pouco de alívio às Tuas chamas e dar uma breve pausa ao Teu trabalho, começas a brincar com as almas que vão a Ti, disparando contra elas as flechas de amor que saem do Teu peito. O Teu jogo consiste em formar flechas, dardos e setas e, quando elas atingem as almas, Tu fazes festa. Mas muitas, ó Jesus, rejeitam-nas, enviando-Te em contrapartida, flechas de insensibilidade, dardos de frieza e setas de ingratidão; ficas tão aflito a ponto de chorares amargamente! Oh, Jesus! Eis o meu peito pronto a receber não só as Tuas flechas destinadas a mim, mas também aquelas que as outras almas rejeitam; e assim, já não serás derrotado no Teu jogo de amor. Assim, repararei também as insensibilidades, friezas e ingratidões que delas recebes.

Ó Jesus, beijo Tua mão esquerda e quero reparar todos os toques ilícitos ou reprováveis que são feitos na Tua presença; e Te suplico, conserva-me sempre perto do Teu Coração!

Ó Jesus, beijo a Tua mão direita e tenho a intenção de reparar todos os sacrilégios, de forma especial as Missas mal celebradas! Quantas vezes, meu Amor, Tu és obrigado a descer do Céu em mãos e peitos indignos e, embora sintas náusea ao encontrar-Te naquelas mãos, o amor força-Te a permanecer ali; aliás, em alguns dos Teus ministros, encontras os renovadores da Tua Paixão que, com os seus enormes crimes e sacrilégios, renovam o deicídio! Jesus, tenho medo de pensar nisso! Mas, infelizmente, assim como na Paixão estavas nas mãos dos judeus, estás agora nessas mãos indignas como um cordeirinho manso, esperando de novo a Tua morte, mas esperando também, a conversão delas. Oh, Jesus, como sofres! Quanto desejaria uma mão amante para Te libertar daquelas mãos sanguinárias. Ó Jesus, quando Te encontrares em tais mãos, peço-Te que me chames para perto de Ti e, para reparar-Te, irei Te cobrir com a pureza dos Anjos, perfumar-Te com as virtudes, para diminuir a náusea que sentes ao encontrar-se em tais mãos, e Te oferecerei o meu Coração como salvação e refúgio. Enquanto estiveres em mim, rezarei a Ti pelos sacerdotes, a fim de que todos se tornem Teus ministros dignos. Assim seja.

Ó Jesus, beijo o Teu pé esquerdo e quero reparar-Te por aqueles que Te recebem por costume e sem as devidas disposições.

Ó Jesus, beijo o Teu pé direito e desejo reparar por aqueles que Te recebem para Te ultrajar. Por favor, imploro-Te, quando ousarem fazer isso, renova o milagre que fizeste em Longuinho; e, como o curaste e o converteste ao contato com o sangue que jorrou do Teu Coração trespassado pela sua lança, assim também, ao Teu contato sacramental, converte as ofensas em amor e os agressores em amantes!

Ó Jesus, beijo o Teu dulcíssimo Coração, no qual são derramadas todas as ofensas, e quero reparar-Te de tudo, para Te dar, por todos, uma retribuição de amor e, ainda Contigo, partilhar as Tuas dores!

Ó Flecheiro Celeste, se alguma ofensa passar despercebida à minha reparação, peço-Te que me aprisiones em Teu Coração e em Tua Vontade, a fim de que eu repare tudo. Pedirei à doce Mãe que me conserve sempre ao seu lado, a fim de que eu possa reparar tudo por todos; juntos Te beijaremos e, reparando-Te, afastaremos de Ti as ondas de amarguras que recebes das criaturas. Por favor, ó Jesus, recorda-Te que também sou uma pobre alma pecadora; encerra-me no Teu Coração e, com as correntes do Teu amor, não só me aprisiona, mas acorrenta um por um os meus pensamentos, afetos e desejos; prende minhas mãos e os meus pés ao Teu Coração, para que eu não tenha outras mãos nem outros pés, senão os Teus!

Assim, meu Amor, meu cárcere será o Teu Coração, as minhas correntes serão formadas pelo amor, as Tuas chamas serão meu alimento; Tua respiração, será a minha; os portões que me impedirão de sair, serão a Tua santíssima Vontade; e assim, só tocarei o fogo, não verei mais nada senão chamas que, enquanto me darão vida, me darão uma morte como a que Tu padeces na Hóstia Sagrada. Eu Te darei a minha vida e assim, enquanto permanecer prisioneiro em Ti, Tu ficarás livre em mim. Acaso não é esta a Tua intenção, ao ficares prisioneiro na Hóstia para seres posto em liberdade pelas almas que Te recebem, adquirindo vida nelas? E agora, em sinal de amor, abençoa-me, dá o místico beijo de amor à minha alma, enquanto eu Te abraço e permaneço unido a Ti.

Ó meu doce Coração, vejo que, depois de teres instituído o Santíssimo Sacramento e de teres visto a enorme ingratidão e as ofensas das criaturas aos excessos do Teu amor, embora fiques ferido e amargurado, não recuas e, ao contrário, queres afogar tudo na imensidão do Teu amor.

Ó Jesus, vejo que  Te dás em comunhão aos Teus apóstolos e depois acrescentas que, aquilo que fazes, também eles o devem fazer, dando-lhes o poder de consagrar, e por isso os ordenas sacerdotes e instituis outro Sacramento. Ó Jesus, pensas em tudo e tudo reparas: as pregações malfeitas, os Sacramentos administrados e recebidos sem disposição e, portanto, sem efeito; as vocações equivocadas dos sacerdotes, tanto da parte deles como de quem os ordena, sem recorrer a todos os meios para conhecer as vocações verdadeiras. Ah, nada Te passa despercebido, ó Jesus! E eu pretendo seguir-Te e reparar todas estas ofensas contra Ti.

Então, depois que cumpriste tudo, tomas Contigo os Teus apóstolos e Te encaminhas para o Horto do Getsêmani, para dares início à Tua dolorosa Paixão. Eu Te seguirei em tudo para ser Tua fiel companhia.

 

Reflexões e práticas

 

Jesus escondeu-se na Hóstia para dar Vida a todos. No Seu escondimento, abrange todos os séculos e ilumina a todos. Assim também nós, ocultando-nos n’Ele, com as nossas orações e reparações daremos luz e vida a todos, e até mesmo aos heréticos e infiéis, porque Jesus não exclui ninguém.

O que fazer neste escondimento? Para nos tornarmos semelhantes a Jesus Cristo, devemos esconder tudo n’Ele, ou seja, pensamentos, olhares, palavras, palpitações, afetos, desejos, passos e obras, e até mesmo as nossas próprias preces, ocultando-as nas orações de Jesus. E assim, como o amante Jesus na Eucaristia abrange todos os séculos, também nós os abrangeremos com Ele. Unidos a Ele, seremos o pensamento de cada mente, a palavra de cada língua, o desejo de todos os corações, o passo de todos os pés e a obra de cada braço. Assim agindo, afastaremos do Coração de Jesus o mal que lhe desejariam fazer todas as criaturas, procurando substituir todo esse mal por todo bem que nos for possível realizar e, dessa forma, levar Jesus a dar salvação, santidade e amor a todas as almas.

Para corresponder à vida de Jesus, a nossa vida deve ser totalmente conformada à Sua. Com a intenção, a alma há de encontrar-se em todos os Tabernáculos do mundo, para ser Sua companhia permanente e, com esta intenção, realizar todas as ações do dia. O primeiro tabernáculo está em nós, no nosso coração; portanto, é necessário prestar muita atenção a tudo o que o bom Jesus quer realizar em nós. Enquanto está no nosso coração, muitas vezes, Jesus nos faz sentir a necessidade da oração. Ah, é Jesus que deseja rezar e nos quer com Ele, identificando-se, por assim dizer, com a nossa voz, com nossos afetos e com todo nosso coração, para fazer com que a nossa prece seja uma só com a Sua! E assim, para honrarmos a oração de Jesus, estaremos atentos a emprestar-Lhe todo o nosso ser, de modo que o amante Jesus eleve ao Céu a Sua oração, para falar com o Pai e renovar no mundo os efeitos da Sua própria oração.

É necessário que estejamos atentos aos nossos impulsos interiores, porque o bom Jesus ora nos faz sofrer, ora nos quer orantes, ora nos deixa num estado de ânimo e ora noutro, para poder repetir em nós a Sua própria Vida.

Suponhamos que Jesus nos propicie a ocasião de exercer a paciência. Ele recebe tantas ofensas das criaturas, que se sente impelido a tomar o instrumento de flagelo para atingir as criaturas; e eis que nos oferece a ocasião de exercer a paciência, e nós devemos prestar-lhe honras, suportando tudo com paz, assim como Jesus padeceu; e a nossa paciência arrancará das Suas mãos o instrumento de flagelo que as outras criaturas Lhe atraem, porque em nós, Ele exercerá a Sua própria Paciência Divina. E como a paciência, assim também todas as outras virtudes. No Sacramento, o amante Jesus exerce todas as virtudes e d’Ele absorveremos a fortaleza, a mansidão, a paciência, a tolerância, a humildade e a obediência.

Ó Bom Jesus, dá-nos a Sua carne como alimento, e nós Lhe daremos, como alimento, nosso amor,  nossa vontade, nossos desejos, nossos pensamentos e nossos afetos. Assim, competiremos com o amor de Jesus. Nada faremos entrar em nós, que não seja Ele mesmo, de tal forma que tudo o que fizermos deve servir como alimento ao nosso amado Jesus. Nosso pensamento deve alimentar o pensamento divino, ou seja, pensar que Jesus está escondido em nós e quer o alimento do nosso pensamento; assim, pensando santamente, alimentaremos o pensamento divino: nossas palavras, emoções, nossos afetos, desejos, passos,  nossas obras, tudo deve servir como alimento a Jesus; devemos ter a intenção de alimentar as criaturas em Jesus.

Ó meu Amável Jesus, nesta hora transubstanciaste a Ti mesmo no pão e no vinho. Por favor, ó Jesus, tudo o que digo e faço seja uma contínua consagração de Ti, em mim e nas almas.

Minha doce Vida, quando entrares em mim, faz com que cada uma das minhas emoções, meus desejos, pensamentos e palavras possam sentir o poder da Consagração Sacramental, de maneira que, consagrando todo o meu pequeno ser, me transforme em muitas hóstias para dar-Te às almas.

Ó Jesus, meu doce Amor, que eu seja a Tua pequena hóstia para poder encerrar a Ti próprio em mim, como Hóstia viva.

 

 

Oração de Preparação para

as Três Horas de agonia no Horto do Getsêmani

 

Ó meu Jesus, Divino Redentor, leva-me Contigo e com os Teus três caros Apóstolos, para assistir à Tua agonia no Horto do Getsêmani. Advertido pela doce repreensão que Tu deste a Pedro e aos outros discípulos adormecidos, quero vigiar, ao menos, uma hora Contigo no Getsêmani; quero sentir ao menos uma dilaceração do Teu Coração agonizante, um hálito da Tua respiração aflita. Quero fixar o meu olhar sobre o Teu rosto divino e contemplar como empalidece, perturba-se,  angustia-se e se curva até ao chão.

Ó meu Jesus sofredor, vejo, agora, como a Tua pessoa vacila de um lado para outro e por fim cai; como as Tuas mãos endurecidas se entrelaçam. Começo a ouvir os gemidos, os gritos de amor e de dor incompreensíveis que elevas ao Céu.

Ó meu Jesus agonizante no Horto do Getsêmani, nesta hora em que Te faço companhia, faz correr sobre mim um rio, uma aspersão daquele adorável sangue que corre, como torrentes, de todos os Teus membros adoráveis.

Ó rio do sangue preciosíssimo do meu Sumo Bem, que agonizas por mim, que eu te sorva, te beba até à última gota, e contigo aspire e beba um gole, ao menos, do cálice amargo do Dileto, e sinta dentro de mim as dores do Seu Divino Coração; antes, sinta partir-se o meu coração pelo arrependimento de ter ofendido o meu Senhor, que por mim passa por uma agonia de morte.

Ah, meu Jesus! Dá-me a graça, ajuda-me a sofrer, a suspirar e a chorar Contigo, ao menos uma só hora no Jardim das Oliveiras!

Ó Maria, Mãe Dolorosa, faz-me sentir a compaixão do teu coração trespassado por Jesus agonizante no Getsêmani. Amém.

 

 

 

Oração de Agradecimento

para depois de cada Hora de agonia no Horto do Getsêmani

 

Ó meu dulcíssimo Senhor, eu Te dou graças, porque Te dignaste ter-me em Tua companhia, por um momento, na Tua tremenda agonia no Horto. Ai, ó meu Bom Jesus, como foi pouco o conforto que pudeste encontrar em mim! Mas o Teu Amor infinito e a superabundância da caridade de Teu piedoso Coração levam-Te a encontrar alívio, mesmo no mínimo ato de compaixão que a criatura Te demonstra. Ah! Nunca mais se me apagará da vista a Tua adorável pessoa a tremer, abatida, humilhada no pó e toda coberta de suor, de sangue no horror profundo do Getsêmani.

Ó Jesus, experimentei que estar Contigo no sofrimento, sentir também uma gota da amargura angustiante do Teu Divino Coração, é a maior sorte que se pode ter sobre esta terra.

Ó Jesus, com generosidade renuncio às coisas terrenas e passageiras; só quero a Ti, ó meu Senhor oprimido, sofredor e aflito. Do Horto ao Calvário, quero fazer-Te fiel e doce companhia.

Ó Jesus, faz-me prender e comparecer Contigo aos tribunais; faz-me tomar parte nos ultrajes, nos insultos, nos escarros, nos socos com os quais Teus inimigos Te cobrirão. Conduz-me Contigo, de Pilatos a Herodes e de Herodes a Pilatos.

Prende-me Contigo à coluna e faz-me sentir uma parte de Teus flagelos; Jesus, dá-me alguns dos teus espinhos para que me trespassem. Faz com que eu seja condenado Contigo a morrer crucificado: Tu, como vítima de amor por mim; e eu, como Tua vítima de expiação por meus pecados. Dá-me a sorte do Cireneu, para Te seguir até ao Calvário, e ali faz com que eu seja pregado sobre a Cruz e Contigo agonize e morra.

Ó Mãe Dolorosa, que me ajudaste a ter compaixão de Jesus agonizante no Horto, ajuda-me a estar contigo crucificado sobre a mesma Cruz de Jesus, e de saber oferecer-Lhe as mais dignas reparações com os próprios méritos da Sua Paixão e Morte de Cruz. Amém.

 

 

 

Quinta Hora – Das 9 às 10 da noite

A Primeira Hora de Agonia no Horto do Getsêmani

 

Meu aflito Jesus, sinto-me atraído por este Horto como que por uma corrente elétrica. Compreendo que Tu, poderoso ímã do meu coração ferido, me chamas, e eu, corro enquanto penso: o que são estas atrações de amor que sinto em mim? Ah, talvez o meu perseguido Jesus se encontre em tal estado de amargura, que sente a necessidade da minha companhia. E assim, corro.

Mas, ao entrar nesse Horto, sinto arrepios. A obscuridade da noite, a intensidade do frio, a lenta oscilação das folhas que, como frágeis vozes, anunciam dores, tristezas e morte ao meu doloroso Jesus. O doce cintilar das estrelas que, como olhos que choram, estão todas olhando, me reprovam pelas minhas ingratidões. Tremo e, às apalpadelas, procuro e O chamo: “Jesus, onde estás? Tu me chamas e não Te mostras? Tu me chamas e Te escondes?”

Tudo é terror, tudo é assombro e silêncio profundo. Ponho-me à escuta; ouço uma respiração ofegante. É o próprio Jesus que encontro. Mas que mudança fúnebre! Já não é o doce Jesus da Ceia Eucarística, em cujo rosto resplandecia uma beleza deslumbrante e arrebatadora, mas é triste, com uma tristeza mortal que chega a desfigurar a Sua beleza natural. Já agoniza. E eu me sinto perturbado, pensando que, talvez, não ouvirei mais a sua voz, pois parece que está morrendo. Por isso, abraço os Seus pés; ouso ainda mais e, aproximando-me dos Seus braços, ponho a minha mão na Sua fronte para sustentá-Lo e, em voz baixa, chamo-O: “Jesus, Jesus!”

E Ele, despertado pela minha voz, olha para mim e me diz: “Filho, estás aqui? Estava à tua espera, e esta era a tristeza que mais me oprimia: o total  abandono de todos. Estava à tua espera para fazer com que fosses espectador das Minhas dores e fazer-te beber Comigo o cálice das amarguras que, em breve, o Pai celeste Me enviará por meio do Anjo. Nós o beberemos juntos. Não será um cálice de conforto, mas de intensas amarguras. Sinto o desejo de que alguma alma amante, beba ao menos algumas gotas deste cálice. Por isso, Eu te chamei para que tu o aceites e partilhes Comigo as Minhas penas e Me garantas que não ficarei sozinho em tanto abandono!”

“Ah, sim, meu ofegante Jesus, beberemos juntos do cálice de Tuas amarguras, padeceremos as Tuas dores; e jamais O deixarei!”. E, tranquilizado por mim, Jesus entra em agonia mortal, padecendo penas nunca vistas nem ouvidas. E eu, não podendo resistir e querendo compadecer-me d’Ele e aliviá-Lo, digo-Lhe: “Diz-me, por que estás tão triste, aflito e sozinho nesse Horto e nessa noite? Esta é a última noite da Tua Vida na terra; faltam poucas horas para começar a Tua Paixão. Pensava que encontrarias ao menos a Tua Mãe celeste, a apaixonada Madalena e os apóstolos leais; porém Te encontro totalmente sozinho, à mercê de uma melancolia que Te provoca uma tristeza mortal, impiedosa, sem, contudo, matar-Te. Ó, meu Bem e meu Tudo, não me respondes? Fala-me! Falta-Te a palavra, tamanha é a tristeza que Te oprime. Mas ó, meu Jesus, este Teu olhar repleto de luz, é aflito e indagador. Parece que procuras ajuda. O Teu rosto pálido, os Teus lábios inflamados de amor, a Tua Pessoa que treme da cabeça aos pés e o Teu Coração que bate com força à procura de almas, levam-Te à sufocação, a ponto de parecer que expirarás a qualquer momento. Tudo me diz que estás sozinho e, por isso, desejas a minha companhia.

Eis-me, Jesus, todo para Ti. Aliás, não sou capaz de ver-Te prostrado por terra. Tomo-Te nos braços e Te aperto ao meu coração; quero enumerar, uma por uma, as Tuas opressões, uma por uma, as ofensas que Te fazem, para Te dar alívio em tudo, reparar-Te em tudo e, em tudo, demonstrar-Te pelo menos a minha compaixão.

Mas, ó meu Jesus, enquanto Te abraço, noto que os Teus sofrimentos aumentam. Minha vida, sinto fluir fogo em Tuas veias e percebo que o Teu sangue ferve e quer rompê-las.  Diz-me, meu Amor, o que tens? Não vejo flagelos, nem espinhos, nem pregos e nem uma cruz; contudo, ao apoiar a cabeça no Teu peito, sinto que espinhos cruéis te trespassam a cabeça, que flagelos impiedosos não poupam qualquer partícula interior e exterior da Tua Pessoa divina, e que as Tuas mãos estão paralisadas e torcidas ainda mais que pelos pregos. Diz-me, meu querido Bem, quem é que tem tanto poder, mesmo dentro de Ti, para suportares tantos tormentos e mortes?”

Ah, parece que o bendito Jesus abre Seus lábios débeis e agonizantes, e me diz: “Meu filho, queres saber quem é que Me atormenta mais que os próprios algozes? Ao contrário, o que Me farão sofrer é nada comparado ao que sofro agora! Trata-se do amor Eterno que, desejando a supremacia de tudo, Me faz sofrer, tudo de uma só vez e no mais profundo de Minhas fibras, aquilo que os algozes Me farão padecer pouco a pouco. Ah, Meu filho, é o amor que prevalece sobre Mim e em Mim: para Mim, o amor é prego, flagelo, coroa de espinhos, o Amor é tudo; o amor é Minha Paixão perene, enquanto aquela que Me causarão os homens, é passageira. Ah, Meu filho, entra em Meu Coração, vem perder-te no Meu amor! Só no Meu Amor compreenderás quanto sofro por ti e o quanto te amo; assim aprenderás a amar-Me e a sofrer só por Amor.”

Ó meu Jesus, já que me chamas ao Teu Coração para mostrar-me o que o amor Te fez suportar, entro nele e vejo os prodígios do amor que Te coroa a cabeça, não com espinhos materiais, mas com espinhos de fogo; o amor que Te flagela não com açoites de cordas, mas com açoites de fogo; que Te crucifica não com pregos de ferro, mas com pregos de fogo. Tudo é fogo, que Te penetra até os ossos e a própria medula e, destilando toda a Tua santíssima Humanidade em fogo, Te provoca dores mortais, sem dúvida mais que a própria Paixão, e prepara um banho de amor a todas as almas que quiserem se purificar de qualquer mancha e adquirir o direito de serem filhas do amor.

Ó Amor infinito! Sinto-me recuar diante desta imensidão de amor e vejo que para poder entrar no amor e compreendê-lo, eu deveria ser totalmente amor! Ó meu Jesus, não o sou! Mas já que queres a minha companhia e desejas que entre em Ti, rogo-Te que me transformes totalmente em amor.

Por isso, eu Te suplico que coroes minha cabeça e cada um dos meus pensamentos com a coroa do amor. Suplico-Te, ó Jesus, que flageles com o açoite do amor a minha alma, o meu corpo, as minhas forças, os meus sentimentos, desejos, afetos, enfim, tudo, e em tudo eu seja flagelado e selado pelo amor. Ó Amor interminável, faz com que, em mim, não exista coisa alguma que não nasça do amor.

Ó Jesus, centro de todos os amores, suplico-Te que pregues as minhas mãos e os meus pés com os cravos do amor para que, completamente crucificado pelo amor, me torne amor, compreenda o amor, de amor me revista, de amor me nutra, no amor permaneça totalmente crucificado a Ti, para que nada, dentro ou fora de mim, ouse desviar-me e distrair-me do amor, ó Jesus!

 

Reflexões e práticas

 

Nesta hora, Jesus Cristo, abandonado por Seu Pai eterno, sofreu tamanho incêndio de amor ardente, a ponto de poder destruir todos os pecados que se possam imaginar e inflamar com Seu amor todas as criaturas, de milhões e milhões de mundos, todos os condenados do Inferno, se não fossem eternamente obstinados na sua perversidade.

Entremos em Jesus e, depois de termos penetrado totalmente no Seu interior, em Suas fibras mais íntimas, em Suas palpitações de fogo e em Sua inteligência, que era como que incendiada, tomemos esse amor e revistamo-nos, dentro e fora, com o fogo que ardia em Jesus. Depois, saindo d’Ele, entremos em Sua Vontade, onde se encontram todas as criaturas; demos a cada uma delas o amor de Jesus e, tocando os seus corações e as suas mentes com esse amor, transformemos todas em amor. Depois, com os desejos, as palpitações e os pensamentos de Jesus, formemos Jesus no coração de cada criatura.

Em seguida, levemos a Jesus as criaturas que O conservam no coração e coloquemos todas ao Seu redor, dizendo-Lhe: “Ó Jesus, trazemos a Ti todas as criaturas que Te têm no coração, para Te dar alívio e conforto; não dispomos de outros modos para poder dar alívio ao Teu amor, senão levar cada criatura ao Teu Coração”. Assim fazendo, daremos o verdadeiro alívio a Jesus, pois são tantas as chamas que O queimam, que Ele continua a repetir: “Sinto-Me em chamas e não há quem tome o Meu amor. Por favor! Dai-Me conforto, tomai o Meu amor e concedei-Me amor!”

Para nos conformarmos a Jesus em tudo, devemos voltar a nós mesmos, aplicando a nós estas reflexões: em tudo o que fazemos, podemos dizer que é um contínuo fluxo de amor que corre entre nós e Deus? A nossa vida é um permanente fluxo de amor que recebemos de Deus; se pensamos, é um fluxo de amor; se agimos, é um fluxo de amor; a palavra é amor; a palpitação é amor; recebemos tudo de Deus, mas todas estas nossas ações correm, porventura, rumo a Deus com amor? Por acaso Jesus, encontra em nós o doce encanto do Seu amor que corre para Ele a fim de que, seduzido por este encanto, nos dê um amor mais abundante?

Se em tudo o que fizermos, não tivermos a intenção de correr juntamente com o amor de Jesus, entremos em nós mesmos e Lhe peçamos perdão por Lhe termos feito perder o doce encanto do Seu amor por nós.

Deixamo-nos moldar pelas mãos divinas, como fez a Humanidade de Jesus Cristo? Tudo o que acontece em nós, exceto o pecado, devemos aceitar como obra divina; se fizermos o contrário, negaremos a glória ao Pai, deixaremos extraviar a vida divina e perderemos a santidade. Tudo o que sentimos em nós, inspirações, mortificações e graças, não é senão obra do Amor. E nós, aceitamos tudo da maneira que Deus quis? Deixamos Jesus trabalhar livremente em nós, ou tomamos tudo em sentido humano e com indiferenças, rejeitando a Obra divina e obrigando Jesus a cruzar os braços?

Abandonamo-nos em Seus braços, como mortos, dispostos a receber os golpes que o Senhor permitir para a nossa santificação?

Meu Amor e meu Tudo, o Teu amor me inunde inteiramente, queime tudo o que não é Teu e faça o que é meu correr sempre rumo ao Teu, para queimar tudo aquilo que pode entristecer o Teu Coração.

 

 

 

Sexta Hora – Das 10 às 11 da noite

A Segunda Hora de Agonia no Horto do Getsêmani

 

Ó meu amável Jesus, já passou uma hora desde que chegaste a este Horto. O amor adquiriu a primazia sobre tudo, fazendo-Te sofrer, ao mesmo tempo, tudo aquilo que os algozes Te farão sofrer durante toda a Tua dolorosa Paixão. O amor, supre e faz com que sofras o que eles não conseguem fazer, no mais profundo de Tua divina Pessoa.

Ó meu Jesus, vejo que os Teus passos são vacilantes; no entanto, queres caminhar. Diz-me, ó meu Bem, aonde queres ir? Ah, queres ir encontrar os Teus amados discípulos. Também quero acompanhar-Te para Te amparar, se vacilares.

Mas, ó meu Jesus, há outra amargura para o Teu Coração: Teus discípulos já dormem, e Tu, sempre piedoso, chama-os, acorda-os e, com amor totalmente paternal, admoesta-os e lhes recomenda a vigília e a oração. E regressas ao Horto; mas trazes Contigo outra ferida no coração. Nela vejo,  ó meu amor, todas as feridas que Te causam as almas a Ti consagradas que, quer por tentação, por estado de ânimo ou por escassez  de mortificação, em vez de se unirem a Ti, de vigiar e de rezar, entregam-se a si mesmas e, sonolentas, em vez de progredir no amor e na união Contigo, recuam. Quanta compaixão tenho de Ti, ó Amor apaixonado, e reparo todas as ingratidões dos Teus seguidores mais leais. Estas são as ofensas que mais entristecem o Teu adorável Coração; a Tua amargura é tanta que Te faz delirar.

Mas, ó amor sem limites, o Teu sangue que já ferve nas tuas veias, tudo vence e tudo esquece. Vejo-Te prostrado no chão enquanto rezas; Te ofereces a ti mesmo, reparas e em tudo procuras glorificar o Pai pelas ofensas que as criaturas fizeram contra Ele. Ó meu Jesus, também eu me prostro Contigo e quero fazer aquilo que Tu fazes.

Todavia, ó Jesus, delícia do meu coração, vejo que a multidão de todos os nossos pecados, as nossas misérias, nossas fraquezas, nossos maiores crimes, nossas ingratidões mais obscuras, vão ao Teu encontro, caem sobre Ti, esmagam-Te e Te ferem. E Tu, o que fazes? O sangue que ferve em Tuas veias, enfrenta todas essas ofensas, se rompe  e, a grandes jatos, sai, molha-Te inteiro, escorre ao chão; Tu dás sangue em troca de ofensas e vida em troca de morte. Ó Amor, a que condições vejo-Te reduzido! Já expiras. Ó meu Bem, minha doce Vida, não morras! Levanta o rosto desta terra que molhaste com o Teu santíssimo sangue!

Vem aos meus braços! Faz com que eu morra no Teu lugar! Mas ouço a voz trêmula e agonizante de Jesus que diz: “Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice; porém, que não se faça a Minha vontade, mas a Tua.”

É já a segunda vez que ouço isto do meu Jesus. Mas o que me fazes compreender com este “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice”? Ó Jesus, todas as rebeliões das criaturas vão ao Teu encontro; Tu vês que aquele “Fiat Voluntas tua”, aquele “Seja feita a Tua Vontade”, que deveria ser a vida de cada criatura, é rejeitado por quase todas elas, e em vez de encontrarem a vida, acham a morte. E Tu, desejando dar a vida a todos e fazer uma solene reparação ao Pai pelas rebeliões das criaturas, repetes uma terceira vez: “Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice; que é ver as almas, subtraindo-se à Nossa Vontade, se perderem. Este cálice é muito amargo para Mim; porém, que não se faça a Minha Vontade, mas a Tua.”

Mas enquanto o dizes, a Tua amargura é tanta que Te reduzes ao extremo, agonizas e estás prestes a dar o último respiro. Ó meu Jesus, meu Bem, uma vez que Te encontras em meus braços, também eu quero unir-me a Ti, desejo reparar-Te e compadecer-Me de Ti por todos os erros e pecados que se cometem contra a Tua santíssima Vontade, e ao mesmo tempo pedir-Te que em tudo eu faça sempre a Tua Vontade.

A Tua Vontade seja a minha respiração, o meu ar; a Tua Vontade seja a minha palpitação, o meu coração, o meu pensamento, a minha vida e a minha morte. Mas, por favor, não morras! Aonde irei sem Ti? A quem irei? Quem me ajudará? Tudo terminará para mim! Por favor, não me deixes, preserva-me Contigo como Tu quiseres, mas conserva-me ao Teu lado, sempre Contigo! Não aconteça que, nem por um instante, eu me separe de Ti! Pelo contrário, permita-me consolar-Te, reparar-Te e compadecer-me de Ti por todos, porque vejo que todos os pecados, quaisquer que sejam, pesam em Teus ombros.

Por isso, meu Amor, beijo a Tua santíssima cabeça. Mas o que vejo? Todos os maus pensamentos;  sentes desprezo por eles. Para a Tua sacratíssima cabeça, cada pensamento negativo é um espinho que Te fere intensamente. Ah, não é necessário a coroa de espinhos com que os judeus Te coroarão!

Quantas coroas de espinho põem na Tua adorável cabeça, os pensamentos malignos das criaturas, a tal ponto que o sangue Te escorre de todas as partes, da testa e dos cabelos! Jesus, tenho compaixão de Ti! Gostaria de coroar-Te com outras tantas coroas de glória e, para aliviar-Te, ofereço-Te todas as inteligências angélicas e a Tua própria inteligência, para propiciar-Te um compadecimento e uma reparação por todos.

Ó Jesus, beijo os Teus olhos piedosos e neles entrevejo todos os olhares malignos das criaturas, que fazem escorrer lágrimas de sangue por Teu rosto. Tenho piedade de Ti! Gostaria de suavizar Tua vista, colocando à Tua frente todos os prazeres que se podem encontrar no Céu e na terra, com a Tua união de amor.

Jesus, meu Bem, beijo os Teus santos ouvidos. Mas o que ouço? Ouço neles o eco das blasfêmias horrendas, os gritos de vingança e de maledicência. Não há voz que não ressoe nos Teus castíssimos ouvidos. Ó Amor insaciável, tenho compaixão de Ti e desejo consolar-Te, fazendo ressoar neles todas as harmonias do Céu, a voz dulcíssima de Tua querida Mãe, as palavras inflamadas de Madalena e de todas as almas que Te amam.

Jesus, minha vida, quero beijar ardentemente o Teu rosto, cuja beleza não há igual. Este é o rosto que os Anjos desejam contemplar avidamente, seduzidos por tanta beleza. Contudo, as criaturas desfiguram-no com escarros, maltratam-no com bofetões e pisam sobre ele. Meu Amor, que ousadia! Eu queria gritar tanto a ponto de fazê-los fugir! Tenho compaixão de Ti, e para reparar estes ultrajes, vou à santíssima Trindade para pedir o beijo do Pai e do Espírito Santo, as carícias divinas das Suas mãos criadoras. Volto-me também à Mãe celeste, para que me dê os seus beijos, as carícias de suas mãos maternas, as suas adorações profundas e Te ofereço tudo, para Te reparar das ofensas que se fazem ao Teu santíssimo rosto.

Meu doce Bem, beijo a Tua dulcíssima boca, amargurada por blasfêmias horríveis, pela náusea da embriaguez e da gula, por diálogos obscenos, orações mal recitadas, ensinamentos negativos e por tudo o que o homem faz de mal com a sua língua. Jesus, tenho compaixão de Ti e  quero aliviar a Tua Boca com a oferta de todos os louvores angélicos e o bom uso que fazem da língua tantos cristãos santos.

Meu Amor oprimido, beijo o Teu pescoço e vejo que está envolvido por cordas e correntes, pelos ataques e pecados das criaturas. Compadeço-me de Ti e, para Te aliviar, ofereço-Te a união indissolúvel das Pessoas Divinas. E fundindo-me nesta união, estendo os meus braços e, formando uma suave cadeia de amor à volta de Teu pescoço, quero afastar-Te das cordas dos ataques que quase Te sufocam; e, para Te consolar, aperto-Te contra o meu peito.

Fortaleza divina, beijo os Teus santíssimos ombros. Vejo-os dilacerados e a carne arrancada quase em pedaços, pelos escândalos e os maus exemplos das criaturas. Tenho compaixão de Ti e, para animar-Te, ofereço-Te os santíssimos exemplos da Mãe e Rainha e aqueles de todos os santos; e eu, ó meu Jesus, beijando suavemente cada uma destas chagas, nelas quero encerrar as almas que, por causa dos contínuos escândalos, foram arrancadas do Teu Coração e, assim, reforçar a carne na Tua santíssima Humanidade.

Meu Jesus ofegante, beijo o Teu peito, que vejo ferido pela insensibilidade, frieza, indiferença e ingratidão das criaturas. Tenho pena de Ti e, para Te consolar, ofereço-Te o amor recíproco do Pai e do Espírito Santo, a perfeita correspondência das três Pessoas Divinas. Ó meu Jesus, mergulhando no Teu amor, quero reparar-Te para afastar os novos golpes que as criaturas Te lançam com os seus pecados. E, tomando o Teu amor, desejo feri-las com ele, para que não ousem mais ofender-Te. Quero derramá-lo em Teu peito para aliviar-Te e curar-Te.

Meu Jesus, beijo as Tuas mãos criadoras. Vejo todas as más ações das criaturas que, como outros tantos pregos, trespassam as Tuas santíssimas mãos; assim, não és furado com três cravos, como na cruz, mas com tantos pregos por quantas obras más cometem as criaturas.  Tenho compaixão de Ti e, para Te aliviar, ofereço-Te todas as obras santas, a coragem dos mártires na entrega do próprio sangue e da vida por amor a Ti. Enfim, ó meu Jesus, gostaria de Te oferecer todas as obras boas para tirar de Ti os inúmeros pregos das obras más.

Ó Jesus, beijo os Teus santíssimos pés, sempre incansáveis em busca de almas; neles envolves todos os passos das criaturas, mas percebes que muitas delas escapam e gostaria de detê-las. A cada um de seus passos errados, sentes que Te cravam um prego; Tu queres servir-Te dos próprios cravos das criaturas para pregá-las ao Teu amor. Porém, a dor que sentes e o esforço que fazes para pregá-las ao Teu amor são tão grandes que tremes inteiro. Meu Deus e meu Bem, compadeço-me de Ti e, para Te animar, ofereço-Te os passos dos bons religiosos e de todos os fiéis que expõem  sua vida para salvar as almas.

Ó Jesus, beijo o Teu Coração. Tu continuas a agonizar não por aquilo que os judeus te farão, mas pela dor que Te causam todas as ofensas das criaturas.

Nessas horas, desejas dar a primazia ao amor; o segundo lugar, a todos os pecados pelos quais expias, reparas e glorificas o Pai e aplacas a Justiça divina; e o terceiro, aos judeus. Assim demonstras que a paixão que os judeus Te farão padecer será apenas a representação da dupla Paixão amarguíssima que Te farão sofrer o amor e o pecado. É por isso que vejo tudo concentrado no Teu Coração: a lança do amor, a lança do pecado, enquanto esperas a terceira: a lança dos judeus. E Teu coração, sufocado pelo amor, padece movimentos violentos, afetos impacientes de amor, desejos que Te consomem e palpitações inflamadas, que desejariam dar vida a cada coração.

E é precisamente ali, no Coração, que sentes toda a dor provocada pelas criaturas as quais, com os seus desejos nocivos, afetos desordenados, palpitações profanadas, em vez de aspirarem ao Teu amor, procuram outros amores. Jesus, como sofres! Vejo-Te desmaiar, coberto pelas ondas das nossas iniquidades.

Tenho compaixão de Ti e quero suavizar a amargura do Teu Coração, triplamente trespassado, oferecendo-Te as doçuras eternas e o amor dulcíssimo da querida Mãe e de todos aqueles que Te amam verdadeiramente.

E agora, ó meu Jesus, faz com que este meu pobre coração tome vida do Teu, a fim de que viva só com o Teu Coração; e, em cada ofensa que receberes, faz com que eu esteja sempre pronto a oferecer-Te alívio, conforto, reparação; constantes atos de amor.

 

Reflexões e práticas

 

Na segunda hora de agonia no Getsêmani, diante de Jesus, apresentam-se todos os pecados de todos os tempos, passado, presente e futuro, e Ele assume sobre Si mesmo todos estes pecados, para dar ao Pai a glória completa.

Jesus Cristo expiou, rezou e, no Seu Coração, experimentou todos os nossos estados de ânimo, sem jamais abandonar a oração. E nós, em qualquer estado de ânimo que nos encontremos, frios, insensíveis ou tentados, rezamos sempre? Somos assíduos na oração? Damos a Jesus os sofrimentos da nossa alma como resgate e alívio para poder imitá-Lo em tudo, pensando que cada estado de ânimo é um sofrimento Seu? Como sofrimento de Jesus, devemos colocar-nos ao redor d’Ele para compadecer-nos, aliviá-Lo e, na medida do possível, dizer-lhe: “Sofreste muito! Descansa, pois agora, nós sofreremos em Teu lugar.

Desanimamos ou ficamos corajosamente perto de Jesus, oferecendo-Lhe tudo o que sofremos para fazer com que Ele encontre em nós a Sua própria Humanidade? Isto é, nos servimos de Humanidade para Jesus? O que é que fazia a Humanidade de Jesus? Glorificava Seu Pai, expiava, implorava a salvação das almas. E nós, em tudo o que realizamos, encerramos em nós mesmos estas três intenções de Jesus, de maneira que podermos dizer: “Temos em nós toda a Humanidade de Jesus Cristo”?

Em nossas escuridões, temos a intenção de fazer refletir nos outros a luz da Verdade? E quando rezamos com fervor, manifestamos a intenção de dissolver o gelo de inúmeros corações endurecidos pela culpa?

Meu Jesus, para compadecer-me de Ti e aliviar-Te do desânimo total em que Te encontras, elevo-me ao Céu e faço minha a Tua própria Divindade e,  colocando-a ao Teu redor, desejo afastar de Ti todas as ofensas das criaturas.

Quero oferecer-Te a Tua beleza para afastar de Ti a torpeza do pecado; a Tua santidade, para desviar de Ti o horror de todas aquelas almas que Te fazem experimentar tanta repugnância, porque estão mortas para a graça; Tua paz, para apartar-Te das discórdias, revoltas e perturbações de todas as criaturas; Tuas harmonias, para aliviar o Teu ouvido dos sons de tantas vozes más. Meu Jesus, tenho a intenção de oferecer-Te tantos atos divinos reparadores, por quantas ofensas a Ti dirigidas, como se quisessem Te matar e, com os Teus próprios atos, quero dar-Te vida; e depois, ó meu Jesus, quero lançar Tua Divindade sobre todas as criaturas a fim de que, ao receberem o Teu contato divino, já não se atrevam a ofender-Te. Só assim, ó Jesus, poderei compadecer-me de Ti por todas as ofensas que recebes das criaturas.

Ó Jesus, minha doce Vida, que as minhas orações e os meus sofrimentos elevem-se sempre ao Céu, para fazer com que se derrame sobre todos a luz da graça e eu absorva a Tua própria Vida.

 

 

 

Sétima Hora – Das 11 à meia-noite

A Terceira Hora de Agonia no Horto do Getsêmani

 

Meu amável Jesus, o meu coração já não aguenta; olho para Ti e vejo que continuas a agonizar. O sangue escorre de Ti em excesso, no Corpo inteiro e com tanta abundância que, não suportando mais estar em pé, cais numa poça. Ó meu Amor, o meu coração se despedaça ao ver-Te tão frágil e cansado!

O Teu adorável rosto e as Tuas mãos criadoras apoiam-se no chão e mancham-se de sangue; parece-me que, aos mares de iniquidade que as criaturas Te mandam, Tu queres fazer corresponder rios de sangue, para fazer com que estas culpas sejam afogadas e, assim, dar a cada um o rescrito do Teu perdão. Mas, por favor, ó meu Jesus, ergue-Te! É demasiado o que padeces; já é suficiente o Teu amor!

E, enquanto parece que o meu amável Jesus morre no Seu próprio sangue, o amor dá-Lhe nova vida. Vejo-O movimentar-se com dificuldade; levanta-Se e, impregnado de sangue e lama, parece que deseja caminhar; sem forças, arrasta-Se arduamente. Minha doce Vida, deixa que Te carregue em meus braços. Porventura, vais  Te encontrar com os Teus queridos discípulos? Mas quanta dor invade o Teu adorável Coração, quando os encontra de novo adormecidos!

E Tu, com voz fraca e trêmula, chama-os: “Meus filhos, não durmais! A hora está próxima. Não vedes que estou arrasado? Por favor, ajudai-Me, não Me abandoneis nestas horas extremas!”

E, quase vacilante, estás prestes a cair perto deles; entretanto, João estende os braços para apoiar-Te. És tão irreconhecível que, se não fosse pela suavidade e doçura da Tua voz, não Te teriam reconhecido. Depois, recomendando-lhes a vigília e a oração, retornas ao Horto, mas com uma segunda ferida no Coração. Meu Bem, nesta chaga vejo todas as culpas das almas que, não obstante as manifestações de Teus favores em dádivas, beijos e carícias, nas noites da provação, esquecendo-se do Teu amor e dos Teus dons, ficam como entorpecidas e sonolentas, perdendo assim, o espírito de oração contínua e de vigília.

Porém, meu doce Jesus, é verdade que, depois de tê-Lo visto e saboreado os Teus dons, é preciso muita força para permanecer sem eles e resistir; só um milagre pode fazer com que tais almas resistam à prova.

Por isso, enquanto tenho piedade de Ti por estas almas, cujas negligências, leviandades e ofensas são as mais amargas ao Teu Coração, peço-Te que, se elas chegarem a dar um só passo que possa Te desagradar, ainda que minimamente, as rodeie com tanta Graça, a ponto de aprisioná-las, para que não percam o espírito de oração contínua!

Meu amável Jesus, enquanto retornas ao Horto, parece que já não aguentas, elevas ao Céu o rosto repleto de sangue e de terra, e repetes pela terceira vez: “Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice. Pai Santo, ajuda-Me! Tenho necessidade de alívio! É verdade que devido às culpas que assumi sobre Mim, Me tornei repugnante, desagradável, o último dentre os homens perante a Tua Majestade infinita; a Tua Justiça está indignada Comigo; mas olha para mim, ó Pai, ainda sou Teu Filho, que formo uma só coisa Contigo. Ó Pai, tem piedade de Mim, ajuda-Me! Não me deixes sem conforto!”

Além disso, parece que ouço, ó meu doce Bem, que pedes socorro à querida Mãe: “Doce Mãe, abraça-Me como Me abraçavas quando Eu era criança! Dá-Me aquele leite com que Me amamentavas, para Me restabelecer e aliviar as amarguras da Minha agonia. Dá-Me o Teu Coração, que era toda a Minha felicidade. Minha Mãe, Madalena, estimados apóstolos, todos vós que Me amais, socorrei-Me e confortai-Me! Não Me deixeis sozinho nestes momentos extremos; todos vós, fazei uma coroa ao Meu redor; concedei-Me como conforto a vossa companhia e o vosso amor!”

Jesus, meu Amor, quem pode resistir ao ver-Te nestes extremos? Qual coração será tão insensível assim, que não se dilacere ao ver-Te tão afogado em sangue? Quem não derramará torrentes de lágrimas amargas ao escutar Tuas palavras dolorosas, que pedem auxílio e conforto?

Meu Jesus, consola-Te! Vejo que o Pai Te envia um Anjo para confortar-Te e assistir-Te, para que saias deste estado de agonia e possas entregar-Te às mãos dos judeus; e, enquanto estiveres com o Anjo, eu girarei pelo Céu e pela Terra.

Tu me permitirás tomar este sangue que Tu derramaste, a fim de que possa dá-lo a todos os homens como penhor de salvação de cada um e levar-Te como conforto, e retribuir com os seus afetos, palpitações, pensamentos, passos e obras.

Minha Mãe celeste, venho a ti para irmos juntos a todas as almas, dando-lhes o sangue de Jesus. Querida Mãe, Jesus quer ser confortado, e o maior alívio que Lhe podemos dar é levar-Lhe almas. Madalena, acompanha-nos! Todos vós, Anjos, vinde ver como Jesus está arrasado! Ele deseja receber o conforto de todos; e, tanto é o abatimento em que se encontra, que não rejeita ninguém.

Meu Jesus, enquanto bebes o cálice cheio de intensas amarguras que o Pai celeste Te enviou, ouço que ainda suspiras, gemes, deliras e, com voz sufocada, dizes: “Almas, almas, vinde, aliviai-Me! Entrai em Minha Humanidade; Eu vos quero, suspiro por vós! Por favor, não sejais surdas à Minha voz, não torneis vãs as Minhas ardentes aspirações, o Meu sangue, o Meu amor, as Minhas dores! Vinde, almas, vinde!”

Jesus delirante, cada um dos Teus gemidos e suspiros é uma ferida para o meu coração, que não me dá paz; por isso, faço meu o Teu sangue, a Tua Vontade, o Teu zelo ardente, o Teu amor e, girando no Céu e na Terra, quero ir a todas as almas, para dar-lhes o Teu sangue como penhor de salvação e levá-las a Ti, para apaziguar as Tuas inquietações, os Teus delírios e abrandar as tristezas da Tua agonia. E enquanto fizer isto, acompanha-me com o Teu olhar.

Minha Mãe, venho a ti porque Jesus quer almas, deseja consolo. Portanto, dá-me a tua mão materna e juntos giremos pelo mundo inteiro, em busca de almas. Encerremos no sangue de Jesus os afetos, as aspirações, os pensamentos, as obras e os passos de todas as criaturas, e lancemos em suas almas as chamas do Seu Coração a fim de que se rendam e, assim, fechadas no Seu sangue e transformadas pelas Suas chamas, as conduziremos para junto de Jesus, para aliviar as dores da Sua amarga agonia.

Meu Anjo da Guarda, preceda-me; dispõe as almas que devem receber este sangue, a fim de que nenhuma gota permaneça sem o seu copioso efeito. Minha Mãe, depressa, giremos! Vejo o olhar de Jesus que nos acompanha; ouço os Seus constantes soluços, que nos impelem a cumprir depressa a nossa tarefa.

Ó Mãe, depois dos primeiros passos já nos encontramos à porta das casas onde repousam os enfermos. Quantos membros dilacerados; quantos, sob a atrocidade dos espasmos, irrompem em blasfêmias e procuram privar-se da própria vida. Outros, são abandonados por todos e não têm quem lhes ofereça uma palavra de conforto e os cuidados essenciais e, por isso, maldizem e se desesperam ainda mais. Ah, ó Mãe, ouço os soluços de Jesus que vê retribuídas, com ofensas, as Suas mais queridas predileções de amor que fazem padecer as almas, para torná-las semelhantes a Si. Por favor, ofereçamos-lhes o Seu sangue, a fim de que lhes dê as ajudas necessárias e, com a Sua luz, faça compreender o bem que se encontra no sofrimento e a semelhança que adquirem de Jesus. E tu, minha Mãe, põe-te perto deles e, como Mãe afetuosa, toca com as tuas mãos maternas os seus membros doentes, toma-os nos teus braços, alivia as suas dores e, do teu Coração, derrama torrentes de graças sobre todos os seus sofrimentos: faz companhia aos abandonados, consola os aflitos; a quem não dispõe dos meios necessários, dispõe almas generosas para socorrê-los; a quem se encontra sob a atrocidade dos espasmos, suplica trégua e repouso para que, aliviados, possam suportar com mais paciência, quanto Jesus lhes dispuser.

Giremos ainda e entremos nos quartos dos agonizantes. Minha Mãe, que terror! Quantas almas estão para cair no Inferno! Quantos, depois de uma vida de pecado, querem provocar a derradeira dor Àquele Coração tantas vezes ferido, coroando o último suspiro num ato de desespero.

Muitos demônios estão ao redor das almas, lançando em seus corações o terror e o assombro dos juízos divinos. Assim, dão o último assalto a fim de conduzi-las ao Inferno; gostariam de desprender chamas infernais para nelas envolver as almas e, desta maneira, não darem lugar à esperança. Outros, presos às coisas da terra, não conseguem resignar-se e dar o último passo.  Ó Mãe, estes são os últimos momentos e eles têm muita necessidade de ajuda. Não vês como tremem, como se debatem entre os espasmos da agonia, como pedem socorro e piedade? Para eles, a terra já desapareceu! Santa Mãe, põe a tua mão materna em sua fronte gélida, acolhe seus últimos anseios; concedamos o sangue de Cristo a cada um dos agonizantes e, assim,   afugentando os demônios, dispõe todos eles à recepção dos últimos Sacramentos e à uma morte santa. Para seu conforto, demos a eles as agonias de Jesus, os seus beijos, as suas lágrimas, as suas chagas; desatemos os laços que os conservam ligados, façamos com que todos ouçam a palavra do perdão e lancemos esta confiança no coração, a ponto de fazer com que se lancem nos braços de Jesus. Quando Jesus os julgar, irá encontrá-los cobertos com o Seu sangue, abandonados em Seus braços e a todos dará o Seu perdão.

Andemos ainda, ó Mãe; o teu olhar materno olhe com amor a Terra e mova a compaixão de tantas pobres criaturas que têm necessidade deste sangue. Minha Mãe, pelo olhar indagador de Jesus, sinto-me impelido a correr, porque Ele quer almas; ouço os Seus gemidos no fundo do meu coração, que me repetem: “Meu filho, ajuda-me, dá-me as almas!”

Mas vê, ó Mãe, como a Terra está repleta de almas que estão prestes a cair no pecado, e Jesus desata em lágrimas ao ver o Seu sangue padecer novas profanações. Seria necessário um milagre para impedir a sua queda; por isso, ofereçamos a elas o sangue de Jesus, para que encontrem nele a força e a graça para não caírem no pecado.

Mais um passo, ó Mãe, e eis algumas almas que já caíram na culpa e desejariam uma mão para erguê-las. Jesus as ama, mas olha para elas com terror porque estão maculadas, e a Sua agonia torna-se mais intensa. Ofereçamos a elas o sangue de Jesus, para que encontrem nele a mão que os levante. Vê, ó Mãe, são almas que têm necessidade deste sangue, almas mortas para a  graça.  Oh, como é deplorável o seu estado! O Céu olha para elas e chora de dor; a Terra as observa com desprezo; todos os elementos estão contra elas e gostariam de destruí-las, pois são inimigas do Criador. Ó Mãe, o sangue de Jesus contém Vida; ofereçamos também a elas, a fim de que, ao seu toque, estas almas ressurjam mais belas a ponto de fazer sorrir todo o Céu e toda a Terra.

Giremos um pouco mais, ó Mãe; vê que há almas que têm a marca da perdição, almas que pecam e fogem de Jesus, que O ofendem e se desesperam de Seu perdão; são os novos Judas espalhados pela Terra e que dilaceram aquele Coração tão amargurado. Ofereçamos a eles o sangue de Jesus, para que este sangue cancele a marca da perdição e imprima neles a marca da salvação, lançando em seu coração tanta confiança e amor após a culpa, a ponto de fazê-los correr aos pés de Jesus, para se unirem àqueles pés divinos, e jamais se separarem deles.

Vê, ó Mãe, existem almas que correm loucamente rumo à perdição e não há quem detenha o seu curso. Por favor, coloquemos este sangue diante dos seus pés, a fim de que, ao seu toque e à sua luz, ou ao ouvir as suas vozes de súplica que as quer salvas, possam recuar e pôr-se a caminho da salvação!

Continuemos a dar voltas, ó Mãe: vê, existem almas boas, almas inocentes nas quais Jesus encontra a Sua complacência e o repouso da Criação. Mas as criaturas perambulam ao Seu redor com muitas insídias e escândalos, para arrebatar esta inocência e transformar a complacência e o descanso de Jesus em pranto e amargura, como se não tivessem outra finalidade, a não ser a de provocar contínuas dores ao Coração Divino. Então, selemos e circundemos a sua inocência com o sangue de Jesus como um muro de defesa, a fim de que a culpa não entre nelas; com este sangue, afugenta quem deseja contaminá-las e conserve-as imaculadas e puras, para que Jesus encontre nas criaturas o Seu descanso e toda sua complacência e, por amor a elas, tenha piedade de muitas outras pobres criaturas. Minha Mãe, insiramos estas almas no sangue de Jesus; vinculemos e voltemos a atá-las à Santa Vontade de Deus, carregando-as em Seus braços e, com as amáveis cadeias do Seu amor, liguemos as almas ao Seu Coração para aliviar as amarguras da Sua agonia mortal.

Mas ouve, ó Mãe, este sangue grita e quer ainda mais almas. Corramos juntos e vamos às regiões dos heréticos e infiéis. Quanta dor Jesus sente nestas regiões! Ele, que é a Vida de todos, não recebe como retribuição nem sequer um pequeno ato de amor e não é conhecido pelas Suas próprias criaturas. Por favor, ó Mãe, demos a elas este sangue a fim de que afaste as trevas da ignorância e da heresia; faz com que compreendam que têm uma alma e abre-lhes o Céu. Depois, insiramos todas elas no sangue de Jesus, conduzindo-as a Ele como filhos órfãos e exilados que encontram seu Pai; assim, Jesus se sentirá confortado em Sua amarga agonia.

Mas parece que Jesus ainda não está satisfeito, pois deseja ainda mais almas. Ele sente que as almas agonizantes destas regiões são arrancadas de Seus braços para irem cair no Inferno. Estas almas já estão prestes a expirar e precipitarem-se no abismo; não há ninguém perto delas para salvá-las; falta tempo, estes são seus últimos momentos e elas irão se perder, certamente! Não, Mãe, este sangue não será derramado inutilmente por elas, portanto, giremos depressa até elas, derramemos o sangue de Jesus sobre a sua cabeça para que lhes sirva de batismo e lhes infunda a Fé, a Esperança e o Amor.

Ó Mãe, coloca-se perto delas, supre tudo o que lhes faltar; aliás, mostra-te; no teu rosto resplandece a beleza de Jesus; todos os teus modos são semelhantes aos Seus e assim, vendo-te, com certeza, poderão conhecer a Jesus. Depois, estreitas ao teu Coração materno, infunde nelas a vida de Jesus que tu possuis e diz-lhes que, como sua Mãe, queres que sejam felizes para sempre contigo no Céu e, assim, ao expirarem, recebe-as em teus braços e faz com que dos teus braços passem para os de Jesus. E, se Jesus, segundo os direitos de Justiça, demonstrar que não as quer receber, recorda-Lhe o amor com que Ele quis confiá-las a ti aos pés da cruz e reclama os teus direitos de Mãe, de tal forma que, ao teu amor e às tuas orações, Ele não saberá resistir e, ao contentar o teu Coração, satisfará também os Seus ardentes desejos.

E agora, ó Mãe, tomemos este sangue e o ofereçamos a todos: aos aflitos, para que sejam confortados; aos pobres, para que sofram resignados à sua pobreza; aos tentados, para que obtenham a vitória; aos incrédulos, para que neles triunfem as virtudes da Fé; aos blasfemadores, para que transformem as blasfêmias em bênçãos; aos sacerdotes, a fim de que compreendam sua missão e sejam dignos ministros de Jesus. Toca seus lábios com este sangue, para que não pronunciem palavras que não sejam de glória a Deus; toca seus pés, a fim de que possam ir em busca de almas a serem conduzidas a Jesus. Demos este sangue aos governantes dos povos, para que se unam e sintam mansidão e amor para com os seus cidadãos.

Agora, giremos ao Purgatório e o concedamos também às almas purgantes, porque elas muito choram e reclamam este sangue para a sua libertação. Não ouves, ó Mãe, os seus gemidos? Não sentes os seus desejos de amor, seus tormentos, como continuamente se sentem atraídas ao Sumo Bem? Vê como o próprio Jesus quer purificá-las mais depressa para tê-las Consigo. Jesus as atrai com o Seu amor e elas retribuem com incessantes impulsos rumo a Ele; mas quando se encontram em Sua presença, não podendo ainda suportar a pureza do olhar divino, são obrigadas a recuar e a cair novamente nas chamas!

Minha Mãe, desçamos a este profundo cárcere e, derramando sobre elas este sangue, levemos a luz para elas, acalmemos seus desejos de amor, apaguemos o fogo que as queima, purifiquemos suas manchas de tal forma que, livres de todas as penas, elas corram para os braços do Sumo Bem.

Ofereçamos este sangue às almas mais abandonadas, para que encontrem nele todos os sufrágios que as criaturas lhes negam; a todas, ó Mãe, demos este sangue, sem privar nenhuma delas, para que todas encontrem alívio e libertação por meio dele. Sê a Rainha nestas regiões de pranto e  lamentações; estende as tuas mãos maternas e, uma a uma, coloca-as fora destas chamas ardentes e faz com que todas levantem voo rumo ao Céu.

E agora, também nós, voemos rumo ao Céu e coloquemo-nos diante das portas eternas. Permite, ó Mãe, que Jesus dê a ti também este sangue,  para tua maior glória. Que este sangue te inunde de nova luz e novas alegrias; faz com que esta luz desça sobre todas as criaturas, para dar graças de salvação a todas elas.

Minha Mãe, dá também a mim este sangue; tu sabes quanta necessidade tenho dele. Com tuas mãos maternas, cobre-me todo com este sangue e purifica as minhas manchas, cura as minhas feridas e enriquece a minha pobreza. Faz com que este sangue circule em minhas veias e me dê, de novo, toda a Vida de Jesus. Desce ao meu coração e transforma-o no próprio Coração de Jesus. Resplandece-me de tal forma que Jesus possa encontrar todas as suas alegrias em mim.

Enfim, ó Mãe, entremos nas regiões celestes e cedamos este sangue a todos os santos, a todos os Anjos, para que possam receber a maior glória, irromper em agradecimentos a Jesus e interceder por nós, para que, em virtude deste sangue, os possamos alcançar.

E depois de ter dado a todos este sangue, vamos de novo a Jesus. Anjos e Santos, vinde conosco. Ah! Ele suspira pelas almas e quer fazer com que todas voltem a entrar em Sua Humanidade para dar a elas os frutos de Seu sangue. Coloquemos todas ao Seu redor e Ele sentirá que a vida Lhe retorna e que a amarga agonia padecida Lhe é recompensada.

E agora, santa Mãe, chamemos todos os elementos a fazer-Lhe companhia, a fim de que também eles prestem honra a Jesus. Ó luz do sol, vem dissipar as trevas desta noite para dar conforto a Jesus. Ó estrelas, com vossos raios cintilantes, descei do Céu, vinde dar alívio a Jesus. Flores da terra, vinde com vossos perfumes; pássaros, vinde com vossos gorjeios; todos os elementos da terra, vinde confortar Jesus. Vem, ó mar, refrescar e lavar Jesus. Ele é o nosso Criador, nossa vida, nosso tudo; vinde todos confortá-Lo, prestar homenagem ao nosso soberano Senhor. Ah, mas Jesus não está à procura de luz, estrelas, flores e pássaros; Ele quer almas, almas!

Ó meu doce Bem, estão todos aqui. A Tua querida Mãe está junto de Ti; descansa em seus braços. Assim, também ela receberá conforto, estreitando-Te ao peito, porque participou em grande parte,  da Tua dolorosa agonia. Estão aqui também, Madalena, Maria e todas as almas amantes de todos os séculos. Ó Jesus, aceita-as e diz a todas uma palavra de perdão e de amor; une todas no Teu amor para que, nunca mais, nenhuma alma Te abandone!

Mas, a mim, parece que Tu dizes: “Ó filho, quantas almas Me escapam com força e vacilam na ruína eterna! Como poderá se acalmar a Minha dor, se amo uma só alma tanto quanto amo todas as almas juntas?”

Jesus agonizante, parece que a Tua Vida está prestes a terminar. Já sinto a Tua respiração ofegante de agonia, os Teus lindos olhos ofuscados pela morte já próxima, todos os Teus membros abandonados e, não raro, parece que já não respiras. Sinto que o meu coração está explodindo de dor. Abraço-Te e Te sinto gelado; sacudo-Te e não dás sinal de vida! Jesus, estás morto? Ó mãe aflita, Anjos do Céu, vinde chorar por Jesus e não permitais que eu continue a viver sem Ele. Ah, não posso! Abraço-o com mais força e sinto que volta a respirar, mas de novo, não dá sinal de vida! Chamo-o: “Jesus, Jesus, minha Vida, não morras!”

De repente, ouço o barulho dos Teus inimigos que vêm para Te prender; quem Te defenderá, nas condições em que Te encontras? Mas, eis que, sacudindo-Te como se ressurgisses da morte para a Vida, olhas para mim e dizes: Ó alma, estás aqui? Portanto, foste testemunha das Minhas dores e das inúmeras mortes que padeci. Pois bem, deves saber que nestas três horas de amarga agonia no Horto, encerrei em Mim todas as vidas das criaturas e sofri todas as suas penas e a sua própria morte, dando a cada uma delas, a Minha vida. As Minhas agonias sustentarão as suas, as Minhas tristezas e a Minha morte se transformarão em manancial de docilidade e de vida para elas. Quanto Me custam as almas! Se pelo menos houvesse uma retribuição! Tu viste que, enquanto morria, Eu voltava a respirar; eram as mortes das criaturas que Eu sentia dentro de Mim!”

Meu Jesus sofredor, já que quiseste encerrar em Ti também a minha vida e, portanto, a minha morte, rogo-Te, por esta Tua amarga e dolorosa agonia, que venhas assistir-me na hora da minha morte. Eu te dei o meu coração como refúgio e descanso, os meus braços como sustento e coloquei todo o meu ser à Tua disposição. Ah, como me entregaria, de boa vontade, aos Teus inimigos, para poder morrer no Teu lugar! Vem, ó vida do meu coração, naquela hora, restituir-me o que Te dei: a Tua companhia, o Teu Coração como leito e repouso, os Teus braços como sustento, a Tua respiração ofegante para aliviar a minha respiração aflita, de modo que, ao respirar, respirarei por meio da Tua respiração que, como ar renovador, vai me purificar de qualquer mácula e me preparar para entrar na bem-aventurança eterna.

Aliás, meu doce Jesus, então darás à minha alma a Tua santíssima Humanidade, de modo que, olhando para mim, fixarás a Ti mesmo através de mim e, olhando para Ti mesmo, não encontrarás nada para me julgar. Depois, banha-me no Teu sangue, reveste-me com a cândida veste da Sua santíssima Vontade, acaricia-me com o Teu amor e, dá-me o último beijo, a fim de que eu possa levantar voo, da Terra rumo ao Céu. E, o que desejo para mim, faze-o a todos os agonizantes; estreita-os no Teu abraço de amor e, dando-lhes o beijo da união Contigo, salva a todos e não permitas que qualquer um deles se perca!

Meu aflito bem, ofereço-Te esta Hora santa em memória da Tua Paixão e Morte para desagravar a justa cólera de Deus diante dos inúmeros pecados, para o triunfo da santa Igreja, para a conversão dos pecadores, para a paz dos povos, para nossa santificação e em sufrágio das almas do Purgatório.

Mas vejo que os Teus inimigos estão próximos e Tu queres me deixar para ires ao seu encontro. Jesus, permite-me que ofereça todos os santos beijos da Tua santíssima Mãe, deixa que beije a Tua face, que agora mesmo Judas ousará fazê-lo com o seu beijo infernal; que Te enxugue o rosto molhado de sangue, o qual, daqui a pouco será alvo de bofetões e escarros; abraço-me fortemente ao Teu Coração, não Te abandono, mas Te sigo. Abençoa-me e me assiste. Assim seja!

 

Reflexões e práticas

 

Durante Sua terceira hora do Getsêmani, Jesus pediu ajuda ao Céu. Suas dores eram tantas que suplicou conforto também a Seus discípulos. E nós, em qualquer circunstância de sofrimento e desventura, pedimos sempre ajuda ao Céu? E, mesmo quando recorremos às criaturas, o fazemos de maneira ordenada, junto a quem pode nos confortar santamente? Resignamo-nos, pelo menos, se não recebemos o alívio que esperávamos, usando a indiferença das criaturas para nos abandonar totalmente nos braços de Jesus? Ele foi confortado por um Anjo; e nós, podemos dizer que somos o anjo de Jesus, permanecendo ao Seu lado para consolá-Lo e participar de Suas amarguras? Para podermos ser verdadeiramente anjos de Jesus, temos necessidade de aceitar os sofrimentos assim como Ele os envia, como dores divinas; só então ousaremos confortar um Deus tão entristecido. De outro modo, se aceitarmos os sofrimentos em sentido humano, não poderemos nos servir deles para consolar o Homem-Deus e, portanto, não conseguiremos ser anjos.

Nos sofrimentos que Jesus nos manda, parece que nos envia o cálice onde devemos colocar o fruto destes sofrimentos e, estas dores, padecidas com amor e resignação, vão se transformar em dulcíssimo néctar para Jesus. Em cada sofrimento, diremos: “Jesus, chama-nos a sermos anjos ao Seu redor, aspira as nossas consolações e faz-nos partícipes de Suas dores. Jesus, meu Amor, nos meus sofrimentos busco o Teu Coração como repouso e quero reparar as Tuas dores com as minhas, para trocá-las Contigo e ser o Teu anjo consolador.”

 

 

 

Oitava Hora – Da meia-noite à 1 da madrugada

A Prisão de Jesus

 

Ó meu Jesus, já é meia-noite; sentes que os inimigos se aproximam. Tu Te reestabeleces e enxugas o sangue que cobre Teu rosto e, fortalecido pelo conforto recebido, vais novamente a Teus discípulos. Chama-os, exorta-os e os leva Contigo para ires ao encontro de Teus inimigos. Com a Tua prontidão reparas a minha lentidão, indolência e preguiça em agir e em padecer por amor a Ti.

Mas, ó meu amável Jesus, que cena comovente vejo! Encontras primeiro o desleal Judas;  aproximando-se de Ti e lançando os braços a Teu pescoço, saúda-Te e te beija; e Tu, Amor infinito, não rejeitas aquele beijo infernal; abraça-o e estreita-o ao Coração, desejando arrebatá-lo do Inferno, dando-lhe sinais de novo amor. Meu Jesus, como é possível não te amar? Tamanha é a ternura do Teu amor, que deveria arrebatar todos os corações a amar-Te; todavia, não Te amam! E Tu, ó meu Jesus, neste beijo de Judas, suportando-o, reparas as traições, os fingimentos, os enganos sob aparência de amizade e santidade, especialmente dos sacerdotes. De resto, o Teu beijo manifesta que, a nenhum pecador, contanto que venha a Ti com humildade, negarás o Teu perdão.

Meu terníssimo Jesus, já Te entregas aos Teus inimigos, dando-lhes o poder de fazer-Te sofrer o que eles querem. Também eu, ó meu Jesus, entrego-me em Tuas mãos, a fim de que, livremente,  possas fazer de mim o que quiseres; Contigo, quero seguir a Tua Vontade, Tuas reparações e sofrer as Tuas dores. Desejo estar sempre perto de Ti, para fazer com que não haja ofensa que eu não repare, amargura que não alivie, escarros e bofetões que recebas que eu não possa acompanhar com meus beijos e afagos. Nas quedas das quais serás vítima, as minhas mãos estarão sempre prontas para Te ajudarem a levantar. Deste modo, quero estar sempre Contigo, ó meu Jesus; nem sequer um minuto quero Te deixar sozinho; e para ser mais seguro, coloca-me dentro de Ti e eu estarei na Tua mente, nos Teus olhares, no Teu Coração e em todas as partes de Ti, para fazer com que aquilo que fazes, também eu possa fazê-lo. Assim, poderei ser Tua fiel companhia e nenhuma das Tuas dores me passará despercebida, para Te dar, em tudo, a minha retribuição de amor.

Meu amável Bem, estarei ao Teu lado para defender-Te, para aprender os Teus ensinamentos, para enumerar, uma por uma, todas as Tuas palavras. Ah, como descem com docilidade no meu coração as palavras que dirigiste a Judas: “Amigo, para que vieste?”. Sinto que também diriges as mesmas palavras a mim, não me chamando amigo, mas com o doce nome de filho: “Filho, para que  vieste?”, para me ouvir responder: “Jesus, para Te amar”. “Para que vieste?”, repetes quando acordo de manhã; “Para que vieste?”, quando rezo; “Para que vieste?”, repete na Hóstia Sagrada, quando Te recebo em meu coração.

Que belo chamamento para mim e para todos! Mas, à Tua pergunta “Para que vieste?”, quantos respondem: “Venho para Te ofender!”. Outros, fingindo que não Te ouvem, entregam-se a todos os tipos de pecado e, ao Teu “Para que vieste?”, respondem caindo no Inferno! Como tenho compaixão de Ti, ó meu Jesus! Gostaria de tomar as mesmas cordas com que os Teus inimigos estão prestes a Te prender, para amarrar estas almas e poupar-Te deste sofrimento.

Mas ouço de novo a Tua voz terníssima que, enquanto vais ao encontro dos Teus inimigos, diz: “Quem procurais?”, ao que eles respondem: “Jesus, o Nazareno”; e Tu dizes-lhes: “Sou Eu”. Com estas simples palavras, dizes tudo e Te apresentas por aquilo que és, a tal ponto que os inimigos tremem e caem no chão, como mortos; e Tu, Amor indivisível, repetes: “Sou Eu” e os chama à vida e, Tu próprio, Te entregas nas mãos dos inimigos. E eles, pérfidos e ingratos, em vez de se prostrarem humildes e ofegantes aos Teus pés e Te pedirem perdão, abusando da Tua Vontade e desprezando graças e prodígios, seguram-Te e, usando cordas e correntes, amarram-Te, apertam-Te, lançam-Te no chão, põem-Te debaixo de seus pés, arrancam-Te os cabelos. E Tu, com paciência inaudita, silencias, sofres e reparas as ofensas daqueles que, apesar dos milagres, não se rendem à Tua Graça e se obstinam ainda mais.

Com as cordas e correntes, pedes ao Pai a graça de romper as cadeias de nossas culpas e nos prende com a doce cadeia do amor. Repreendes amorosamente Pedro, que quer defender-Te até mesmo cortando a orelha de Malco; desta forma, queres reparar as boas obras realizadas sem santa prudência ou que, por excesso de zelo, caem no pecado.

Meu pacientíssimo Jesus, estas cordas e correntes parecem acrescentar algo de mais lindo à Tua Pessoa divina: a Tua fronte se torna mais majestosa, a tal ponto que chama atenção dos Teus próprios inimigos; Teus olhos brilham com mais luz; Teu rosto divino manifesta-se com supremas paz e doçura, a ponto de apaixonar os Teus próprios algozes; com Tuas palavras suaves e penetrantes, ainda que poucas, fazes com que eles tremam e, se ousam ofender-Te, é porque Tu mesmo o permite.

Ó Amor acorrentado, como posso permitir que Te prendam, num grande esforço de amor por mim, enquanto eu, Teu pequeno filho, permaneço sem cordas e correntes? Não, não! Pelo contrário, prende-me com as Tuas próprias correntes, com as Tuas santíssimas mãos. Por isso, rogo-Te que, enquanto beijo a Tua testa divina, amarra todos os meus pensamentos, meus olhos, meus ouvidos, minha língua, meu coração, meus afetos e toda a minha pessoa e, ao mesmo tempo, prende todas as criaturas a fim de que, sentindo a doçura das Tuas amorosas correntes, não ousem mais ofender-Te.

Meu doce Bem, já é uma hora. A mente começa a adormecer. Farei o possível para ficar acordado, mas, se o sono me surpreender, entrego-Me a Ti, para seguir o que Tu fazes, aliás, o que Tu mesmo farás por mim. Em Ti deixo os meus pensamentos, para defender-Te de Teus inimigos, o meu respiro como seguimento e companhia, a minha palpitação para Te dizer sempre que Te amo e para recuperares o amor que os outros não Te dão, as gotas do meu sangue para proteger-Te e restituírem  a honra e a estima que eles Te tiraram com os insultos, os escarros e os bofetões. Meu Jesus, abençoa-me e me faz dormir em Teu adorável Coração e eu, pelas Tuas palpitações aceleradas pelo amor ou pela dor, com frequência poderei acordar e assim, jamais interromper a nossa companhia. Ficamos entendidos, ó Jesus!

 

Reflexões e práticas

 

Jesus entregou-se prontamente aos inimigos, vendo neles a Vontade do Pai.

Nos enganos e traições das criaturas, estamos prontos a perdoar como Jesus perdoou? Aceitamos o mal que as criaturas nos fazem como sendo algo permitido por Deus, para  nosso bem? Estamos prontos a fazer tudo aquilo que Jesus quer de nós? Nas cruzes, nos cansaços, podemos dizer que nossa paciência imita a de Jesus?

Meu Jesus acorrentado, as Tuas cadeias prendam  o meu coração e o conservem firme para torná-lo pronto a sofrer aquilo que Tu quiseres.

 

Nona Hora – Da 1 às 2 da madrugada

Lançado de um rochedo, Jesus cai na torrente do Cedron

 

Meu amado bem, entre a vigília e o sono, a minha pobre mente Te segue. Como posso me entregar ao sono, se vejo que todos Te deixam e fogem de Ti? Os próprios apóstolos, o ardoroso Pedro, que há pouco dissera que daria a vida por Ti, e Teu discípulo predileto que, com tanto amor, fizeste descansar em Teu Coração. Ah, todos Te abandonam e Te deixam à mercê de Teus cruéis inimigos!

Meu Jesus, estás sozinho! Teus olhos puríssimos olham ao redor, para verem se, pelo menos, um dos Teus beneficiados Te segue para Te assegurar o seu amor e para Te defender. Porém, quando percebes que ninguém, nenhum deles permaneceu fiel a Ti, sentes um aperto no Coração e desatas em lágrimas; sentes mais dor pelo abandono dos Teus companheiros mais fiéis que por aquilo que Te fazem os próprios inimigos. Meu Jesus, não chores, ou pelo menos faz com que eu chore Contigo. E o amável Jesus parece dizer: “Ah, filho, choremos juntos a sorte de tantas almas a Mim consagradas que, por pequenas provações e por contratempos da vida, não se preocupam mais Comigo e me deixam sozinho; por muitas outras, tímidas e vis que, por falta de coragem e de confiança, Me abandonam; por muitos e muitos que, não encontrando vantagem nas coisas santas, não cuidam de Mim; por tantos sacerdotes que pregam, celebram e confessam por amor ao interesse e à  própria glória; estes se mostram ao Meu redor, mas Eu permaneço sempre sozinho! Ah, filho, como é árduo para Mim este abandono! Não só Meus olhos lacrimejam, mas sangra o Meu Coração! Por favor, rogo-te que repares a Minha amarga dor, prometendo-Me que jamais Me deixarás sozinho.”

Sim, ó meu Jesus, prometo-o, auxiliado pela Tua graça, identificando-Me com a Tua Vontade divina. Mas, ó Jesus, enquanto choras o abandono de quem Te é querido, os inimigos não Te poupam qualquer ultraje que podem fazer a Ti; ó meu Bem, amarrado como estás, a tal ponto que sozinho não consegues dar sequer um passo, humilham-Te, arrastam-Te por aquelas ruas cheias de pedras e de espinhos, de modo que não há um movimento que não Te faça tropeçar nas pedras e se ferir nos espinhos. Ah, meu Jesus, vejo que, enquanto Te arrastam, deixas atrás de Ti o Teu precioso sangue e os cabelos loiros que Te arrancam da cabeça! Minha Vida e meu Tudo, permite-me que os recolha, a fim de atar todos os passos das criaturas, as quais nem de noite Te poupam; ao contrário, servem-se da noite para Te ofender ainda mais: alguns por acaso; outros por prazer; outros por diversão; e outros ainda, em vista de furtos sacrílegos! Meu Jesus, uno-me a Ti para reparar todas estas ofensas!

Mas, ó meu Jesus, já nos encontramos na torrente do Cedron e os desleais judeus se preparam para lançar-Te; fazem-Te bater contra uma rocha ali existente, com tanta força, a ponto de  derramar o Teu preciosíssimo sangue pela boca, marcando aquela rocha! Depois, puxando-Te, conduzem-Te até o fundo daquelas águas nojentas, de modo que elas Te entram nos ouvidos, na boca e no Teu nariz. Ó Amor inigualável, ficas inundado e quase encoberto por aquelas águas podres, repugnantes e frias. Tal é o estado lamentável  das criaturas quando cometem um pecado! Ficam cobertas por um manto de sujeira que faz nojo ao Céu e a quem as vê, atraindo assim os raios da Justiça divina!

Ó Vida da minha vida, pode existir um amor maior? Para nos tirar este manto de imundície, Tu permites que os inimigos Te lancem nesta torrente; sofres tudo para reparar os sacrilégios e a insensibilidade das almas que Te recebem de forma sacrílega e Te forçam, mais do que a torrente, para fazer com que entres em seus corações e sintas toda a repugnância delas! Tu permites ainda que estas águas penetrem até Tuas entranhas; tanto que os Teus inimigos, temendo a Tua morte por afogamento e para reservar-Te maiores tormentos, tiram-Te para fora; mas suscitas tanto nojo que eles mesmos sentem repugnância ao Te tocar.

Meu terno Jesus, já estás fora da torrente. O meu coração não aguenta ver-Te tão ensopado por aquelas águas nauseantes; percebo que tremes de frio da cabeça aos pés. Olhas à Tua volta para ver se há quem Te enxugue, Te limpe e te aqueça; mas em vão, ninguém tem piedade de Ti. Os inimigos, zombam e Te escarnecem; os Teus abandonaram-Te; a doce Mãe está distante, porque o Pai assim o permite!

Ó Jesus, eis-me aqui, vem aos meus braços, quero chorar tanto a ponto de ter água suficiente para Te lavar, limpar-Te e, com minhas mãos, arrumar os Teus cabelos todos em desalinho. Meu Amor, quero fechar-Te no meu coração para Te aquecer com o calor dos meus afetos, perfumar-Te com os meus desejos santos, reparar todas estas ofensas e dar a minha vida, juntamente com a Tua, para salvar todas as almas.  Desejo oferecer-Te o meu coração como lugar de descanso, para poder Te aliviar, de alguma forma, das dores padecidas até aqui. Depois, retomaremos juntos o caminho de Tua Paixão.

 

Reflexões e práticas

 

Nesta hora, Jesus se entregou aos Seus inimigos, os quais chegaram a lançá-Lo na torrente do Cedron, mas o amante Jesus olhava para todos com amor, suportando tudo por amor a eles.

E nós, entregamo-nos à mercê da Vontade de Deus?

Em nossas debilidades e quedas, estamos prontos a nos erguer para nos lançarmos nos braços de Jesus? O atormentado Jesus foi lançado na torrente do Cedron, experimentando sufocações, náusea e repugnância. E nós, detestamos qualquer mancha e sombra de pecado? Estamos prontos a acolher Jesus no nosso coração, para que Ele não sinta a repugnância que as almas Lhe provocam com o pecado e recompensá-Lo da náusea que nós mesmos Lhe causamos muitas vezes?

Meu doloroso Jesus, em nada me poupes e faz com que eu possa ser objeto das Tuas atenções divinas e amorosas!

Décima Hora – Das 2 às 3 da madrugada

Jesus é apresentado a Anás

 

Jesus, fica sempre comigo; doce Mãe, sigamos Jesus juntos. Meu Jesus, Sentinela Divina, vigiando-me no Teu Coração e não desejando permanecer sozinho, sem mim, Tu me despertas e faz-me estar Contigo na casa de Anás.

Já Te encontras naquela altura em que Anás Te interroga acerca da Tua doutrina e sobre os Teus discípulos, e Tu, ó Jesus, para defender a glória do Pai, abre a Tua sacratíssima Boca e, com voz sonora e decorosa, respondes: “Eu falei em público, e todos aqueles que estão aqui Me ouviram.”

Às Tuas palavras, tão dignas, todos tremeram; mas a perversidade é tanta que um servo, querendo honrar Anás, aproxima-se de Ti e, com a mão fechada, dá-Te um soco, tão forte que Te faz cambalear e empalidecer o Teu santíssimo rosto.

Agora compreendo, minha doce Vida, porque me acordaste. Tu tinhas razão; quem devia sustentar-Te, neste momento em que estás prestes a desfalecer? Os Teus inimigos irrompem em gargalhadas satânicas, assobios e palmas, aplaudindo um ato tão injusto, e Tu, cambaleando, não tem em quem apoiar-Te. Meu Jesus, abraço-Te, aliás, quero servir-Te de apoio com o meu ser;  ofereço-Te a minha face com coragem, pronto a suportar qualquer sofrimento por amor a Ti. Tenho compaixão de Ti por este ultraje e, Contigo, reparo a timidez de inúmeras almas que facilmente se desanimam; reparo-Te por todos aqueles que, por medo, não dizem a verdade, pela falta de respeito devido aos sacerdotes e pelas murmurações.

Mas vejo, meu aflito Jesus, que Anás Te manda a Caifás; Teus inimigos precipitam-Te pelas escadarias e Tu, meu Amor, nesta dolorosa queda, reparas por aqueles que de noite, se precipitam na culpa com o favor das trevas, e chamas à luz da fé, os heréticos e os infiéis.

Também eu Te quero seguir nestas reparações e, até chegares a Caifás, transmito-Te os meus suspiros para defender-Te dos Teus inimigos; e enquanto durmo, continuas a vigiar-me, acordando-me quando tiver necessidade. Por isso, dá-me Teu beijo e Tua bênção, e eu beijo o Teu Coração e nele continuo o meu sono.

 

Reflexões e práticas

 

Apresentado diante de Anás, Jesus é por ele interrogado sobre Sua doutrina e sobre Seus discípulos. Para glorificar o Pai, Ele responde acerca da Sua doutrina, mas nada diz sobre os discípulos para não faltar à caridade. E nós, quando se trata de glorificar o Senhor, somos intrépidos e corajosos, ou nos deixamos vencer pelo respeito humano? Devemos dizer sempre a verdade, mesmo que seja diante de pessoas importantes. Quando falamos, procuramos sempre a glória de Deus? Para exaltar a glória de Deus, suportamos tudo com paciência, como Jesus? Evitamos sempre falar mal do próximo e o socorremos quando ouvimos outros falarem mal dele?

Jesus vigia nosso coração; e nós, vigiamos o Coração de Jesus, a fim de que não receba qualquer ofensa que não seja por nós reparada? Sabemos nos vigiar em tudo, para que cada um de nossos pensamentos, olhares, afetos, palpitações, desejos e cada uma de nossas palavras, sejam como muitas sentinelas ao redor de Jesus, para vigiar o Seu Coração e repará-lo de todas as ofensas? E para poder fazê-lo, rezamos a Jesus para que vigie cada um de nossos atos e nos ajude, Ele mesmo, a vigiar o nosso coração? Cada ato que realizamos em Deus é uma vida divina que assumimos em nós; e dado que somos muito limitados, e Deus é imenso, não podemos encerrar um Deus em nossos meros atos; portanto, os multipliquemos tanto quanto possível, para assim poder, pelo menos, aumentar a nossa capacidade de compreender e de amar. E quando o nosso Jesus nos chama, estamos prontos a responder? O chamado de Deus pode fazer-se ouvir de muitas formas: pela inspiração, leitura de bons livros, pelo exemplo; pode fazer-se ouvir sensivelmente pelas  atrações da graça e também pelos fenômenos da atmosfera.

Meu doce Jesus, a Tua voz ressoe sempre em meu coração. Tudo que me circunda, dentro e fora, seja a voz constante que me chama sempre a Te amar, e a harmonia da Tua voz divina me impeça de prestar atenção a qualquer outra que possa desviar-me de Ti.

 

 

 

Décima primeira Hora – Das 3 às 4 da madrugada

Jesus na casa de Caifás

 

Meu Bem aflito e abandonado, enquanto a minha frágil natureza dorme em Teu Coração doloroso, o meu sono é, com frequência, interrompido pelos impulsos de amor e de dor de Teu Coração Divino. Entre a vigília e o sono, ouço os empurrões que Te dão Teus inimigos e, acordando, digo: “Meu pobre Jesus, abandonado por todos!”. Não há quem Te defenda, mas de dentro do Teu Coração, eu Te ofereço a minha vida, para Te amparar quando te empurrarem. Adormeço de novo; mas outro impulso do Teu Coração Divino me acorda e ensurdeço com os insultos que Te dirigem, pelo barulho das vozes, pelos gritos e pela correria das pessoas.

Meu amor, por que razão estão todos contra Ti? O que fizeste para que, como muitos lobos ferozes, desejem Te devorar? Sinto que o meu sangue congela ao ver os preparativos dos Teus inimigos; tremo e estou angustiado, pensando numa forma de defender-Te.

Mas o meu aflito Jesus, conservando-me em Seu Coração, aperta-me com mais força e me diz: “Meu filho, não fiz nada de mal, e fiz tudo: cometi o delito do amor, que contém todos os sacrifícios; amor cujo preço é incalculável. Estamos ainda no início; tu estás no Meu Coração;  observa tudo, ama-Me, silencia e aprende. Faz com que o teu Sangue gelado escorra nas Minhas veias para dar vigor ao Meu sangue que está totalmente em chamas; faz com que o teu tremor percorra Meus membros, a fim de que, fundido em mim, possas confirmar-te e aquecer-te, para sentir-te como parte das Minhas dores e, ao mesmo tempo, possas adquirir força ao Me ver sofrer tanto assim. Esta será a mais linda defesa que Me farás; sê fiel a Mim e atento!”

Meu doce Amor, é tão grande o tumulto dos Teus inimigos, que não me deixam dormir. Os empurrões tornam-se cada vez mais violentos; ouço o ruído das correntes com as quais Te amarraram de forma tão apertada que, dos Teus pulsos, fazem jorrar sangue vivo, com o qual marcas aqueles caminhos. Recorda que o meu sangue está no Teu sangue, e quando Tu o derramas, o meu sangue beija, adora e repara o Teu, para que ele seja luz para todos aqueles que Te ofendem durante a noite, e ímã para atrair todos os corações a Ti, meu Amor e meu Tudo.

Enquanto Te arrastam, o ar ensurdece com os gritos e assobios. Já chegas a Caifás; Tu és totalmente manso, modesto, humilde; Tua doçura e paciência são tamanhas que aterrorizam Teus próprios inimigos. Quanto a Caifás, dominado pelo furor, parece querer devorar-Te. Ah, como se distinguem bem a Inocência do pecado!

Meu Amor, Tu estás diante de Caifás como o maior dos culpados, prestes a ser condenado. Caifás pergunta às testemunhas quais são os Teus crimes. Ah, teria agido melhor se perguntasse qual é o Teu amor! Alguns Te acusam disto, outros daquilo, de forma insensata e contradizendo-se. Enquanto Te acusam, os soldados que estão perto de Ti, puxam Teus cabelos, dão bofetões horríveis contra o Teu santíssimo rosto, a ponto de fazer eco em toda a sala; torcem os Teus lábios, batem em Ti e, calado, sofres. Mas quando olha para eles, a luz dos Teus olhos desce-lhes  ao coração e, não podendo suportá-la, afastam-se de Ti; chegam outros para maltratar-Te ainda mais.

Mas, em tantas acusações e ultrajes, vejo que silencias; Teu Coração pulsa com vigor, como se estivesse prestes a explodir de dor. Diz-me, meu aflito Bem, o que acontece? Porque, por aquilo que estão Te fazendo os Teus inimigos, vejo que o Teu amor é tão grande que, ansioso, os esperas e o ofereces para a nossa salvação. Assim, o Teu Coração repara, com toda calma, as calúnias, os ódios, os falsos testemunhos, o mal premeditado que se comete contra os inocentes, e reparas por aqueles que Te ofendem por instigação dos chefes e as ofensas dos clérigos. E enquanto unido a Ti faço as mesmas reparações, percebo em Ti uma mudança por causa de uma nova dor, jamais sentida antes. Diz-me, o que é? Ó Jesus, deixa-me tomar parte em tudo.

“Filho, queres saber? Ouço a voz de Pedro que afirma não Me conhecer; que jurou e voltou a jurar falso e negou Me conhecer. Ó Pedro, por quê? Não Me conheces? Não te recordas com quantos bens te cumulei? Ah, se os outros Me fazem morrer de sofrimentos, tu Me fazes morrer de dor! Ah, como agiste mal, seguindo-Me de longe, expondo-te assim às ocasiões!

Meu Bem negado, como se conhecem imediatamente as ofensas de Teus companheiros mais queridos! Ó Jesus, quero fazer a minha palpitação correr na Tua para suavizar o espasmo desumano que sofres; a minha palpitação na Tua, jura-Te fidelidade e amor, e repete e jura, milhares de vezes, que Te conhece.

Mas o Teu Coração ainda não se tranquiliza e procuras olhar para Pedro. Ao fixar os Teus olhares amorosos, repletos de lágrimas pela sua negação, Pedro condói-se, chora e se afasta. E Tu, tendo-o salvo, sossegas; assim reparas as ofensas dos Papas e dos chefes da Igreja, especialmente daqueles que se expõem às ocasiões de pecado.

Entretanto, Teus inimigos continuam a Te acusar e Caifás, vendo que nada respondes às suas acusações, Te diz: “Esconjuro-Te pelo Deus vivo, diz-me, Tu és verdadeiramente o Filho de Deus?”

E Tu, meu Amor, tendo sempre nos lábios a palavra da verdade, comportando-se com suprema Majestade, com voz potente e suave, de forma que todos ficam estupefatos e os próprios demônios se precipitam nos abismos, respondes: “Tu o dizes; sim, Eu sou o verdadeiro Filho de Deus, e um dia descerei das nuvens do Céu para julgar todas as nações!

Ao ouvirem as Tuas palavras criadoras, todos se calam, sentindo calafrios e temor; mas, Caifás,  depois de poucos instantes de terror, recuperando-se e totalmente enfurecido, com a cólera de animal feroz, diz a todos: “Que necessidade temos de outras testemunhas? Ele acabou de proferir uma grande blasfêmia! O que mais esperamos para condená-Lo? Ele já é réu de morte!”

E para dar mais força às suas palavras, rasga suas próprias vestes com tanta raiva e furor que todos, como se fossem um só, atiram-se contra Ti e, enquanto alguns Te dão socos na cabeça, outros Te puxam os cabelos, outros Te dão bofetões, outros cospem em Teu rosto e outros pisam-Te. São tantos os tormentos que Te provocam, que a Terra treme e o Céu fica perturbado.

Jesus, meu Amor e minha Vida, à medida que Te atormentam, o meu coração é dilacerado pela dor! Por favor, permita que eu saia de Teu doloroso Coração e enfrente, em Teu lugar, todos estes ultrajes. Ah, se me fosse possível, gostaria de Te arrebatar das mãos dos Teus inimigos. Mas Tu não queres, pois é isto o que exige a salvação de todos; e sou obrigado a resignar-me. Mas, meu doce Amor, deixa-me que Te arrume, que ajeite Teus cabelos, que Te limpe os escarros, que enxugue o sangue e me feche em Teu Coração, porque vejo que Caifás, cansado, quer se retirar, entregando-Te aos soldados.

Por isso, abençoo-Te e Tu me abençoas e me dás o místico beijo de Teu amor. E eu me fecho na fornalha do Teu Coração Divino para adormecer um pouco. Pouso meus lábios no Teu Coração para que, respirando, eu Te beije e, da diversidade de Tuas palpitações, mais ou menos ofegantes, eu possa perceber se sofres ou descansas. Por isso, abraço-Te para Te defender, aperto-me com mais força ao Teu Coração e adormeço.

 

Reflexões e práticas

 

Apresentado a Caifás, Jesus é acusado injustamente e submetido a padecimentos inenarráveis. Ao ser interrogado, diz sempre a verdade.

E nós, quando o Senhor permite que nos caluniem e acusem injustamente, refugiamo-nos somente em Deus, que conhece a nossa inocência? Ou mendigamos a estima e a honra das criaturas? Dos nossos lábios sai sempre a verdade? Somos inimigos de qualquer artifício e falsidade? Suportamos com paciência as zombarias e as confusões que as criaturas nos ocasionam? Estamos prontos a dar a vida pela salvação dessas criaturas?

Ó meu doce Jesus, como sou diferente de Ti! Por favor, faz com que minha boca profira sempre a verdade, de modo a atingir o coração daqueles que me escutam para conduzi-los a Ti!

 

 

 

Décima segunda Hora – Das 4 às 5 da madrugada

Jesus à mercê dos soldados

 

Jesus, minha dulcíssima Vida, enquanto eu dormia abraçado ao Teu Coração, com frequência sentia-me ferir pelos espinhos que ferem o Teu santíssimo Coração. E, querendo acordar, juntamente Contigo, para que contes pelo menos com alguém que sente as Tuas dores e se compadeça, abraço o Teu Coração com mais força ainda e, sentindo de modo mais vivo as Tuas pontadas, acordo. Mas o que vejo, o que ouço? Gostaria de Te esconder em meu coração, para me expor em Teu lugar e receber sobre mim dores tão agudas, insultos e humilhações inauditos; mas só o Teu amor pode aguentar tantos ultrajes! Meu pacientíssimo Jesus, o que poderias esperar de gente sem coração?

Já vejo que Te ridicularizam, cobrem-Te o rosto de escarros, de forma que a luz dos Teus lindos olhos fica coberta por eles. E Tu, enquanto derrama rios de lágrimas por nossa salvação, afasta aqueles escarros; e Teus inimigos, cujo coração não é capaz de ver a luz de Teus olhos, voltam a cobri-los de escarros. Outros, sendo mais atrevidos no mal, abrem a Tua dulcíssima Boca e  enchem-na de escarros fétidos, a tal ponto que eles mesmos sentem repugnância. E, dado que uma parte daqueles escarros cai e mostra parcialmente a majestade do Teu rosto e Tua docilidade sobre-humana, eles sentem arrepios e envergonham-se de si mesmos e, para se sentirem mais livres, vendam os Teus olhos com um trapo imundo para poderem desenfrear totalmente contra a Tua adorável Pessoa. Espancam-Te sem piedade, arrastam-Te, pisam-Te e continuam a dar socos e bofetões em Teu rosto e em Tua cabeça, arranhando-Te, puxando Teus cabelos e empurrando-Te de um lado para outro.

Jesus, meu Amor, o meu coração não suporta ver-Te no meio de tantas dores. Tu queres que eu observe tudo, mas sinto que gostaria de vendar os meus olhos para não ver cenas tão dolorosas, que fazem arrancar o coração de qualquer peito; mas o amor obriga-me a olhar o que fazem de Ti.

Vejo que Te calas e nada dizes em Sua defesa; estás nas mãos destes soldados como um farrapo e podem fazer de Ti aquilo que quiserem. Quando os vejo saltar sobre Ti, temo que morras debaixo de seus pés.

Meu Bem e meu Tudo, tanta é a dor que sinto por Tuas penas! Gostaria de gritar com tanta força a ponto de me fazer ouvir no Céu para chamar o Pai, o Espírito Santo e todos os Anjos. E, aqui na Terra, de um ponto a outro, quero chamar primeiro a Tua doce Mãe e todas as almas que Te amam, de modo a formarmos um círculo à Tua volta, impedindo que estes soldados insolentes se aproximem de Ti e continuem a Te insultar e atormentar. Contigo, ó Jesus, reparamos toda a espécie de pecados noturnos, sobretudo os cometidos pelos intolerantes à Tua Pessoa sacramental; e reparamos também todas as ofensas das almas que não se mantêm fiéis na noite da provação.

Mas vejo, meu insultado Bem, que os soldados, cansados e embriagados, querem descansar. Mas meu pobre coração, oprimido e dilacerado por Teus inúmeros sofrimentos, não quer ficar sozinho Contigo e sente a necessidade de outra companhia. Por favor, minha Mãe, sê tu a minha inseparável companhia. Por favor, juntos abracemos Jesus para consolá-Lo! Ó Jesus, juntamente com a querida Mãe, beijo-Te, abençoo-Te e, com ela, entrarei no sono do amor em Teu adorável Coração.

 

Reflexões e práticas

 

Nesta hora, Jesus está no meio dos soldados com ânimo imperturbável e firme. Como Deus que é, padece todos os sofrimentos que os soldados Lhe proporcionam e olha para eles com tanto amor que parece convidá-los a provocar-Lhe mais dores. E nós, em nossos  repetidos sofrimentos, somos constantes ou nos lamentamos, aborrecemo-nos, perdemos a paz, aquela paz do coração, tão necessária para fazer com que Jesus possa encontrar em nós uma morada feliz?

A firmeza é a virtude que nos permite saber se Deus reina verdadeiramente em nós. Se a nossa  virtude é verdadeira, seremos firmes na provação, com uma persistência, e não de forma esporádica, mas sempre igual; e só esta firmeza pode nos dar a paz. Quanto mais firmes formos no bem, no sofrer e no agir, mais alargaremos o espaço à nossa volta, no qual Jesus aumentará as Suas graças. Assim, se formos inconstantes, o nosso campo será limitado, e Jesus, nada ou quase nada, poderá movimentar-Se. Por outro lado, se formos firmes e constantes, Jesus achará um campo muito vasto e encontrará em nós apoio e sustento, onde derramar as Suas graças.

Se quisermos que o nosso Amado Jesus descanse em nós, fiquemos ao Seu redor com a mesma firmeza com que Ele agia para a salvação de nossas almas. Assim, defendido, Ele estará em nosso coração, em doce repouso. Jesus olhava com amor para aqueles que O maltratavam. E nós, temos o mesmo amor por quem nos ofende? E o amor que lhes demonstramos é tão grande, a ponto de fazer com que seja uma voz poderosa em seus corações, para que se convertam a Jesus?

Meu Jesus, meu amor infinito, dá-me este amor e faz com que cada dor atraia almas para Ti.

 

 

 

Décima terceira Hora – Das 5 às 6 da manhã

Jesus na prisão

 

Meu Jesus prisioneiro, acordei e não Te encontro. O meu coração pulsa com muita força e deseja amor. Diz-me, onde estás? Meu Anjo, leva-me à casa de Caifás. Mas dou voltas, procuro em toda a parte e não Te encontro. Meu amor, depressa, com Tuas mãos movimenta as correntes com que  conservas ligado o meu coração ao Teu e puxa-me a Ti, a fim de que eu possa levantar voo para ir lançar-me em Teus braços. E Tu, Jesus meu Amor, ferido pela minha voz e querendo minha companhia, já me atrais e vejo que Te puseram na prisão. O meu coração exulta de alegria ao encontrar-Te, mas sinto que é ferido pela dor, vendo o estado em que Te reduziram.

Vejo-Te com as mãos amarradas atrás de uma coluna, com os pés ligados e apertados; vejo o Teu rosto santíssimo pisado, inchado e a escorrer sangue, devido aos horríveis socos que te deram. Os Teus puríssimos olhos inchados, a Tua pupila exausta e triste em virtude da vigília, os Teus cabelos em total desordem, a Tua santíssima Pessoa integralmente dolorida e, além disso, não podes erguer-Te nem Te limpar porque estás amarrado.

E eu, ó meu Jesus, num soluço de pranto, abraçando os Teus pés, digo: “Ah, como foste maltratado, ó Jesus!”

E olhando-me, respondes: “Vem, ó meu filho, esteja atento a tudo o que Me vires fazer, para fazê-lo Comigo, e assim Eu possa continuar a Minha vida em ti.”

E eis que, com admiração, vejo que em vez de Te preocupares com as Tuas feridas, com amor indescritível pensas em glorificar o Pai, para O reparar daquilo que nós devíamos fazer, e chamas todas as almas ao Teu redor, para tomar sobre Ti todos os seus males e dar-lhes todos os bens. E, quando estamos na aurora do dia, ouço a Tua voz dulcíssima que diz:

“Pai Santo, Eu Te dou graças por tudo o que sofri e por aquilo que me resta sofrer. E como este alvorecer chama o dia e o dia faz nascer o sol, assim a aurora da Graça brote em todos os corações e, fazendo-se dia, Eu, Sol Divino, possa surgir em todos os corações e reinar sobre todos. Vês estas almas, ó Pai? Eu desejo responder-Te por todas, por seus pensamentos, por suas palavras, ações e por seus passos, mesmo à custa de sangue e de morte.”

Meu Jesus, amor infinito, uno-me a Ti e, também eu, agradeço-Te por tudo quanto me fizeste sofrer e por aquilo que me resta padecer; e Te peço que faças nascer, em todos os corações, a aurora da Graça para que Tu, Sol Divino, possas renascer e reinar sobre todos os corações.

Mas vejo ainda, meu doce Jesus, que reparas todas as primícias dos pensamentos, dos afetos e das palavras das criaturas que, ao início do dia, não são oferecidas a Ti para Te honrarem, e que chamas de novo a Ti, como que em consignação, os pensamentos, os afetos e as palavras das criaturas, para reparares e dares ao Pai a glória que  Lhe devem.

Meu Jesus, Mestre Divino, já que nesta prisão temos uma hora de liberdade e estamos a sós, não só quero fazer o que fazes, mas quero limpar-Te, arrumar os Teus cabelos e fundir-me em Ti. Por isso, eu me aproximo da Tua sacratíssima cabeça e, ajustando os Teus cabelos, quero reparar-Te por tantas mentes confusas e cheias de sujeira, que não reservam sequer um pensamento a Ti. E, ao fundir-me em Tua mente, quero reunir em Ti todos os pensamentos das criaturas e fundi-los nos Teus pensamentos, a fim de encontrar a reparação suficiente por todos os pensamentos malignos, por tantas luzes e inspirações sufocadas. Gostaria de fazer de todos os pensamentos, um só com os Teus, para Te dar a verdadeira reparação e a glória perfeita.

Meu Jesus aflito, beijo os Teus olhos amargurados e repletos de lágrimas. Com as mãos atadas à coluna, não podes enxugá-los nem eliminar os escarros com os quais Te macularam. E, como a posição na qual Te amarraram é dilacerante, não podes fechar os olhos cansados para descansar. Meu Amor, de muito bom grado desejaria que os meus braços Te servissem de leito, para fazer-Te repousar. Quero enxugar os Teus olhos, pedir-Te perdão e Te reparar por todas as vezes que não Te agradamos e não Te olhamos para compreender o que querias de nós, o que devíamos fazer e aonde desejavas que fôssemos. Quero compenetrar os meus olhos nos Teus e nos olhos de todas as criaturas, para poder reparar com os Teus próprios olhos, todo mal que fizemos com a nossa vista.

Meu piedoso Jesus, beijo os Teus santíssimos ouvidos, cansados de ouvir insultos a noite inteira e, muito mais, os ecos de todas as injúrias das criaturas, que ressoam em Teu ouvido. Peço-Te perdão e Te reparo por todas as vezes que nos chamaste e fomos surdos ou fizemos de conta que não ouvíamos, e Tu, exausto, repetiste as Tuas chamadas, mas em vão! Desejo identificar o meu ouvido com o Teu e também com o ouvido de todas as criaturas, para fazer-Te uma reparação contínua e completa.

Jesus apaixonado, adoro e beijo o Teu santíssimo rosto, totalmente inchado pelos bofetões. Eu Te peço perdão e Te reparo por todas as vezes que Tu nos chamaste a oferecer reparações, e nós, unindo-nos aos Teus inimigos, demos bofetões e cuspimos em Ti. Meu Jesus, quero fundir o meu rosto no Teu, para devolver-Te a Tua beleza natural, propiciando-Te a plena reparação por todos os desprezos que se fazem à Tua adorável Majestade.

Meu bem amargurado, beijo a Tua dulcíssima boca, cheia de dor pelos socos e sedenta de amor. Quero fundir a minha língua na Tua e também na língua de todas as criaturas, para reparar com a Tua própria língua todos os pecados e as conversas funestas que se proferem; meu Jesus sedento, quero unir todas as vozes à Tua para, numa só, fazer com que, quando estivermos prestes a Te ofender, fluindo a Tua voz na voz de todas as criaturas, possa sufocar as vozes do pecado e transformá-las em vozes de louvor e de amor.

Jesus acorrentado, beijo o Teu pescoço, oprimido por pesadas correntes e por cordas que, passando do peito aos ombros e pelos braços, mantêm-Te estreitamente vinculado à coluna. Tuas mãos já estão inchadas e negras por causa das correntes apertadas e sangras de várias partes. Por favor, permite-me que Te desate, meu Jesus aprisionado, e se gostas de estar preso, que eu Te prenda com as correntes do amor que, sendo suave, em vez de Te ferirem, aliviarão o Teu sofrimento. E, enquanto Te desato, quero fundir-me no Teu pescoço, no Teu peito, nos Teus ombros, nas Tuas costas, nas Tuas mãos e nos Teus pés, para reparar Contigo todos os apegos e, assim, dar a todos as correntes do Teu amor; reparar toda a insensibilidade e encher o peito de todas as criaturas com o Teu fogo, o qual tens tanto, que não podes contê-lo; reparar Contigo todos os prazeres ilícitos e o amor às comodidades, para dar a todos o espírito de sacrifício e o amor ao sofrimento.

Quero fundir-me em Tuas mãos, para reparar todas as obras más, o bem feito de modo imperfeito e com presunção, e transmitir a todos o perfume de Tuas obras. Quero fundir-me em Teus pés, para encerrar os passos de todas as criaturas, e assim repará-los e comunicar a todos os Teus passos, para fazê-los caminhar santamente.

Enfim, minha doce vida, concede-me que, fundindo-me em Teu Coração, encerre todos os afetos, as palpitações e os desejos, para repará-los Contigo e para dar, a todos, os Teus afetos, palpitações e desejos, a fim de que ninguém mais Te ofenda.

Mas ouço o ruído das chaves; são Teus inimigos que vêm Te tirar da prisão. Tremo, Jesus, sinto-me congelar; Tu estarás de novo nas mãos dos Teus inimigos: o que acontecerá Contigo? Parece que ainda ouço o ruído das chaves dos tabernáculos. Quantas mãos profanadoras vêm abri-los e, talvez, para Te fazerem entrar em corações sacrílegos! Em quantas mãos indignas és obrigado a encontrar-Te! Meu Jesus prisioneiro, quero estar em todas as prisões de amor, para ser espectador quando os Teus ministros Te libertam, para fazer-Te companhia e reparar-Te as ofensas que podes receber.

Vejo que Teus inimigos se aproximam, enquanto Tu saúdas o sol nascente no último dos Teus dias; e eles, desprendendo-Te, vendo-Te tão majestoso e que os olhas com tanto amor, como retribuição, dão socos tão fortes no Teu rosto, a ponto de o fazerem corar com o Teu preciosíssimo sangue.

Jesus, meu amor, antes de sair da prisão, na minha dor, rogo-Te que me abençoes a fim de receber força para acompanhar-Te no restante da Tua Paixão.

 

Reflexões e práticas

 

Na prisão, amarrado a uma coluna e imobilizado, Jesus é coberto de escarros e de lama. Ele procura nossa alma, a fim de que Lhe faça companhia. E nós, sentimo-nos felizes por estar sozinhos com Jesus, ou procuramos a companhia das criaturas? O nosso único respiro, a nossa única palpitação é somente Jesus?

Para fazer com que nos assemelhemos a Ele, o amante Jesus vincula as nossas almas com a aridez, a opressão, as dores e qualquer outra espécie de mortificação. E nós, somos felizes por nos deixar amarrar por Jesus naquela prisão em que o Seu amor nos coloca, ou seja, na obscuridade, nas opressões e outros?

Jesus está na prisão. Sentimos em nós a força e a prontidão de nos prendermos n’Ele por Seu amor? O aflito Jesus suspirava por nossa alma para ser desamarrado e sustentado na dolorosa posição em que se encontrava. E nós, suspiramos para que somente Jesus venha nos fazer companhia, libertar-nos das correntes de todas as paixões e prender-nos com cadeias mais fortes a Seu Coração? Colocamos nossos sofrimentos em cortejo ao redor de Jesus que sofre, para afastar d’Ele os escarros e a lama que os pecadores Lhe lançam? Na prisão, Jesus reza. E nossa oração com Jesus, é constante?

Meu Jesus acorrentado, Tu Te fizeste prisioneiro por amor a mim, e eu Te peço que aprisiones em Ti a minha mente, a minha língua, o meu coração e todo o meu ser, para que eu não tenha qualquer liberdade, e Tu possuas absoluto senhorio sobre mim.

 

 

Décima quarta Hora – Das 6 às 7 da manhã

Jesus de novo diante de Caifás, que confirma

a condenação à morte e O envia a Pilatos

 

Meu Jesus sofredor, já saíste da prisão; estás tão debilitado que vacilas a cada passo. Quero colocar-me a Teu lado para Te amparar quando vir que estás prestes a cair.

Mas vejo que os soldados Te levam perante Caifás, e Tu, ó meu Jesus, reapareces no meio deles como Sol e, embora estejas desfigurado, refletes luz em toda parte. Vejo que Caifás está cheio de alegria, ao ver-Te em estado tão precário. Ao reflexo da Tua luz, fica ainda mais cego, e no seu furor, volta a perguntar-Te: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus?”

E Tu, meu Amor, com uma majestade suprema, com a graça da Tua palavra e com o habitual tom de docilidade e comoção, que chega a arrebatar os corações, respondes: “Sim, Eu sou o verdadeiro Filho de Deus.”

E os Teus inimigos, embora sintam em si toda a força da Tua palavra, sufocando todo bom sentimento, sem desejar continuar a ouvir, em voz unânime, gritam: “É réu de morte, é réu de morte!”

Caifás confirma a sentença de morte e envia-Te a Pilatos. E Tu, meu Jesus condenado, aceitas esta sentença com tanto amor e resignação, como que arrancando-a do iníquo sumo sacerdote. Reparas assim, todos os pecados cometidos deliberadamente e com toda a malícia, os pecados daqueles  que, em vez de sentirem aflição pelo mal que fizeram, alegram-se e exultam pelo próprio pecado;  e isto os leva à cegueira e a sufocar qualquer luz e graça. Jesus, minha Vida, Tuas reparações e preces fazem eco em meu coração: reparo e rezo Contigo.

Meu doce Amor, vejo que os soldados, tendo perdido a pouca estima que tinham por Ti, vendo que és sentenciado à morte, tomam-Te, amarram-Te com correntes e cordas, apertam-Te com tanta força que quase tiram todo o movimento de Tua Pessoa divina e, empurrando-Te e Te arrastando,  colocam-Te para fora do palácio de Caifás.

Multidões estão à Tua espera, mas ninguém Te defende; e Tu, meu Sol Divino, sais no meio da multidão, desejando envolver todos com a Tua luz. E assim que dás os primeiros passos, almejando encerrar os passos de todas as criaturas nos Teus, rezas e reparas por aqueles que dão os primeiros passos em obras com finalidades perversas: alguns para vingar-se, outros para roubar, outros para trair, outros para matar. Oh, como todas estas culpas ferem o Teu Coração! E para impedir tanto mal, rezas, reparas e ofereces todo o Teu Ser.

Contudo, enquanto Te sigo, vejo que Tu, Jesus, meu Sol, no momento de descer do palácio de Caifás, encontras a bela Maria, nossa doce Mãe. Reciprocamente, os vossos olhares se encontram e ferem-se e, não obstante vos sintais aliviados, ao ver-vos, nascem também novos sofrimentos: Tu, ao ver a bela Mãe trespassada, pálida e encoberta de luto; e a querida Mãe, ao ver-Te, Sol Divino, ofuscado e coberto de tantos desprezos, chorando e revestido de sangue. Mas não podeis saborear por muito tempo a troca de olhares, e com a dor de não vos poder dirigir sequer uma palavra, os vossos Corações dizem tudo um ao outro e, um fundindo-se no outro, cessais de vos olhar porque os soldados Te empurram; e assim, pisado e arrastado, chegas a Pilatos. Meu Jesus, unindo-me à Mãe trespassada, sigo-Te, juntamente com Ela, para me fundir em Ti. E, dirigindo-me Teu olhar de amor, Tu me abençoas.

 

Reflexões e práticas

 

Jesus sai à luz do dia, é apresentado a Caifás e, com ânimo inabalável, confirma que Ele é o Filho de Deus.

E nós, quando saímos, deixamo-nos orientar por Jesus? O nosso comportamento é exemplar para os outros, e os nossos passos, como ímã, chamam as almas ao redor de Jesus? Toda a vida de Jesus é uma contínua chamada de almas. Se estivermos em conformidade à sua Vontade, ou seja, se ao caminharem, os nossos pés chamarem as almas, se as nossas palpitações, fazendo eco das palpitações divinas, harmonizarem-se e pedirem almas, e assim para todo o resto, estivermos em conformidade em nosso modo de agir, formaremos em nós a mesma Humanidade de Jesus. Desta forma, cada chamada de almas a mais que fizermos é um sinal a mais que recebemos de nosso Jesus. A nossa vida é sempre igual, ou então permitimos que ela piore, segundo os encontros que temos?

Meu Jesus, Santidade sem igual, guia-me e faz com que também o meu comportamento exterior manifeste toda a Tua vida divina.

 

 

 

Décima quinta Hora – Das 7 às 8 da manhã

Jesus perante Pilatos; Pilatos envia-o a Herodes

 

Ó meu Jesus prisioneiro, Teus inimigos, juntamente com os sacerdotes, apresentam-Te a Pilatos e, ostentando santidade e escrupulosidade, porque devem festejar a Páscoa, permanecem fora, no pátio. E Tu, meu amor, vendo as profundezas da sua malícia, reparas todas as hipocrisias do corpo religioso; também eu o faço Contigo. Mas enquanto Te ocupas do seu bem, ao contrário, começam a acusar-Te a Pilatos, vomitando todo o veneno que têm contra Ti.

Pilatos, não satisfeito com as acusações que Te dirigem para poder condenar-Te com mais razão, chama-Te à parte e, a sós Contigo, examina-Te e pergunta: “És Tu o Rei dos judeus?”. E Tu, Jesus, meu verdadeiro Rei, respondes: “O Meu Reino não é deste mundo; se o fosse, milhares de legiões de Anjos Me defenderiam.”

E Pilatos, comovido com a suavidade e dignidade das Tuas palavras, diz: “Como, Tu és Rei?”

E Tu respondes: “Tu o dizes. Eu sou Rei e vim ao mundo para ensinar a Verdade.”

E Pilatos, sem desejar ouvir mais nada, convencido da Tua inocência, sai até a varanda e diz: “Não encontro qualquer culpa neste Homem.”

Irados, os judeus Te acusam de muitas outras coisas e Tu Te calas, não Te defendes. Assim,  reparas as fraquezas dos juízes, quando se acham diante dos poderosos, reparas as suas injustiças e rezas pelos inocentes oprimidos e abandonados.

Então Pilatos, vendo o furor dos Teus inimigos e para se ver livre de Ti, envia-Te a Herodes.

 

Jesus perante Herodes

 

Meu Rei Divino, quero repetir as Tuas preces e reparações, acompanhando-Te até Herodes.

Vejo que os Teus inimigos, irados, gostariam de devorar-Te. Eles Te levam entre insultos, zombarias e escárnios, e é assim que Te fazem chegar a Herodes que, com soberba, formula-Te muitas perguntas. Tu não respondes, nem sequer olhas para ele; Herodes, irritado porque não se sente satisfeito nas suas curiosidades, e sentindo-se humilhado pelo Teu longo silêncio, declara a todos que Tu és um louco e sem juízo e, como tal, ordena que sejas maltratado. E, para zombar de Ti, pede que Te cubram com uma veste branca e Te entrega aos soldados, a fim de que Te ridicularizem.

Meu Jesus inocente, ninguém acha culpa em Ti; somente os judeus, porque por sua aparente religiosidade , falsa e hipócrita, não merecem que resplandeça a luz da Verdade em suas mentes.

Meu Jesus, Sabedoria infinita, quanto Te custa ter sido declarado louco! Os soldados, abusando de Ti, lançam-Te por terra, pisam-Te, cobrem-Te de escarros, desprezam-Te, batem-Te com bastões. São tantos os golpes, que Te sentes morrer. São tamanhas e tantas as penas, os opróbrios e as humilhações que Te provocam, que os Anjos choram e cobrem o rosto com suas asas para não verem isto.

Meu Jesus louco, também eu quero Te chamar louco, mas louco de amor. E a Tua loucura de amor é tanta que, em vez de Te indignares, rezas e reparas pelas ambições dos reis e dos chefes que ambicionam reinos para a ruína dos povos; por tantos massacres que provocam e tanto sangue que fazem derramar por capricho; pelas culpas que se cometem nas cortes, nos palácios e nas milícias.

Meu Jesus, como é terno ver-Te rezar e reparar no meio de ultrajes! A Tua voz ressoa no meu coração e sigo aquilo que fazes. E agora, deixa que me aproxime de Ti, que participe nas Tuas penas e Te console com o meu amor; e, afastando de Ti os Teus inimigos, tomo-Te em meus braços, para Te aliviar e beijar a Tua testa.

Meu doce Amor, vejo que não Te deixam em paz e Herodes envia-Te a Pilatos. Se a vinda foi dolorosa, a volta será mais trágica; os judeus estão mais irados que antes e decididos a fazer com que morras, custe o que custar.

Por isso, antes que saias do palácio de Herodes, quero beijar-Te para confirmar o meu amor no meio de tantas dores; e Tu, fortalece-me com o Teu beijo e a Tua bênção, para que eu possa Te acompanhar até Pilatos.

 

 

Reflexões e práticas

 

Apresentado a Pilatos, no meio de tantos insultos e desprezos, Jesus é sempre doce. Não despreza ninguém e, em todos, procura fazer resplandecer a luz da verdade. E nós, sentimo-nos iguais a todos? Procuramos vencer a nossa natureza má, se alguém não nos é simpático? Tratando com as criaturas, procuramos sempre dar a conhecer Jesus e fazer resplandecer nelas a luz da verdade?

Ó Jesus, minha doce Vida, coloca em meus lábios a Tua palavra e faz com que eu fale sempre com a Tua língua.

Diante de Herodes, vestido como um louco, Jesus silencia e padece sofrimentos inauditos; e nós, quando somos caluniados, escarnecidos, insultados e zombados, pensamos que o Senhor quer nos dar uma semelhança divina? Nas nossas dores, nos desprezos e em tudo o que o nosso pobre coração puder sentir, pensamos que é Jesus que, com o Seu toque, nos faz sofrer e nos transforma n’Ele mesmo e nos dá a Sua semelhança? E quando o sofrimento volta a nos atingir, pensamos que Jesus, olhando de novo para nós, não está contente conosco e, portanto, nos faz passar por outra provação para que nos assemelhemos totalmente a Ele? A exemplo de Jesus, podemos dizer que temos o domínio sobre nós mesmos? Que em vez de responder nas contrariedades, preferimos nos calar? Nunca nos deixamos vencer pelas curiosidades? Em cada dor que se pode padecer, é preciso colocar a intenção de que ela é uma vida que se entrega a Jesus, para pedir almas; e colocando as almas na Vontade de Deus, o nosso sofrimento faz um círculo no qual encerramos Deus e as almas para uni-las a Jesus.

Meu Amor e meu Tudo, somente Tu tomas o domínio deste meu coração e o conservas em Tuas mãos, a fim de que, nos meus encontros, possa reproduzir em mim a Tua grande paciência.

 

 

 

Décima sexta Hora – Das 8 às 9 da manhã

Jesus é levado a Pilatos e é preterido a Barrabás. Jesus é flagelado

 

Meu Jesus atormentado, meu pobre coração Te segue no meio de ansiedades e dores. Ao ver-Te revestido de louco, sabendo quem és, Sabedoria infinita que dás sentido a todos, entro em delírio e digo: “Como? Jesus louco? Jesus malfeitor?”. E, como se isto não fosse suficiente, agora serás preterido ao maior malfeitor, a Barrabás!

Meu Jesus, Santidade sem igual, já estás de novo diante de Pilatos. Ele, ao ver-Te tão maltratado,  vestido como um louco, e ao ver que sequer Herodes Te condenou, fica mais indignado contra os judeus; convence-se ainda mais da Tua inocência e, por isso, não Te quer condenar. Mas, desejando também dar alguma satisfação aos judeus, como que para abafar o ódio, o furor, a raiva e a sede ardente que têm do Teu sangue, apresenta-Te ao lado de Barrabás e pede aos judeus que escolham; mas estes gritam: “Não queremos que liberte Jesus, mas Barrabás!”

Então Pilatos, não sabendo o que fazer para acalmá-los, condena-Te à flagelação.

Meu Jesus desprezado, meu coração dilacera-se ao ver que, enquanto os judeus se empenham em causar a Tua morte, Tu, ao contrário, recolhido em Ti mesmo, pensas em dar a vida a todos. Pondo-me à escuta, ouço-Te dizer:

“Pai Santo, olha para Teu Filho vestido como um louco: isto repare a loucura de tantas criaturas que caíram no pecado. Esta veste branca, esteja diante de Ti como perdão pelas inúmeras almas que se cobrem com a escura veste da culpa. Vês, ó Pai, o ódio, o furor e a raiva que têm contra Mim, quase lhes faz perder a luz da razão, pela sede do Meu sangue! Quero reparar-Te todos os ódios, vinganças, iras e homicídios, e implorar para todos a luz da razão.

Olha ainda para Mim, Meu Pai: é possível fazer um insulto maior? Colocaram-Me à escolha com o maior malfeitor; e Eu quero reparar-Te todas as escolhas que são feitas. Ah, o mundo inteiro está cheio de escolhas! Há quem escolha entre Nós e um vil interesse, as honras, as vaidades, os prazeres, os apegos, os cargos, as devassidões e até mesmo o pecado. Todas as criaturas, sem exceção, nos preterem mesmo diante de migalhas; estou pronto a aceitar que me troquem por Barrabás, para reparar os desprezos que as criaturas nos fazem.”

Meu Jesus, sinto que estou morrendo de dor e de confusão ao ver o Teu grande amor no meio de tantas dores e o heroísmo das Tuas virtudes entre os inúmeros sofrimentos e insultos. Tuas palavras e reparações se repercutem no meu pobre coração como muitas feridas e, no meu tormento, repito as Tuas orações e reparações. Não quero, nem um instante sequer, separar-me de Ti; se não me passarão despercebidas muitas coisas daquilo que fazes. Pois bem, o que vejo? Que os soldados conduzem-Te à uma coluna para Te flagelar. Meu Amor, sigo-Te; e Tu me fixas com o Teu olhar de amor e me dás força para assistir ao Teu doloroso massacre.

Jesus é flagelado

 

Meu puríssimo Jesus, já Te encontras próximo da coluna. Irados, os soldados desatam-Te para Te amarrarem a ela; mas não basta. Despojam-Te das Tuas vestes para proceder a uma cruel carnificina do Teu santíssimo Corpo. Meu Amor, minha Vida, sinto que estou para desmaiar pela dor de Te ver despido. Tremes da cabeça aos pés, e o Teu santíssimo rosto tinge-se de rubor virginal. São tão fortes a Tua confusão e a Tua fraqueza que, não aguentando estar em pé, estás para cair por terra. Mas os soldados Te amparam, não para Te ajudar, mas para poderem amarrar-Te melhor.

Pegam as cordas e Te amarram os braços, de tal forma apertados, que depressa se incham e o sangue jorra da ponta de Teus dedos. Depois, pelo elo da coluna, passam as cordas e correntes ao redor da Tua santíssima Pessoa, até os pés. Atam-Te com tanta força à coluna, que não consegues fazer um movimento sequer; assim podem enfurecer-se livremente sobre Ti.

Meu Jesus despojado, permite-me desabafar, de outra forma não posso mais continuar a ver-Te sofrer tanto. Como podes estar despojado? Tu, que revestes todas as coisas criadas: o Sol de luz, o céu de estrelas, as plantas de folhas, os pássaros de penas! Que ousadia! Mas o meu amado Jesus, com a luz que reflete de Seu olhar, diz-me:

“Cala-te, ó filho; era necessário que Eu fosse despojado para reparar por tantos que se despojam de todo o pudor, da candura e da inocência, que se despem de todo o bem, de toda a virtude e da Minha Graça, e se revestem de toda brutalidade, vivendo à maneira dos malfeitores. No Meu rubor virginal quis reparar tantas desonestidades, frouxidões e prazeres brutais. Por isso, presta atenção àquilo que faço, reparas Comigo e sossega.”

Jesus flagelado, o Teu amor passa de um excesso a outro. Vejo que os algozes tomam as cordas e com elas batem em Ti sem piedade, a ponto de o Teu santíssimo Corpo ficar todo roxo. São tão intensos a ferocidade e o furor com que Te golpeiam, que já estão cansados; mas outros dois os substituem, tomam varas espinhosas e batem tanto em Ti que, imediatamente, começa a escorrer um rio de sangue do Teu santíssimo Corpo. Depois, batem-Te por todo o lado, formando sulcos, e enchem-no de chagas. Mas não basta! Mais dois tomam o lugar dos outros e, com correntes de ferro ganchadas, continuam o doloroso massacre. Aos primeiros golpes, a carne escura e ferida dilacera-se ainda mais e fragmentos dela caem no chão, deixando os ossos descobertos e o sangue que escorre a ponto de se formar quase que um lago vermelho ao redor da coluna.

Jesus, meu Amor despido, enquanto Te encontras debaixo desta tempestade de golpes, abraço os Teus pés para poder participar das Tuas penas e ficar coberto com o Seu preciosíssimo sangue. Mas cada golpe que recebes é uma ferida no meu coração, muito mais porque, pondo-me à escuta, ouço os Teus gemidos, ainda que não sejam perceptíveis, porque a tempestade de pancadas ensurdece a atmosfera ao redor. Naqueles gemidos, Tu dizes:

“Todos vós que Me amais, vinde aprender o heroísmo do verdadeiro amor! Vinde saciar, no Meu sangue, a sede das vossas paixões, a sede de tantas ambições, de tantas vaidades e prazeres, de tantas sensualidades! Neste Meu sangue encontrareis o remédio para todos os vossos males!”

Os Teus gemidos continuam a dizer: “Olha para Mim, ó Pai, totalmente ferido sob esta tempestade de pancadas; mas não basta, pois quero formar muitas chagas no Meu Corpo, para reservar para todas as almas, espaços suficientes no Céu da Minha Humanidade, de modo a formar, em Mim mesmo, a sua salvação, e depois fazê-las passar ao Céu da Divindade. Meu Pai, cada golpe destes açoites repare diante de Ti todas as espécies de pecado, um por um, e assim como me atingem, desculpem aqueles que os praticam. Estes golpes atinjam os corações das criaturas e lhes falem do Meu amor, a tal ponto que as forcem a render-se a Mim.”

E enquanto dizes isto, o Teu amor é tão grande, embora com grande dor, que quase provocas os algozes a baterem mais em Ti. Meu Jesus descarnado, o Teu amor esmaga-me e sinto que estou enlouquecendo. O Teu amor não se cansa, enquanto, ao contrário, os algozes estão exaustos e sem força, e não podem mais continuar o doloroso massacre.

Cortam as Tuas cordas e Tu cais, quase morto, no Teu próprio sangue; e ao veres no solo os fragmentos da Tua carne, sentes que estás morrendo de dor, enquanto vês naqueles fragmentos de carne, separados de Ti, as almas condenadas. A Tua dor é tanta que Tu agonizas no Teu próprio sangue.

Meu Jesus, deixa que Te tome nos meus braços para Te refazer um pouco com o meu coração. Beijo-Te e, com o meu beijo, recolho em Ti todas as almas, de tal forma que nenhuma delas se perderá. E Tu, abençoa-me!

 

Reflexões e práticas

 

Das 8 às 9 horas Jesus é despojado e submetido a cruéis maus tratos. E nós, estamos despojados de tudo? Jesus está amarrado à coluna; e nós, deixamo-nos atar por Seu amor? Jesus é atado à coluna, enquanto nós, com nossos pecados e apegos, às vezes também a coisas indiferentes, ou boas em si mesmas, acrescentamos as nossas cordas, como se não bastassem as cordas com que os judeus O amarraram. Entretanto, com o Seu olhar piedoso, Jesus nos chama a desatá-lo. Não vemos em Seu olhar também uma repreensão dirigida a nós, porque, também nós, contribuímos para amarrá-Lo? Para aliviar o aflito Jesus, antes, devemos tirar nossas correntes para, então, podermos eliminar as correntes das outras criaturas. Estas nossas pequenas correntes, muitas vezes, são apenas pequenos apegos à nossa vontade, ao nosso amor próprio um pouco ressentido, às nossas míseras vaidades que, formando uma série de nós, atam dolorosamente o amável Jesus.

Além disso, Jesus, às vezes possuído pelo amor à nossa pobre alma, quer tirar-nos estas correntes para que não se repita, em nós, o doloroso ligame. Quando nos lamentamos porque não queremos estar amarrados a Jesus, nós O forçamos, quase amargurado, a afastar-se de nós.

Enquanto sofre, o nosso Jesus dilacerado repara todos os pecados contra a modéstia. E nós, somos puros na mente, no olhar, nas palavras, nos afetos, de modo a não acrescentar outros golpes ao Seu Corpo inocente? Encontramo-nos sempre vinculados a Jesus, de maneira a estarmos prontos a defendê-Lo quando as criaturas O ferem com suas ofensas?

Meu Jesus acorrentado, as Tuas cadeias sejam as minhas, de tal forma que eu Te sinta sempre em mim, e Tu me sintas sempre em Ti.

 

 

 

Décima sétima Hora – Das 9 às 10 da manhã

Jesus é coroado de espinhos.

 “Eis o Homem!” –  Jesus é condenado à morte

 

Meu Jesus, amor infinito, quanto mais Te observo, mais compreendo quanto sofres. Já estás totalmente dilacerado e, em Ti, não há nenhuma parte sem feridas. Os algozes ficam enfurecidos ao verem que, em meio a tantas dores, Tu olhas para eles com amor. Teu olhar amoroso, formando como que um doce encanto, como se fossem vozes, reza e suplica mais e novas dores e, embora sejam desumanos, os algozes, forçados por Teu amor, colocam-Te de pé. Não aguentando, Tu cais de novo no Teu próprio sangue. Irritados, com chutes e empurrões, fazem-Te chegar ao lugar onde Te coroarão de espinhos.

Meu Amor, se Tu não me apoiares com o Teu olhar de amor, não poderei continuar a ver-Te sofrer. Já sinto um calafrio nos ossos, o meu coração pulsa e tenho a impressão de morrer: “Jesus, Jesus, ajuda-me!”

E o meu amável Jesus me diz: “Meu filho, ânimo, não percas nada daquilo que sofro; presta atenção aos Meus ensinamentos. Devo recriar o homem completamente. A culpa tirou-lhe a coroa e coroou-o de opróbrios e de confusão, de tal forma que não pode comparecer perante Minha Majestade; a culpa desonrou-o, fazendo-lhe perder qualquer direito às honras e à glória. Por isso, quero ser coroado de espinhos para colocar na cabeça do homem a coroa e devolver-lhe todos os direitos a qualquer honra e glória. Diante do Meu Pai, os Meus espinhos serão reparações e vozes de desculpas por tantos pecados de pensamento, especialmente de soberba. E, para cada mente criada, serão vozes de luz e de súplica, para que não Me ofendam. Portanto, une-Te a Mim, reza e repara Comigo.”

Jesus coroado, os Teus cruéis inimigos fazem-Te sentar, cobrem-Te com um pano de púrpura, pegam a coroa de espinhos e, com fúria infernal, colocam-na sobre Tua adorável cabeça. Depois, a golpes de bastão, fazem com que os espinhos penetrem na tua testa; alguns deles chegam aos olhos, às orelhas, ao crânio e até à nuca. Meu Amor, que dilaceração, que dores indescritíveis! Quantas mortes cruéis padeces!

O sangue escorre por Teu rosto, de modo que só se vê sangue; mas debaixo daqueles espinhos e daquele sangue, vê-se o Teu santíssimo rosto, radiante de doçura, de paz e de amor. E os carrascos, desejando concluir a tragédia, vendam os Teus olhos, põem em Tua mão uma vara como cetro e dão início às zombarias. Saúdam-Te como Rei dos judeus, batem na Tua coroa, dão-Te bofetões e dizem-Te: “Adivinha quem Te atingiu?”

E Tu fazes silêncio e reparas a ambição de quem aspira aos reinos, aos cargos, às honras, e daqueles que, encontrando-se em lugares de autoridade e não se comportando bem, levam à ruína os povos e as almas que lhes são confiadas, fazendo de seus maus exemplos, causa de incentivo ao mal e de perda de almas.

Com esta vara que tens na mão, Tu reparas muitas obras boas, mas desprovidas de espírito interior e realizadas com intenções malignas. Nos insultos e nas vendas dos olhos, reparas por aqueles que ridicularizam as coisas mais santas, desacreditando-as e profanando-as, e reparas por aqueles que  vendam os olhos da inteligência para não ver a luz da verdade. Com esta Tua venda, rogas por nós, a fim de que nos sejam tiradas as vendas das paixões, das riquezas e dos prazeres.

Jesus, meu Rei, Teus inimigos continuam seus insultos; o sangue que flui da Tua santíssima cabeça é tanto que, ao chegar à Tua boca, impede-Te de me fazeres ouvir claramente a Tua dulcíssima voz, portanto, não posso fazer o que Tu fazes. Por isso, coloco-me nos Teus braços. Quero sustentar a Tua cabeça trespassada e dolorosa; desejo colocar minha cabeça debaixo desses espinhos para sentir suas pontadas.

Mas, enquanto digo isto, o meu Jesus chama-me com o Seu olhar de amor e, imediatamente, abraço o Seu Coração e procuro sustentar a Sua cabeça. Oh, como é belo estar com Jesus, mesmo no meio de mil tormentos! E Ele me diz: “Meu filho, estes espinhos dizem que quero ser constituído Rei de cada coração; é a Mim que cabem todos os domínios. Toma estes espinhos, punge teu coração e faz sair dele tudo o que não Me pertence. Depois, deixa dentro um espinho, como sinal de que sou o Teu Rei e para impedir que algo mais entre em ti. Em seguida, vai a todos os corações e, pungindo-os, faz sair deles todos os rios de soberba e as podridões neles contidas e constitui-Me Rei de todos.”

Meu Amor, sinto um aperto no meu coração ao deixar-Te; por isso, rogo-Te que faças ensurdecer os meus ouvidos com Teus espinhos, para que eu ouça só a Tua voz; tapa os meus olhos  com os Teus espinhos, para que eu possa olhar só para Ti; enche a minha boca com os Teus espinhos, para que a minha língua permaneça muda a tudo o que possa ofender-Te e seja livre para Te louvar e Te bendizer em tudo. Ó Jesus, meu Rei, rodeia-me de espinhos a fim de que me guardem, me defendam e concentrem a minha atenção totalmente em Ti. E agora, quero enxugar o Teu sangue e beijar-Te, porque vejo que Teus inimigos Te conduzem a Pilatos, que Te condenará à morte. Meu Amor, ajuda-me a continuar a Tua via dolorosa e abençoa-me.

 

Jesus de novo diante de Pilatos, que O mostra ao povo.

 

Meu coroado Jesus, o meu pobre coração, ferido por Teu amor e trespassado por Tuas dores, não pode viver sem Ti. Por isso, procuro-Te e encontro-Te de novo diante de Pilatos.

Mas que cena comovente! O Céu horroriza-se e o Inferno treme de medo e de raiva! Vida do meu coração, o meu olhar não pode aguentar olhar para Ti sem sentir que estás morrendo; mas a força arrebatadora do Teu amor me obriga a olhar para Ti para fazer com que eu compreenda bem as Tuas dores; e, entre lágrimas e suspiros, contemplo-Te.

Meu Jesus, estás quase nu e, em vez de vestes, vejo-Te envolvido com uma roupa de sangue. Tua carne dilacerada, os ossos despidos e o Teu santíssimo rosto irreconhecível. Os espinhos, enfiados na Tua santíssima cabeça, chegam aos Teus olhos e ao rosto; só vejo o sangue que, escorrendo até ao chão, forma um rio atrás das Tuas pegadas.

Meu Jesus, estás em tão mal estado que não Te reconheço mais! O Teu aspecto chegou aos excessos mais profundos das humilhações e dos espasmos! Ah, já não posso aguentar uma visão tão dolorosa assim. Sinto que estou para morrer! Gostaria de arrancar-Te da presença de Pilatos para Te encerrar em meu coração e Te dar descanso. Gostaria de curar Tuas feridas com o meu amor e, com Teu sangue, alagar o mundo inteiro para encerrar nele todas as almas e conduzi-las a Ti como conquista das Tuas dores!

E Tu, ó paciente Jesus, mal consegues fixar-me através dos espinhos, e diz-me: “Meu filho, vem lançar-te nestes Meus braços atados, apoia a tua cabeça no Meu peito e verás dores mais intensas e amargas, porque o que vês fora da Minha Humanidade não é senão o resultado dos Meus sofrimentos interiores. Presta atenção às palpitações do Meu Coração e sentirás que reparo as injustiças de quem governa, as opressões dos pobres, dos inocentes desprezados pelos reis, a soberba de quem, para manter as dignidades, as posições e as riquezas, não se preocupam em desrespeitar qualquer lei e fazer mal ao próximo, fechando os olhos à luz da verdade. Com estes espinhos, quero despedaçar o espírito de soberba dos seus governos e, com as flores que formam na Minha cabeça, quero tornar-Me um caminho nas suas mentes, para reordenar nelas todas as coisas, em conformidade com a luz da verdade. Com tamanha humilhação perante este juiz injusto, quero fazer com que todos compreendam que a única virtude é a que constitui o homem rei de si mesmo. Ensino a quem governa que só a virtude, vinculada ao reto saber, é digna e capaz de governar e de orientar os outros: enquanto todas as outras dignidades, sem a virtude, são coisas perigosas e devem ser deploradas. Meu filho, faz eco às Minhas reparações e continua a contemplar as Minhas dores.”

Meu amor, vejo que Pilatos, ao notar que Te encontras em tão mal estado, sente um calafrio e, totalmente impressionado, exclama: “É possível tanta crueldade em corações humanos? Ah, não era essa a minha vontade ao condená-Lo à flagelação!”. E, querendo libertar-Te das mãos dos Teus inimigos para poder encontrar motivos mais convenientes, totalmente abatido e afastando o seu olhar, por não suportar uma visão tão dolorosa, volta a interrogar-Te: “Mas diz-me, que fizeste? O Teu povo entregou-Te a mim, mas diz-me, Tu és rei? Qual é o Teu reino?”

Às perguntas tempestuosas de Pilatos, Tu, ó meu Jesus, não respondes e, recolhido em Ti mesmo, pensas em salvar a minha pobre alma à custa de tantos sofrimentos!

E dado que não respondes, Pilatos acrescenta: “Não sabes que tenho o poder de Te libertar ou de Te condenar?”. Mas Tu, ó meu Amor, desejando fazer resplandecer na mente de Pilatos  a luz da Verdade, respondes: “Não terias qualquer poder sobre Mim, se não te fosse dado do alto; porém, aqueles que Me entregaram nas tuas mãos cometeram um pecado mais grave do que o teu”. Então Pilatos, como que comovido pela docilidade da Tua voz, indeciso e com o coração agitado, julgando que os corações dos judeus fossem mais piedosos, decide mostrar-Te da varanda, esperando que se comovessem e tivessem compaixão ao ver-Te maltratado, e assim poder libertar-Te.

Jesus sofredor, meu coração desfalece ao ver-Te seguir Pilatos; caminhas com dificuldade, curvado sob aquela horrível coroa de espinhos, enquanto Teu sangue marca os Teus passos.  Assim que vais para fora, ouves a multidão tumultuosa que, ansiosa, espera a Tua condenação. Impondo silêncio para chamar a atenção de todos e ser ouvido por todos, Pilatos toma, com repugnância, a orla da púrpura que cobre o Teu dorso e os ombros, levanta-a para fazer com que todos vejam em que estado Te encontras e em voz alta diz: “Ecce Homo! Olhai-O; não tem mais um semblante de homem. Observai Suas chagas; Ele já não é reconhecível. Se cometeu algum mal, já sofreu bastante, aliás, demasiado. Eu me arrependi de ter permitido que O fizessem sofrer tanto assim; por isso, vamos libertá-Lo.”

Jesus, meu Amor, deixe que Te sustente, porque vejo que vacilas, não aguentando estar de pé, sob o peso de tantas dores. Ah, neste momento solene decide-se a Tua sorte: quando Pilatos pronuncia essas palavras, reina um profundo silêncio no Céu, na terra e no Inferno! E depois, como em uníssono, ouço o grito de todos: “Crucifica-O, crucifica-O! Custe o que custar, queremos a Sua morte!”

Jesus, Minha vida, vejo que tremes. O brado de morte desce ao Teu Coração e, nestas vozes, identificas a voz do Teu dileto Pai, que diz: “Meu Filho, quero que morras e sejas crucificado!”. Ah, ouves também a Tua Mãe que, embora seja trespassada e se sinta desolada, faz eco ao Teu amado Pai: “Filho, quero que morras!”. Os Anjos, os Santos e o Inferno, todos gritam a uma só voz: “Crucifica-O, crucifica-O!”. Assim, não há sequer uma alma que Te queira vivo. Mas, ai de mim! Para o meu grande rubor, sofrimento e arrepio, também eu me sinto obrigado por uma força suprema a bradar: “Crucifica-O!”

Meu Jesus, perdoa-me se também eu, miserável alma pecadora, Te quero ver morto! Porém, rogo-Te que me faças morrer Contigo.

Entretanto parece que Tu, ó meu dilacerado Jesus, impelido pela minha dor, me dizes: “Meu filho, estreita-te ao Meu Coração e participa nas Minhas dores e reparações. O momento é solene: deve decidir-se a Minha morte ou a morte de todas as criaturas. Neste momento, duas correntes fluem no Meu Coração; numa delas estão as almas que, se Me querem ver morto, é porque querem encontrar em Mim a vida; e assim Eu, aceitando a morte por elas, estas são libertas da condenação eterna, e as portas do Céu abrem-se para recebê-las. Na outra corrente, estão as almas que Me querem ver morto por ódio e por confirmação da sua condenação; Meu Coração é dilacerado e sente a morte de cada uma delas e as próprias dores do Inferno! Ah, o Meu Coração não aguenta estas dores atrozes; sinto a morte a cada palpitação, a cada respiro, e continuo a repetir: ‘Por que tanto sangue será derramado em vão? Por que Meus sofrimentos serão inúteis para tantos?’. Ah, filho, apoia-Me porque não aguento mais; toma parte nos Meus sofrimentos, a Tua vida seja uma oferenda permanente para salvar as almas, para curar chagas tão dolorosas!”

Jesus, meu Coração, as Tuas dores são as minhas e faço eco às Tuas reparações. Mas vejo que Pilatos fica atordoado e apressa-se a dizer: “Como, devo crucificar o vosso Rei? Não encontro n’Ele culpa alguma para condená-Lo”. E os judeus gritam, ensurdecendo o ar: “Não temos outro rei, senão César. Se tu não O condenares, não és amigo de César; crucifica-O, crucifica-O!”

Não sabendo mais o que fazer e com medo de ser deposto, Pilatos pede que lhe tragam uma bacia de água e, lavando as mãos, diz: “Sou inocente do sangue deste justo”. E Te condena à morte. Mas os judeus gritam: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!”. E, ao ver-Te condenado, fazem festa, batem palmas, assobiam e gritam. E Tu, ó Jesus, reparas por aqueles que, ocupando cargos importantes,  por vão temor e para não perder o lugar, desrespeitam as leis mais sagradas, descuidando da ruína de povos inteiros, favorecendo os ímpios e condenando os inocentes. Reparas, também, por aqueles que, depois da culpa, instigam a ira divina a puni-los. Mas enquanto reparas, Teu Coração sangra pela dor ao ver o povo por Ti eleito, fulminado pela maldição do Céu, que eles mesmos quiseram com plena vontade, selando-a com Teu sangue que invocaram! Ah, o Teu Coração desfalece! Permite-me amparar-Te em minhas mãos, fazendo minhas as Tuas reparações e penas. Mas o Teu amor impele-Te mais alto e, impaciente, já buscas a cruz!

Minha Vida, eu Te seguirei, mas, por um momento, descansa em meus braços. Depois, chegaremos juntos ao monte Calvário. Permanece em mim e abençoa-me.

 

Reflexões e práticas

 

Das 9 às 10 horas, Jesus, coroado de espinhos, é tratado como rei de pirraças e submetido a insultos e sofrimentos inigualáveis; repara, de maneira especial, os pecados da soberba. E nós, evitamos os sentimentos de orgulho? Atribuímos a Deus o bem que fazemos? Consideramo-nos inferiores aos outros? A nossa mente está sempre vazia de outros pensamentos, para poder dar lugar à graça?

Muitas vezes não damos lugar à graça porque conservamos a mente repleta de outros pensamentos; então, uma vez que a nossa mente não está toda repleta de Deus, nós mesmos somos a causa das moléstias do demônio e, praticamente nós mesmos, fomentamos as tentações. Sendo assim, quando a nossa mente está repleta de Deus, o demônio aproxima-se de nós e, não encontrando um lugar para onde orientar as suas tentações, confuso, afasta-se. Os pensamentos santos possuem uma força tão intensa contra o demônio que, enquanto ele está prestes a aproximar-se, estes ferem-no e afastam-no, como se fossem muitas espadas.

Portanto, lamentamo-nos injustamente quando a nossa mente é molestada e tentada pelo inimigo; é a nossa pouca vigilância que suscita o ataque do inimigo, que está como que espiando a nossa mente para poder encontrar os pequenos espaços vazios onde assaltar. Então, em vez de aliviar Jesus com os nossos pensamentos santos e tirar-Lhe os espinhos, os calcamos em Sua cabeça, fazendo-Lhe sentir, com mais força, as suas picadas; assim, a graça fica frustrada e não pode desempenhar em nossa mente o trabalho das santas inspirações.

Muitas vezes reagimos ainda pior: enquanto sentimos o peso das tentações, em vez de levá-las a Jesus, fazendo delas um feixe para queimá-las com o fogo do Seu amor, inquietamo-nos, entristecemo-nos e fazemos cálculos sobre as próprias tentações, de tal maneira que não só a nossa mente permanece ocupada pelos pensamentos malignos, mas também todo o nosso pobre ser fica impregnado deles; assim, seria necessário quase um milagre de Jesus para nos libertar deles. E, através dos espinhos, Jesus olha para nós e, chamando-nos,  parece dizer: “Ah, Meu filho, és tu mesmo que não desejas estar perto de Mim; se tu tivesses vindo imediatamente a Mim, eu Te teria ajudado a Te libertares das moléstias que o inimigo inseriu em tua mente, e não Me terias feito suspirar tanto pelo seu retorno. Procurei tua ajuda para Me libertar dos espinhos tão pungentes, mas esperei em vão, porque estavas ocupado com o trabalho que teu inimigo te havia dado. Oh, serias muito menos tentado se viesses depressa aos Meus braços! O inimigo te teria deixado imediatamente, temendo não a ti, mas a Mim.”

Meu Jesus, os Teus espinhos selem os meus pensamentos na Tua mente e impeçam ao inimigo qualquer tipo de tentação.

Quando Jesus se manifesta em nossa mente e em nosso coração, correspondemos às Suas inspirações ou as colocamos no esquecimento? Jesus é tratado como rei das zombarias; e nós, respeitamos todas as coisas santas? Usamos toda aquela reverência conveniente, como se tocássemos o próprio Jesus Cristo?

Meu coroado Jesus, faz com que eu sinta os Teus espinhos, a fim de que suas picadas me façam  compreender quanto sofres e Te constitua Rei de todo o meu ser.

Exposto na varanda, Jesus é condenado à morte por aquele povo que tanto amou e para o qual havia feito tanto bem.

Para nos dar a vida, o amável Jesus aceita a morte por nós. E nós, estamos prontos a aceitar qualquer sofrimento para que Jesus não seja ofendido e não sofra? A nossa pena deve ser aceita para fazer com que Jesus não sofra; como Jesus sofreu infinitamente na Sua Humanidade, nós, devendo continuar a Sua vida na terra, devemos retribuir com as nossas dores, as penas da Humanidade de Jesus Cristo.

Como nos compadecemos das dores que Jesus sofre ao ver as inúmeras almas arrancadas do Seu Coração? Fazemos nossas as Suas dores para aliviá-Lo de tudo o que Ele sofre? Os judeus querem crucificá-Lo para fazer com que morra como um infame e o Seu Nome seja cancelado da face da Terra. E nós, procuramos fazer com que Jesus viva na Terra? Com os nossos atos, com os nossos exemplos e com os nossos passos devemos deixar uma marca divina no mundo para fazer com que Jesus seja conhecido por todos e, com a nossa obra, a Sua Vida tenha um eco divino que se ouça de um extremo a outro do mundo. Estamos prontos a dar a nossa vida para fazer com que o amado Jesus seja aliviado de todas as ofensas, ou  imitamos os judeus, povo muito favorecido, como que à semelhança da nossa pobre alma, tanto amada por Jesus, e gritamos como eles: “Crucifigatur”, seja crucificado?

Meu Jesus condenado, a Tua condenação seja a minha; eu a aceito por Teu amor. E para Te consolar, irei continuamente a Ti, para levar-Te aos corações de todas as criaturas, fazer com sejas conhecido por todos e dar a Tua vida a todos.

 

 

 

Décima oitava Hora – Das 10 às 11 da manhã

Jesus toma a Cruz e dirige-se rumo ao Calvário, onde é despojado

 

Meu Jesus, Amor insaciável, vejo que não tens paz. Sinto Tua ânsia de amor e as Tuas dores; o Teu Coração pulsa com força e, a cada palpitação, ouço estalos e sinto tormentos e violências de amor. E Tu, não podendo conter o fogo que te devora, angustia-Te, suspiras, gemes e, a cada gemido, ouço-Te dizer: “Cruz!”. Cada gota do Teu sangue repete: “Cruz! ”. Todas as Tuas dores nas quais Tu nadas, como em um mar interminável, repetem: “Cruz!” E Tu exclamas: Ó cruz dileta e desejada, só tu salvarás Meus filhos. Concentro em ti todo o Meu amor!”

 

Segunda coroação de espinhos

 

Os Teus inimigos levam-Te de novo para dentro do Pretório, tiram-Te a púrpura e querem cobrir-Te com Tuas vestes. Ah, mas quanta dor! Seria mais fácil para mim morrer que ver-Te sofrer tanto assim! A veste cola-se à coroa e eles não podem levantá-la; assim, com imensa crueldade, tiram-Te a veste e a coroa ao mesmo tempo. No puxão cruel, muitos espinhos se quebram e permanecem fincados em Tua santíssima cabeça; Teu sangue brota como um rio e a Tua dor é tanta que gemes. Mas desconsiderando os Teus padecimentos, os Teus inimigos recobrem-Te com a veste e voltam a coroar-Te. E, apertando com força sobre Tua cabeça, os espinhos chegam aos olhos e aos ouvidos; assim, não há parte da Tua santíssima cabeça que não sinta as picadas. A Tua dor é tanta que vacilas sob aquelas mãos cruéis; tremes da cabeça aos pés e, entre espasmos atrozes, estás prestes a morrer. Com os olhos apagados e repletos de sangue, Tu me olhas, com dificuldade, para me pedires ajuda no meio de tanta dor!

Meu Jesus, Rei das dores, deixa-me amparar-Te e Te estreitar ao meu coração. Gostaria de pegar no fogo que Te consome, para reduzir a cinzas Teus inimigos e salvar-Te. Mas não queres porque as ansiedades da cruz se tornam mais ardentes, e desejas ser imolado depressa sobre ela, inclusive, em favor de Teus próprios inimigos! Mas, enquanto Te aperto ao meu coração, Tu, estreitando-me ao Teu, dizes-me: “Meu filho, faz-me derramar o Meu amor e repara Comigo por aqueles que fazem o bem, mas Me desonram. Estes judeus cobrem-Me com Minhas vestes para Me desacreditarem ainda mais perante o povo, para convencê-lo de que sou um malfeitor. Aparentemente, a ação de Me vestirem é boa, mas em si mesma, é perversa. Ah, quantas pessoas fazem boas obras, administram Sacramentos e os recebem com finalidades humanas e até mesmo perversas! O bem, realizado com maldade, leva à insensibilidade. Quero ser coroado pela segunda vez, com dores mais atrozes que a primeira, para despedaçar esta insensibilidade e, assim, com os Meus espinhos, atraí-los a Mim. Ah, Meu filho, esta segunda coroação é muito mais dolorosa para Mim; sinto como se a Minha cabeça flutuasse entre os espinhos e, a cada movimento que faço ou empurrão que Me dão, padeço muitas mortes cruéis. Assim, reparo a malícia das ofensas, reparo por aqueles que, em qualquer estado de ânimo que se encontrem, em vez de pensar em sua própria santificação, distraem-se, rejeitam a Minha Graça, voltando a dar-Me espinhos pontiagudos; entretanto, sou obrigado a gemer, a chorar com lágrimas de sangue e a suspirar a sua salvação.

Ah, faço de tudo para amá-las, e as criaturas fazem de tudo para Me ofender! Pelo menos, tu não me deixarás sozinho nas Minhas dores e nas Minhas reparações.”

 

Jesus abraça a Cruz

 

Meu martirizado bem, Contigo reparo e sofro; mas vejo que os Teus inimigos fazem com que caias das escadas, enquanto o povo Te espera com furor e ânsia. Fazem-Te chegar à cruz já preparada que, com tantos suspiros, Tu procuras. Olhas para ela com amor enquanto, com passo firme, Tu Te aproximas para abraçá-la; mas antes, Tu lhe dás um beijo e, enquanto um arrepio de alegria percorre a Tua santíssima Humanidade, com grande júbilo voltas a olhá-la, medindo o seu comprimento e largura. Nela já defines uma medida para todas as criaturas; e lhes dás uma medida suficiente para vinculá-las à Divindade com um laço esponsal e torná-las herdeiras do Reino dos Céus. Em seguida, não conseguindo conter o amor com que as amas, voltas a beijar a cruz e lhe diz: “Adorada cruz, finalmente te abraço; eras tu o suspiro do Meu Coração, o martírio do Meu amor. Mas tu, ó cruz, esperaste até agora, enquanto os Meus passos se dirigiam sempre rumo a ti. Cruz Santa, Tu eras a meta das Minhas aspirações, a finalidade da Minha existência aqui na terra. Em ti concentro todo o Meu ser, em ti ponho todos os Meus filhos e tu serás a sua vida, a sua luz, a defesa, guarda e fortaleza. Tu os ajudarás em tudo e, gloriosos, os conduzirá ao Céu, a Mim. Ó cruz, Cátedra de sabedoria, somente tu ensinarás a verdadeira santidade, só tu formarás os heróis, os atletas, os mártires e os santos. Bela cruz, tu és Meu Trono e, como devo partir da Terra, tu ficarás no Meu lugar. Eu te dou, como dote, todas as almas; guarda-as, salva-as. Eu as confio a ti!”

Assim dizendo, ansioso, fazes com que a coloquem sobre os Teus santíssimos ombros. Ah, meu Jesus, para o Teu amor, a cruz é demasiado leve, mas ao seu peso une-se o das nossas culpas enormes e tão imensas quanto o firmamento. Ó meu atormentado Bem, Tu Te sentes esmagado sob o peso de tantas culpas; a Tua alma horroriza-se à vista delas e sente a dor de cada uma; Tua santidade fica perturbada diante de tanta baixeza e, por isso, tomando a cruz aos ombros, Tu Te inquietas, vacilas, e de Tua santíssima Humanidade desce um suor mortal. Por favor, meu Amor, não tenho paz na alma ao deixar-Te sozinho, quero partilhar Contigo o peso da cruz e, para Te aliviar do peso das culpas, abraço-me aos Teus pés; em nome de todas as criaturas, quero Te dar amor por quem não Te ama, louvores por quem Te despreza, bênçãos, ação de graças e obediência por todos.

Prometo-Te, em qualquer ofensa que receberes, oferecer-Te todo o meu ser como reparação, realizar o ato oposto às ofensas que as criaturas Te fazem e consolar-Te com meus beijos e contínuos atos de amor. Mas vejo que sou demasiado miserável e tenho necessidade de Ti para poder reparar-Te verdadeiramente. Por isso, uno-me à Tua santíssima Humanidade. Uno os meus pensamentos aos Teus para reparar os pensamentos negativos, meus e de todos; os meus olhos aos Teus, para reparar os olhares malvados; a minha boca à Tua, para reparar as blasfêmias e os pronunciamentos malignos; o meu coração ao Teu, para reparar as tendências, os desejos e os afetos nocivos. Enfim, quero reparar tudo o que a Tua santíssima Humanidade repara, unindo-me à imensidão do Teu amor por todos e ao imenso bem que fazes a todos.

Mas ainda não estou satisfeito; quero unir-me à Tua Divindade e n’Ela fazer desaparecer este meu nada, e assim dar-Te o tudo. Dou-Te o Teu amor para restabelecer as Tuas amarguras; dou-Te o Teu Coração para revigorar-Te de nossa insensibilidade, pela falta de correspondência, por nossa  ingratidão e pela falta de amor das  criaturas. Dou-Te as Tuas harmonias para aliviar o Teu ouvido dos ensurdecimentos que recebes com as blasfêmias. Dou-Te a Tua beleza para Te refazer da feiura de nossas almas, quando nos manchamos no pecado. Dou-Te a Tua pureza, para Te refazer da falta de retidão de intenções e da mácula e da podridão que vês em muitas almas. Dou-Te a Tua imensidade para Te tranquilizar sobre a voluntária penúria em que se situam as nossas almas. Dou-te o Teu ardor para queimares os pecados de todos os corações, para que todos Te amem e ninguém mais Te ofenda. Enfim, eu Te dou tudo o que Tu és para Te dar satisfação infinita, amor eterno, imenso e infinito.

 

A Via Dolorosa rumo ao Calvário

 

Meu pacientíssimo Jesus, vejo que dás os primeiros passos sob o enorme peso da cruz; uno os meus passos aos Teus e quando Tu, debilitado, sangrando e vacilante, estiveres prestes a cair, eu estarei ao Teu lado para Te amparar  e Te emprestar meus ombros para partilhar Contigo o peso da cruz. Não me afastes, mas aceita-me como Teu companheiro fiel. Ó Jesus, olhas para mim e vejo que reparas por aqueles que não carregam com resignação a sua própria cruz, mas ao contrário, irritam-se, suicidam-se e cometem homicídios. Tu imploras para todos amor e resignação à própria cruz. Mas a Tua dor é tanta que Te sentes esmagado sob a Tua cruz. Apenas dás os primeiros passos e logo cais sob seu peso. E, ao caíres, bates nas pedras; os espinhos penetram ainda mais em Tua cabeça, enquanto todas as chagas se tornam mais ásperas e, de novo, fazem jorrar sangue. E, não tendo forças para Te ergueres, Teus inimigos, irritados, procuram levantar-Te  com pontapés e empurrões.

Meu Amor caído, deixe-me Te ajudar a Te levantares. Deixe-me Te abraçar e enxugar o Teu sangue e, Contigo, reparar-Te por aqueles que pecam por ignorância ou fragilidade. Imploro-Te que ajude estas almas.

Jesus, minha Vida, fazendo-Te padecer dores horríveis, Teus inimigos chegaram a pôr-Te de pé e, enquanto caminhas cambaleando, ouço a Tua respiração ofegante; Teu Coração bate com mais força e novas dores O afligem intensamente. Balanças a cabeça para tirar o sangue que Te tapa os olhos e, ansioso, olhas à Tua volta. Ah, meu Jesus, entendi tudo; avistas a Tua Mãe que, como pomba ferida, vai à Tua procura para dizer-Te a última palavra e receber o Teu último olhar. Tu sentes as suas dores; sentes o Coração dilacerado da Mãe dentro do Teu, enternecido e ferido pelo amor da Mãe e pelo Teu. Consegues vê-la avançando por entre a multidão, pois a todo o custo, quer ver-Te, abraçar-Te e Te dar o último adeus. Mas Tu ficas mais aflito ao ver a sua palidez mortal e todas as Tuas dores reproduzidas nela, pela força do amor. Se ela está viva, é por um milagre de Tua Onipotência. Dás passos em direção aos seus e, com muita dificuldade, conseguis uma troca de olhares!

Ó angústia de corações em ambas as partes! Os soldados percebem e, com socos e empurrões, impedem que Mãe e Filho se concedam o último adeus. É tanta a aflição de ambos, que a Tua Mãe permanece petrificada de dor e quase sucumbe. O fiel João e as mulheres piedosas socorrem-na, enquanto Tu cais de novo ao peso da cruz. Então, aquilo que não faz com o corpo, porque é impedida, a Tua Mãe dolorosa o faz com a alma: entra em ti, faz sua a Vontade do Eterno e, associando-se a todas as Tuas dores, faz o seu ofício de Mãe: beija-Te, resgata-Te, cura-Te e, sobre cada uma de Tuas chagas, derrama o bálsamo do seu amor doloroso!

Meu Jesus sofredor, também eu me uno à Tua Mãe trespassada. Faço minhas todas as Tuas dores e, em cada gota de Teu sangue e em cada chaga, quero ser a Tua Mãe. Com ela e Contigo, reparo por aqueles que promovem encontros perigosos e por aqueles que se colocam em ocasiões de pecar, ou são forçados pela necessidade a se expor, permanecendo ligados ao pecado.

Meu Jesus, gemes, sob o peso da cruz. Os soldados temem que Tu morras sob o peso de tantos martírios e em virtude do derramamento de tão grande quantidade de sangue. Por isso, com açoites e pontapés, tratam de levantar-Te novamente. Assim, reparas as repetidas quedas no pecado, os pecados graves cometidos por todas as classes de pessoas; suplicas pelos pecadores obstinados e, com lágrimas de sangue, choras pela sua conversão.

Meu Amor aflito, enquanto Te acompanho nas reparações, vejo que não aguentas o enorme peso da cruz. Já estás tremendo todo. Com os contínuos socos que recebes, os espinhos penetram cada vez mais em Tua santíssima cabeça. De tão pesada, a cruz quase entra nos Teus ombros, formando uma chaga tão profunda que chega a descobrir os ossos. A cada passo que dás, parece que estás para morrer, por isso, és impossibilitado de prosseguir. Mas o Teu amor, que tudo pode, dá-Te  força e, ao sentires que a cruz penetra os Teus ombros, reparas pelos pecados ocultos que, não sendo resgatados, fazem aumentar a crueldade de Teus espasmos. Meu Jesus, deixe-me  colocar os meus ombros sob a cruz para Te aliviar e, Contigo, reparar todos os pecados escondidos.

Teus inimigos, com medo de que Tu morras sob a cruz, obrigam o Cireneu a ajudar-Te e a carregá-la. Ele ajuda-Te, não por amor, mas à força, de má vontade e a resmungar. Então, em Teu Coração, fazem eco todas as lamentações de quem sofre, a falta de resignação, as rebeliões, a ira e o desprezo pelo sofrimento; mas ficas muito mais magoado quando vês que as almas a Ti consagradas, que chamas a acompanhar-Te e a ajudar-Te na Tua dor, fogem de Ti; e, se Tu as unes a Ti pela dor, elas fogem de Teus braços para ir em busca de prazeres, deixando-Te sozinho no sofrimento!

Meu Jesus, enquanto reparo Contigo, rogo-Te que me apertes em Teus braços com tanta força, que não haja dor que Tu sofras de que também eu não participe, para me transformar nelas e para Te consolar pelo abandono de todas as criaturas. Meu Jesus aflito, caminhas com dificuldade e totalmente encurvado. Mas vejo que paras para olhar. Meu Coração, mas o que acontece?  O que queres? Ah, é a Verônica que, não temendo nada, chega corajosamente e enxuga com um pano o Teu rosto todo coberto de sangue. E Tu, em sinal de gratidão, deixas Teu rosto impresso sobre o linho.

Meu generoso Jesus, também eu quero enxugar-Te, não com um pano, mas quero oferecer todo o meu ser para Te aliviar e entrar em Ti e Te dar, ó Jesus, palpitações por palpitações,  respiros por respiros, afetos por afetos, desejos, por desejos. Quero mergulhar na Tua santíssima Inteligência e, fazendo fluir todas estas palpitações, respiros, afetos e desejos na imensidade da Tua Vontade, quero multiplicá-los ao infinito. Ó meu Jesus, desejo formar ondas de palpitações para fazer com que nenhuma palpitação perversa se repercuta no Teu Coração, e assim, cures todas as amarguras interiores. Desejo formar ondas de afetos e de desejos, para afastar  todos os afetos e desejos maus que possam contristar o Teu Coração. Ó Meu Jesus, quero formar ondas de respirações e de pensamentos para afastar qualquer respiro e pensamento que possam minimamente desagradar-Te. Ó meu Jesus, estarei bem vigilante, para que mais nada aflija ou acrescente outras amarguras às Tuas dores internas. Ó meu Jesus, faz com que todo o meu interior mergulhe na imensidade do Teu. Assim, poderei encontrar amor e vontade suficientes para fazer com que no Teu interior, não repercuta nada que Te desagrade.

Ó meu Jesus, para estar mais seguro, rogo-Te que seles os meus pensamentos com os Teus, minha vontade com a Tua, meus desejos com os Teus, meus afetos com os Teus e minhas palpitações com as Tuas, a fim de que, selados, só adquiram vida a partir de Ti. Peço-Te ainda, ó meu Jesus, que aceites o meu pobre corpo; gostaria de despedaçá-lo por amor a Ti e reduzi-lo em minúsculas partículas, para colocá-las sobre cada uma das Tuas feridas. Naquela chaga, ó Jesus, que Te causa dor pelas inúmeras blasfêmias, deposito uma partícula do meu corpo e quero que Te diga sempre: “bendigo-Te”. Naquela ferida que Te provoca tanto sofrimento pelas inúmeras ingratidões, ó Jesus, quero colocar uma porção do meu corpo para atestar-Te a minha gratidão. Naquela chaga, ó Jesus, que tanto Te faz sofrer pela insensibilidade e falta de amor, desejo colocar muitas partículas da minha carne, para que Te digam sempre: “Amo-Te, amo-Te, amo-Te!”. Naquela ferida que Te dá tanta dor pelas muitíssimas irreverências à Tua santíssima Pessoa, quero depositar um pedaço de mim mesmo, que Te diga sempre: “Adoro-Te, adoro-Te, adoro-Te!”. Ó meu Jesus, desejo difundir-me em tudo e, nas chagas mais dolorosas causadas pelo grande número de incredulidades, quero que os pedacinhos do meu corpo Te digam sempre: “Creio, creio em Ti, ó meu Jesus, ó meu Deus, e na Tua Santa Igreja, e desejo dar a minha vida para testemunhar-Te a minha Fé!”

Ó meu Jesus, mergulho na imensidade da Tua Vontade e, fazendo-a minha,  quero suprir por todos, encerrar as almas de todos no poder da Tua santíssima Vontade. Ó Jesus, ainda me resta o meu sangue, o qual quero derramar como bálsamo e calmante em Tuas feridas, para Te aliviar e poder curar-Te totalmente. Ó Jesus, quero ainda fazer fluir os meus pensamentos no coração de cada pecador, para alertá-lo continuamente, a fim de que não ouse ofender-Te. Rogo-Te, com as vozes do Teu sangue, para que todos se rendam às minhas pobres orações; desta forma poderei levá-los ao Teu Coração! Peço-Te mais uma graça, ó meu Jesus: faz com que em tudo o que vejo, toco e sinto, eu veja, toque e sinta sempre a Ti; e que  Tua santíssima imagem e Teu santíssimo Nome sejam sempre impressos em cada partícula do meu pobre ser.

Entretanto, mal percebendo este ato de Verônica, Teus inimigos açoitam-Te, empurram-Te e Te fazem prosseguir! Mais uns poucos passos e paras de novo: sob o peso de tantas penas, Teu amor não se detém e, vendo as mulheres piedosas que choram por causa das Tuas dores, Tu esqueces de Ti mesmo e vais consolá-las, dizendo-lhes: “Filhas, não choreis pelas Minhas dores, mas pelos pecados vossos e dos vossos filhos”. Que ensinamento sublime, come é suave a Tua palavra! Ó Jesus, Contigo reparo as faltas de caridade e imploro-Te a graça de me fazer esquecer de mim mesmo, a fim de me recordar exclusivamente de Ti.

Mas ouvindo-Te falar, Teus inimigos se enfurecem, puxam-Te pelas cordas, empurram-Te com tanta ira, que Te fazem cair e, ao caíres, bates contra as pedras: o peso da cruz angustia-Te e tens a sensação que estás para morrer! Deixa que Te ampare e ofereça um abrigo com as minhas mãos ao Teu santíssimo rosto. Vejo que tocas o chão e Te sufocas no sangue; mas Teus inimigos querendo pôr-Te em pé, puxam-Te com as cordas, levantam-Te pelos cabelos e Te dão pontapés, mas tudo em vão. Tu morres, meu Jesus! Que dó! Sinto que meu coração se parte de dor. E, quase arrastando-Te, levam-Te ao monte Calvário. Enquanto Te puxam, sinto que reparas todas as ofensas das almas a Ti consagradas, que Te dão tanto peso, que por mais que Te esforces para Te levantares, não consegues; é tudo em vão! E assim, arrastado e espezinhado, chegas ao Calvário, deixando um rastro vermelho do Teu precioso sangue por onde passas.

 

Jesus é despojado e coroado de espinhos pela terceira vez

 

Mas aqui, esperam-Te novas dores, pois despojam-Te novamente e Te arrancam as vestes e a coroa de espinhos. Ah, Tu gemes ao sentir que Te arrancam os espinhos da cabeça; e, enquanto Te despojam da veste, dilaceram também a Tua carne a ela coladas. As chagas rasgam-se, o sangue escorre como um rio por terra; a dor é tanta que, quase morto, Tu cais.

Mas ninguém se deixa mover pela compaixão por Ti, meu Bem! Pelo contrário, com fúria brutal colocam-Te de novo a coroa de espinhos, forçando-a com violência. É tanta a angústia pelas lacerações e pelos puxões que dão em Teus cabelos misturados com o sangue coagulado, que somente os Anjos poderiam dizer o que padeces enquanto, horrorizados, contorcem seu olhar celeste e choram!

Meu Jesus despojado, permite-me que Te aperte ao meu coração para Te aquecer, porque vejo que tremes, e um suor gélido e mortal invade a Tua santíssima Humanidade. Como eu gostaria de te dar a minha vida, o meu sangue para substituir o Teu, que perdeste para me dar a vida!

Observando-me com o Seu olhar apagado e agonizante, parece que Jesus me diz: “Meu filho, quanto me custam as almas! Este é o lugar em que espero a todos para salvá-los, onde quero reparar os pecados daqueles que chegam a se degradar mais do que as bestas e persistem tanto em ofender-Me, que chegam a não saber viver sem cometer pecados. Sua razão fica obcecada e pecam desenfreadamente; eis por que Me coroam de espinhos pela terceira vez. E, ao Me despojarem, reparo por aqueles que se cobrem com indecentes vestes de luxo, pelos pecados contra a modéstia e por aqueles que se encontram tão ligados às riquezas, às honras e aos prazeres, que disto fazem um deus para os seus corações.

Ah, sim, cada uma destas ofensas é uma morte que sinto e, se não morro, é porque a Vontade do Meu Pai Eterno ainda não decretou o momento da Minha morte!”

Meu despojado Bem, enquanto reparo Contigo, peço-Te que me despojes de tudo com as Tuas santíssimas mãos e não permitas que qualquer afeto maldoso entre em meu coração; vigia-o, rodeia-o com as Tuas dores e cumula-o com o Teu amor. A minha vida não seja senão a repetição da Tua, e com a Tua bênção confirma o meu despojamento; abençoa-me de coração e dá-me a força para assistir à Tua dolorosa crucifixão, para permanecer crucificado Contigo!

 

Reflexões e práticas

 

Jesus carrega a cruz. O amor de Jesus pela cruz e o Seu ansioso desejo de morrer nela para salvar as almas são imensos! E nós, amamos o sofrimento como Jesus? Podemos dizer que as nossas palpitações fazem eco às Suas palpitações divinas e que também nós pedimos a nossa cruz?

Quando sofremos, temos a intenção de ser companheiros de Jesus para aliviar o peso da sua cruz? Como o acompanhamos? E nos insultos que recebe, estamos prontos a oferecer-Lhe o nosso pequeno sofrimento para alívio das suas dores?

Nas nossas ações e orações, e quando sob o peso de dores internas, sentimos as dificuldades do nosso sofrimento, fazemos com que a nossa dor se dirija a Jesus, para que, como um véu, Lhe enxugue o Seu suor, O alivie, fazendo nosso o Seu padecimento?

Ó meu Jesus, chama-me sempre para perto de Ti e permite que Tu estejas sempre perto de mim, para que Te conforte sempre com as minhas dores.

 

 

 

Décima nona Hora – Das 11 ao meio-dia

Jesus é Crucificado

Primeira parte: a crucifixão

 

Jesus, meu Amor, já foste despojado das Tuas vestes e o Teu santíssimo Corpo está tão lacerado que me parece um cordeiro esfolado; vejo que estás tremendo inteiramente e o meu coração angustia-se pela dor ao ver que sangras de todas as partes do Teu santíssimo Corpo! Cansados, mas não saciados de Te afligir, Teus inimigos despojam-Te, com dor indizível, arrancam de Tua cabeça a coroa de espinhos e depois colocam-na de novo, fazendo com que experimentes dores inauditas, acrescentando, às primeiras, outras feridas dolorosas.

Ah, meu Jesus! Nesta terceira coroação, Tu reparas a perversidade do homem e a sua obstinação no pecado!

Meu Jesus, se o amor não quisesse fazer-Te sofrer dores maiores do que estas, sem dúvida, terias morrido pela crueldade do sofrimento que padeceste nesta terceira coroação de espinhos. No entanto, vejo que não consegues mais aguentar a dor e, com os olhos cobertos de sangue, olhas para ver se alguém se aproxima de Ti para apoiar-Te em meio a tantos padecimentos e tanta confusão.

Meu doce Bem, minha dileta Vida, aqui não estás sozinho como na noite passada; está presente a Tua Mãe dolorosa que, com o Coração trespassado por uma dor intensa, padece tantas mortes por quantas dores Tu sofres! Está também presente a amorosa Madalena e o fiel João que, à vista de Tuas dores, ficam mudos de compadecimento. Diz-me, meu Amor, quem queres que Te ampare em tanto sofrimento? Por favor, permite que seja eu, porque mais do que todos sinto a necessidade de estar perto de Ti nestes momentos. A querida Mãe e os outros cedem-me o lugar e eis que, ó Jesus, me aproximo de Ti, abraço-Te, peço-Te que apoies Tua cabeça no meu ombro e me faças sentir as pontadas de Teus espinhos, para reparar todas as ofensas de pensamento que as criaturas cometem. Meu Amor, por favor, abraça-me; quero beijar uma por uma as gotas de sangue que escorrem sobre o Teu santíssimo rosto e Te peço que cada uma destas gotas seja luz para a mente de cada criatura, a fim de que nenhuma delas Te ofenda com pensamentos malvados.

Entretanto, meu Jesus, olhas para a cruz que Teus inimigos Te estão preparando; sentes as marteladas com que os Teus algozes fazem os furos onde pregarão os cravos que Te crucificarão, e o Teu Coração bate forte, estremece de enlevo divino, aspirando a deitar-Te naquele leito de dor, para selar, com a Tua morte, a salvação de nossas almas. Já Te sinto dizer: “Por  favor, ó cruz, recebe-Me logo em teus braços, espero-te com impaciência! Santa Cruz, em ti completarei tudo. Depressa, cruz! Cumpras o desejo ardente que Me consome, de dar a vida às almas; não hesites mais, pois espero ansiosamente poder deitar-Me sobre ti para abrir o Céu a todos os Meus filhos.

Ó cruz, é verdade que tu és o Meu martírio, mas daqui a pouco serás também a Minha vitória e o Meu triunfo mais completo; e, por ti darei a Meus filhos uma copiosa herança, vitórias, triunfos e coroas”.

E eis que, enquanto Jesus fala assim, os Seus inimigos ordenam-Lhe deitar-se sobre ela, e Ele lhes obedece prontamente, para reparar as nossas desobediências.

Meu Amor, antes de Te deitares na cruz, permite-me que Te aperte ao meu coração com mais força e que beije Tuas amorosas chagas a sangrar. Ouve, ó Jesus, não quero deixar-Te, desejo ir deitar-me Contigo sobre a cruz e nela permanecer pregado em Tua companhia. O verdadeiro amor não suporta a separação e Tu perdoarás a ousadia do meu amor, mas concede-me permanecer crucificado Contigo. Vês, meu terno Amor, não sou o único a Te pedir isto, mas também a Mãe dolorosa, a inseparável Madalena e o predileto João; todos Te dirão que será mais suportável permanecer pregado Contigo na cruz, a ver-Te crucificado! Por isso, ofereço-me Contigo ao  Eterno Pai, unido à Tua Vontade, com o Teu Coração, com as Tuas reparações e todas as Tuas dores.

Ah, parece que o meu adorado Jesus me diz: “Meu filho, antecipaste o Meu amor. Esta é Minha Vontade, que todos aqueles que me amam sejam crucificados Comigo. Ah, sim, vem também tu a deitar-te Comigo na cruz. Eu te darei a vida com a Minha Vida e te conservarei como o predileto do meu Coração.”

E eis que, meu doce Bem, Tu Te deitas sobre a cruz e olhas com tanto amor e tanta doçura para Teus algozes, que já têm prontos nas mãos os cravos e os martelos para Te pregar, dirigindo-lhes como que um doce convite à crucifixão. Com efeito, com ferocidade desumana, já tomam a Tua Mão direita, fixam o prego em sua palma e, com golpes de martelo, fazem-no sair na outra extremidade da cruz. Ó meu Jesus, a dor que sentes é tanta, que tremes! A luz de Teus lindos olhos ofusca-se e o Teu santíssimo rosto empalidece como se estivesse morto.

Ó mão direita abençoada do meu Jesus, beijo-te, compadeço-me de ti, adoro-te e agradeço-te por mim e por todos: por quantos golpes recebes, tantas almas peço que libertes da condenação eterna neste momento; quantas gotas de sangue derramas, tantas almas peço que purifiques neste teu preciosíssimo sangue. Ó meu Jesus, pela dor imensa que sentes, imploro que abras o Céu a todos e  abençoes todas as criaturas. Possa a Tua bênção chamar à conversão todos os pecadores, e à luz da fé, todos os heréticos e infiéis.

Ó Jesus, minha doce Vida, o Teu tormento ainda está no início. Eis que, tendo terminado de Te pregar a mão direita, Teus algozes tomam Tua mão esquerda com crueldade desigual e, com violência, esticam-na tanto para fazê-la chegar ao furo marcado, que deslocam as juntas dos Teus braços e dos ombros e, devido à gravidade da dor, também as pernas se contraem. Depois, com ferocidade incansável, pregam-na na cruz, como fizeram com a Mão direita.

Mão esquerda do meu Jesus, beijo-te, compadeço-me de ti, adoro-te, dou-te graças e peço-te, pelos golpes que recebes e pelas dores atrozes que padeces, enquanto te trespassam com o cravo, que concedas, neste momento, às almas do Purgatório, a sua libertação. Sim, ó Jesus, pelo sangue que derramas desta mão, peço-Te que extingas as chamas que envolvem estas almas; e este sangue seja para todas elas um refrigério e um banho salutar, que as purifique de todas as manchas e as prepare para a visão beatífica. Meu Amor e meu Tudo, por esta dor atroz que sofres, peço-Te que feches o Inferno a todas as almas e que detenhas os raios da Justiça divina, demasiado irritada por nossas culpas! Ó Jesus, faz com que se acalme a Justiça divina para não fazer chover os divinos flagelos sobre a terra e se abram os tesouros da Misericórdia divina em benefício de todos. Meu Jesus, em Teus braços coloco o mundo e todas as gerações, enquanto Te peço, ó meu doce amor, com as vozes do Teu próprio sangue, que não negues o perdão a ninguém e que, pelos méritos deste Teu preciosíssimo sangue, concedas a todos a salvação da própria alma! Ó Jesus, não excluas ninguém!

Jesus, meu Amor, Teus inimigos ainda não estão contentes: com furor diabólico tomam os Teus santíssimos pés, contraídos pela grande dor sentida quando Te esticam as mãos, e os puxam de tal forma, que se deslocam os joelhos, as costelas e todos os ossos do peito. O meu coração não aguenta, meu dileto Bem! Em virtude da dor, vejo Teus lindos olhos ofuscados e encobertos de sangue; Teus lábios roxos contorcem-se, Tuas faces ficam encovadas e os dentes rangem, enquanto o peito ofega com impetuosidade. Ah, meu Amor, de boa vontade tomaria o Teu lugar para poupar-Te tanta dor! Quero curar, beijar, confortar e reparar todos os Teus membros.

Meu Jesus, agora colocam-Te um pé sobre o outro e fincam neles um prego sem ponta. Pés benditos do meu Jesus, beijo-vos, adoro-vos, agradeço-vos e rogo-vos, pelas dolorosíssimas penas que sofreis, pelas distensões e pelo sangue que derramais, que encerreis todas as almas nas vossas sacratíssimas chagas.

Ó Jesus, não desprezes ninguém! Os Teus pregos cravem as nossas faculdades, para que não se afastem de Ti; cravem o nosso coração, para que se fixe sempre e somente em Ti; cravem todos os nossos sentimentos, a fim de que não sintam qualquer gosto que não provenha de Ti. Ó meu Jesus crucificado, vejo que estás totalmente ensanguentado e, como que a nadar em uma poça de sangue, continuamente pede almas. Assim, pelo poder deste sangue peço-Te, ó Jesus, que nunca mais nenhuma se perca de Ti!

Ó Jesus, aproximo-me do Teu Coração angustiado; vejo que não suportas mais, mas o amor brada mais forte: “Dores, dores, ainda mais dores!”

Meu Jesus, abraço-Te, beijo-Te, tenho piedade de Ti, adoro-Te e agradeço-Te por mim e por todos. Jesus, quero apoiar a minha cabeça em Teu Coração para sentir o que sofres nesta dolorosa Crucifixão. Ah, sinto que cada golpe de martelo faz eco em Teu Coração! Tudo se concentra nele e, por isso, é ali que começam as dores e é ali que elas terminam. Ah, se já não tivesse sido decretado que uma lança deverá trespassar o Teu Coração, as chamas do Teu amor se manifestariam e fariam com que ele explodisse! Estas chamas convidam as almas amorosas a fazer uma feliz morada em Teu Coração, enquanto eu, ó Jesus, pelo Teu preciosíssimo sangue, peço-Te a santidade para estas almas: por favor, nunca as faça sair do Teu Coração e, com a Tua graça, multiplica as vocações das almas vítimas para que continuem a Tua vida na terra. Tu quiseste reservar um lugar distinto em Teu Coração às almas amantes; faz com que elas jamais percam este lugar. Ó Jesus, as chamas de Teu Coração me queimem e me consumam, o Teu sangue me adorne, o Teu amor me conserve sempre fixo nela com dor e reparação.

Ó meu Jesus, os carrascos já pregaram as Tuas mãos e os Teus pés na cruz e, viram-na para pregar melhor os pregos, forçando o Teu rosto adorável a tocar a terra ensanguentada com o Teu próprio sangue, e Tu, com Teus lábios divinos, beija-a. Com este Teu beijo, ó meu doce Amor, Tu pretendes beijar todas as almas e vinculá-las ao Teu amor, selando a sua salvação. Ó Jesus, deixa que tome o Teu lugar e, enquanto os carrascos rebatem os pregos, faz com que estes golpes firam também a mim e me preguem totalmente ao Teu amor.

Meu Jesus, enquanto os espinhos penetram cada vez mais em Tua cabeça, quero oferecer-Te, ó meu doce bem, todos os meus pensamentos que, como beijos afetuosos, consolem-Te e curem a amargura dos Teus espinhos.

Ó Jesus, vejo que os Teus inimigos ainda não estão saciados de Te insultar e zombar de Ti. Desejo confortar os Teus olhares divinos com os meus olhares de amor.

A Tua língua está quase colada ao céu da boca pela amargura do fel e pela sede ardente. Ó meu Jesus, para saciar a Tua sede, Tu desejarias o coração de todas as criaturas transbordantes de amor e, não dispondo delas, ardes cada vez mais por elas. Meu doce Amor, pretendo enviar-Te rios de amor, para abrandar de alguma maneira a amargura do fel e a Tua sede ardente.

Ó Jesus, vejo que a cada movimento que fazes, as feridas das Tuas mãos abrem-se ainda mais e a dor torna-se mais intensa e atroz. Meu querido bem, para  abrandar este sofrimento, ofereço-Te as obras santas de todas as criaturas.

Ó Jesus, quanto sofres nos Teus santíssimos pés! Parece que todos os movimentos do Teu sacratíssimo Corpo se repercutem neles e não há ninguém perto de Ti para Te amparar e suavizar, pelo menos, o amargor das Tuas dores! Minha dulcíssima vida, quereria reunir os passos das criaturas de todas as gerações passadas, presentes e futuras, e orientá-los todos para Ti, para que viessem a consolar-Te nas Tuas árduas penas.

Ah, ó meu Jesus, como está angustiado o Teu pobre Coração! Como confortar tanta dor? Irei me derramar em Ti, colocarei o meu coração no Teu, os meus desejos ardentes nos Teus, para que seja destruído qualquer desejo negativo. Difundirei o meu amor no Teu, a fim de que com o Teu fogo ardam os corações de todas as criaturas e sejam aniquilados os amores profanos. O Teu sacratíssimo Coração será confortado e desde agora prometo, ó Jesus, que ficarei sempre pregado a este amorosíssimo Coração com os pregos dos Teus desejos, do Teu amor e da Tua Vontade.

Ó meu Jesus, Tu estás crucificado, e eu, em Ti. Não permitas que me separe absolutamente de Ti, mas que permaneça sempre ali, pregado, para poder amar-Te e reparar por todos, e reparar a dor que, com as suas culpas, as criaturas Te fazem padecer.

 

Segunda parte: Jesus Crucificado.

Com Ele, desarmamos a Justiça Divina

 

Meu bom Jesus, vejo que os Teus inimigos levantam o pesado madeiro da cruz e o deixam cair na cova que eles abriram; e Tu, meu doce amor, ficas suspenso entre o céu e a terra. Neste solene momento, diriges-Te ao Pai e, com voz frágil e fraca, dizes-lhe: “Pai santo, eis-Me aqui, carregado com todos os pecados do mundo; não há culpa que não caia sobre Mim, por isso, não descarregues mais sobre os homens os flagelos da Tua Justiça divina, mas sobre Mim, Teu Filho. Ó Pai, permite-Me que vincule todas as almas a esta cruz, que lhes implore o perdão com as vozes do Meu sangue e das Minhas feridas. Ó Pai, não vês em que estado de piedade me encontro? Por esta cruz, em virtude destas dores, concede a todos uma conversão verdadeira, paz, perdão e santidade. Detém o Teu furor contra a pobre Humanidade, contra Meus filhos; eles são cegos e não sabem o que fazem; por isso, olha bem como estou ferido por causa deles; se não tiveres compaixão deles, tenhas piedade pelo menos deste Meu rosto sujo de escarros, coberto de sangue, pálido e inchado devido a tantos murros e golpes recebidos. Tem piedade, Meu Pai! Eu era o mais bonito de todos e agora estou totalmente desfigurado, a tal  ponto que já não Me reconheço; tornei-Me o desprezo de todos e, por isso, custe o que custar, quero salvar a pobre criatura!”

Meu Jesus, é possível que nos ame tanto assim? O Teu amor consome este meu pobre coração.  Como gostaria de ir a todas as criaturas e mostrar este Teu rosto tão desfigurado por causa delas, para sensibilizá-las nas suas almas e movê-las ao Teu amor; e com a luz que este Teu rosto reflete e com a força arrebatadora do Teu amor, fazer com que compreendam quem és Tu e quem são elas que ousam ofender-Te, para que se prostrem diante de Ti para adorar-Te e glorificar-Te.

Meu Jesus, adorável Crucificado, a criatura continua a irritar sempre a Justiça divina e, com a sua língua, faz ressoar o eco de blasfêmias horrendas, vozes de imprecações e maldições, conversas maldosas. Ah, todas estas vozes ensurdecem a Terra e, penetrando até o Céu, enquanto ensurdecem o ouvido divino, intercedem e pedem vingança e justiça contra ela mesma! Oh, como a Justiça divina se sente impelida a lançar os Seus flagelos! E como tantas blasfêmias horrendas acendem o Seu furor contra a criatura! Mas Tu, ó meu Jesus, amando-nos com sumo amor, fazes frente a estas vozes mortíferas com a Tua voz onipotente e criadora, e imploras misericórdia, graças e amor para ela. E para aplacar a indignação do Pai, cheio de amor dizes: “Meu Pai, volta a olhar para Mim, não ouças as vozes das criaturas, mas a Minha. Sou Eu que reparo por todos; por isso, peço-Te que olhes para a criatura e que a olhes em Mim; se olhares para ela sem ser através de Mim, o que será dela? É frágil, ignorante, capaz de fazer somente o mal, repleta de todas as misérias. Piedade, tem piedade da pobre criatura! Respondo por ela com esta Minha língua amargurada pelo fel, seca de sede, ardida e queimada pelo amor.”

Meu amargurado Jesus, a minha voz na Tua quer fazer frente a todas estas ofensas, a todas as blasfêmias, para poder transformar todas as vozes humanas em vozes de bênção e louvor.

Meu Jesus crucificado, apesar do Teu amor e da Tua dor serem tantos, a criatura ainda não se rende; pelo contrário, desprezando-Te, acrescenta culpas a mais culpas, cometendo sacrilégios enormes, homicídios, suicídios, duelos, fraudes, enganos, crueldades e traições. Ah! Todas estas obras más entorpecem os braços de Teu Pai celestial que, não podendo suportar o peso, está para abaixá-los e arremessar furor e destruição sobre a Terra. E Tu, ó meu Jesus, para subtrair a criatura do furor divino, temendo vê-la destruída, estendes os Teus braços rumo ao Pai, desarma-O e impedes que a Justiça divina prossiga o seu percurso. E, para fazer com que Ele se compadeça da mísera Humanidade e se enterneça, dizes-Lhe com voz mais convincente: “Meu Pai, olha estas mãos rasgadas e estes pregos que as trespassam, que Me cravam juntamente com todas estas obras más. Ah, é nestas mãos que sinto todos as dores atrozes que Me provocam estas obras malignas! Ó, Meu Pai, não estás contente com as Minhas dores? Não sou, porventura, capaz de satisfazer-Te? Sim, estes Meus braços deslocados serão sempre correntes que limitarão as criaturas, a fim de que não escapem de Mim, a não ser aquelas que quiserem libertar-se à viva força. Estes Meus braços serão cadeias amorosas que Te amarrarão, Meu Pai, para impedir que Tu destruas a pobre criatura; antes, Eu Te atrairei sempre para perto dela, para que derrames sobre ela as Tuas graças e misericórdias!”

Meu Jesus, o Teu amor é um doce encanto para mim e leva-me a fazer o que Tu fazes; por isso, Contigo, quero impedir, custe o que custar, que a Justiça divina prossiga o Seu itinerário contra a pobre Humanidade; com o sangue que flui destas Tuas mãos, quero extinguir o fogo da culpa que o acende e apaziguar o Seu furor. Concede-me que deponha nestes Teus braços as dores e as agonias de todos os homens e os inúmeros corações dolorosos e oprimidos. Permite-me que vá ter com todas as criaturas e estreite todas nestes Teus braços, a fim de que todas retornem ao Teu Coração. Concede-me que, com o poder das Tuas mãos criadoras, detenha a corrente de tantas obras malignas e impeça a todos de fazerem o mal.

Meu amável Jesus crucificado, a criatura ainda não está satisfeita de Te ofender. Quer beber até o fim todos os resíduos do pecado e corre, quase loucamente, pelo caminho do mal; precipita-se de culpa em culpa, desobedece às Tuas Leis e, desconhecendo-Te, revolta-se contra Ti e, como que para provocar-Te, quer ir para o Inferno. Oh, como se indigna a Suprema Majestade! E Tu, ó meu Jesus, triunfando em tudo, inclusive na obstinação das criaturas, para aplacar o Pai Divino, mostra-lhe toda a Tua santíssima Humanidade dilacerada, deslocada, angustiada de maneira horrível. Mostras os Teus santíssimos pés trespassados, destorcidos pela atrocidade das dores, e  ouço a tua voz, mais comovedora do que nunca, como que expirando, que quer convencer a criatura por força de amor e de dor e, triunfando em Seu Coração paterno, dizes-Lhe: “Meu Pai, olha-Me da cabeça aos pés: não há parte sadia em Mim; já não disponho de um lugar onde fazer abrir uma ferida e sentir mais dores: se não Te aplacas diante desta cena de amor e de sofrimento, quem é que conseguirá apaziguar-Te? Ó criaturas, se não vos renderdes a tanto amor, que esperança vos resta de vos converterdes? Estas Minhas chagas e este sangue serão sempre vozes que pedirão, do Céu à Terra, graças de arrependimento, perdão, compaixão por vós!”

Meu Jesus crucificado, vejo que já não podes mais. A tensão terrível que padeces na cruz, o ranger contínuo de Teus ossos que se desconjuntam cada vez mais, a cada movimento, por menor que seja, a carne que se rasga sempre mais, a sede ardente que Te consome, as penas interiores que Te sufocam de amargura, de dor e de amor e, com tantos martírios Teus, a ingratidão humana que Te aflige e que, como uma onda impetuosa, penetra em Teu Coração trespassado, oprimem-Te tanto, que a Tua santíssima Humanidade, não aguentando mais sob o peso de tantos martírios, está para expirar e, como que delirando de amor e de sofrimento, pede ajuda e piedade! Jesus crucificado, como é possível? Tu, governas tudo e dás vida a todos e pedes ajuda? Ah, como gostaria de penetrar em cada gota de Teu preciosíssimo sangue e derramar o meu para aliviar cada uma de Tuas chagas, para suavizar e tornar menos dolorosas as pontadas de cada espinho e penetrar em cada pena interior do Teu Coração para abrandar a intensidade das Tuas amarguras. Gostaria de dar-Te vida por vida. Se me fosse possível, quereria despregar-Te da cruz para ficar em Teu lugar. Mas vejo que nada sou e nada posso, sou demasiado insignificante. Por isso, dá-Te a Ti mesmo a mim, tomarei vida em Ti e, em Ti, eu Te darei a Ti mesmo. Assim, satisfarás a minha ânsia. Jesus dilacerado, vejo que a Tua santíssima Humanidade termina não por Ti, mas para cumprir em tudo a nossa Redenção; tens necessidade de auxílio divino e, por isso, Tu Te lanças nos braços paternos e pedes auxílio e socorro. Oh, como o Divino Pai se enternece ao olhar a horrível dilaceração da Tua santíssima Humanidade, o trabalho terrível que o pecado fez sobre Teus santíssimos membros! E para satisfazer as Tuas ânsias de amor, estreitas-Te ao Seu Coração paterno e Ele Te dá os auxílios necessários para realizares a nossa Redenção. E, enquanto Te abraça, sentes repetir, no Teu Coração, com mais força, os golpes dos cravos, os açoites dos flagelos, as dilacerações das chagas, as pontadas dos espinhos. Oh, como o Pai fica ferido! Como se indigna, ao ver que todas estas penas são levadas até ao fundo do Teu Coração, por almas, também, consagradas a Ti! E, na sua dor, Ele Te diz:

“Meu Filho, é possível que nem sequer a parte por Ti eleita esteja totalmente Contigo? Aliás, parece que estas almas pedem refúgio e escondimento neste Teu Coração para Te amargurar e Te causar uma morte dolorosa; o que mais surpreende, é que todas estas dores que Te provocam estão encobertas por hipocrisias. Ah, Filho, não posso mais conter a indignação pela ingratidão destas almas, que Me ferem mais do que todas as outras criaturas juntas.”

Mas Tu, ó meu Jesus, triunfando sobretudo, defendes até mesmo estas almas e, com o imenso amor deste Teu Coração, fazes um refúgio para as ondas de amarguras e trespasses que estas almas Te provocam e, para aplacares o Pai, dizes-Lhe: “Meu Pai, olha este Meu Coração; todas estas dores Te satisfaçam e, quanto mais ácidas forem, tanto mais potentes sejam no Teu Coração de Pai, para suplicar-lhes graças, luz e perdão. Meu Pai, não as rejeites! Elas serão Minhas defensoras que continuarão a Minha Vida na Terra.”

 Minha Vida, Jesus crucificado, vejo que ainda agonizas na cruz, dado que o Teu amor ainda não está saciado, para dar cumprimento a tudo. Sim, também eu agonizo Contigo. E todos vós, Anjos e Santos, vinde ao Monte Calvário e observai os excessos e as loucuras do amor de um Deus! Beijemos e adoremos as Suas chagas sangrentas, sustentemos aqueles membros dilacerados, agradeçamos a Jesus a Redenção realizada, lancemos um olhar à Mãe trespassada, que tantas dores e mortes sente no seu Coração Imaculado, por quantas penas que vê no seu Filho Deus.  Suas próprias vestes estão manchadas de sangue; o Monte Calvário está todo salpicado de sangue; por isso, todos juntos tomemos este sangue; peçamos à Mãe dolorosa para que se una a nós; espalhemo-nos por todo o mundo para ir em socorro de todos. Ajudemos os que estão em perigo, a fim de que não pereçam; os caídos, para que voltem a levantar-se; aqueles que estão prestes a cair, a fim de que não caiam; demos este sangue a tantos pobres cegos, para que resplandeça neles a luz da verdade; e, de modo especial, vamos até junto dos pobres combatentes, sejamos suas sentinelas vigilantes e, se estiverem prestes a cair, atingidos pela arma do inimigo, abramos nossos braços para recebê-los e confortá-los; e se forem abandonados por todos, se estiverem desesperados, diante da sua triste sorte, demos-lhes este sangue, para que se resignem e seja suavizada a atrocidade das dores; e se virmos que há almas que estão para cair no Inferno, demos-lhes este sangue divino, que contém o preço da Redenção, e arrebatemo-las de Satanás! E enquanto terei Jesus apertado ao meu coração para defendê-Lo e repará-Lo de tudo, estreitarei todos a este coração, a fim de que todos obtenham a graça eficaz da conversão, força e salvação.

Entretanto vejo, ó Jesus, que o sangue flui, como um rio, de Tuas Mãos e de Teus pés; os Anjos, chorosos, fazem uma coroa ao Teu redor e admiram os prodígios do Teu imenso amor. Vejo a Tua doce Mãe aos pés da cruz, trespassada pela dor, a Tua querida Madalena, o predileto João, todos envolvidos pela incredulidade, de amor e de dor! Ó Jesus, uno-me a Ti e abraço a Tua cruz; recupero todas as gotas do Teu sangue e derramo-as no meu coração.

Quando eu vir que a Tua Justiça está irritada diante dos pecadores, para Te aplacar, eu Te mostrarei este sangue. Quando eu quiser a conversão das almas obstinadas no pecado, eu Te mostrarei este sangue e, em virtude dele, não rejeitarás a minha oração, porque tenho o penhor da mesma nas minhas mãos. E agora, meu Bem crucificado, em nome de todas as gerações passadas, presentes e futuras, juntamente com Tua Mãe e com todos os Anjos, prostro-me diante de Ti e Te digo: “Nós Te adoramos e bendizemos, ó Cristo, porque com a Tua Santa Cruz redimiste o mundo.”

 

Reflexões e práticas

 

Jesus crucificado obedece aos carrascos, aceita com amor todos os insultos e dores que Lhe fazem padecer. Pelo grande amor que Jesus sentia pela nossa pobre alma, encontrou na cruz o Seu leito de repouso. E nós, em todas as penas, descansamos n’Ele? Com a nossa paciência e com o nosso amor, podemos dizer que preparamos um leito para Jesus em nosso coração?

Enquanto Jesus é crucificado, não há sequer uma parte interior e exterior que não padeça um sofrimento singular. E todos nós, permanecemos crucificados com Ele, pelo menos com os nossos principais sentidos? Quando em uma vã conversa ou outro divertimento semelhante encontramos nosso prazer, então é Jesus que fica pregado na cruz; mas se sacrificamos este mesmo prazer por amor a Ele, então despregamos Jesus e pregamos a nós mesmos.

Conservamos sempre cravados, com os pregos da Sua santíssima Vontade, a nossa mente, o nosso coração, todo o nosso ser? Enquanto está crucificado, Jesus olha os carrascos com amor. E nós, por amor a Ele, olhamos com amor quem nos ofende?

Meu Jesus crucificado, Teus pregos trespassem o meu coração, a fim de que não haja palpitação, afeto e desejo que não sintam as pontadas dos mesmos, e o sangue que este meu coração derramar seja o bálsamo que há de curar as Tuas chagas.

 

 

 

Vigésima Hora – Do meio-dia à 1 hora

Primeira Hora de agonia na Cruz

A primeira palavra de Jesus

 

Meu bem crucificado, vejo-Te na cruz como em Teu trono de triunfo, em ato de conquistar tudo e todos os corações, atraindo-os tanto a Ti, que todos sentem o Teu poder sobre-humano. A natureza, horrorizada com tanta perversidade, prostra-se diante de Ti e, em silêncio, espera uma palavra Tua, para Te honrar e fazer com que o Teu domínio seja reconhecido; o sol, a chorar, retira a sua luz, porque não Te consegue ver num estado tão doloroso. O Inferno sente terror e, silencioso, aguarda. Deste modo, tudo está em silêncio. Tua Mãe trespassada e todos os que Te sãos fiéis estão em silêncio e petrificados com a visão tão dolorosa da Tua Humanidade dilacerada e desolada e, em silêncio, esperam que digas alguma coisa! A Tua própria Humanidade, que jaz num mar de sofrimentos e de dores atrozes da agonia, está silenciosa, tanto que se teme que, de um respiro a outro, Tu morras! Que mais? Os próprios desleais judeus, os próprios algozes sem piedade, que até há bem pouco Te ultrajavam, zombavam-Te, chamavam-Te impostor e malfeitor, os próprios ladrões que Te amaldiçoavam, todos se calam, emudecem, e o remorso os invade e, se fazem esforço para Te lançar algum insulto, ele morre em seus lábios.

Mas, penetrando no Teu interior, vejo que o amor transborda, sufoca-Te e não consegues contê-lo; e, constrangido por Teu amor, que atormenta mais do que as próprias penas, falas com voz forte e comovedora, como Deus que és, elevas os olhos agonizantes ao Céu e exclamas: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”. E, de novo, recolhe-Te no silêncio, imerso em dores inauditas. Jesus crucificado, é possível tanto amor? Ah, depois de tantos sofrimentos e insultos, a primeira palavra é o perdão, e nos desculpas diante do Pai por tantos pecados! Ah! Fazes com que esta palavra chegue a cada coração depois da culpa, e és o primeiro a oferecer o perdão. Mas quantos a rejeitam e não a aceitam. Então, o Teu amor delira porque, com ansiedade, queres conceder a todos o perdão e o beijo da paz!

Diante desta Tua palavra, o Inferno treme e reconhece que és Deus; a natureza e todos ficam estupefatos e reconhecem a Tua Divindade, o Teu amor inextinguível e, silenciosos, esperam para ver até onde ele chega. E não é somente a Tua voz, mas também o Teu sangue, as Tuas feridas que bradam a cada coração depois do pecado: “Vem aos Meus braços que te perdoo, e o selo do perdão é o preço do Meu sangue”. Ó meu amável Jesus, repete ainda estas palavras a todos os pecadores do mundo; implora a misericórdia para todos; a todos reserva os méritos infinitos do Teu preciosíssimo sangue. Ó bom Jesus, continua a aplacar para todos a Justiça divina e concede a graça a quem, devendo perdoar, não tem força para o fazer. Meu Jesus, adorado e crucificado, nestas três Horas de agonia dolorosíssima, queres completar tudo e, enquanto estás em silêncio nesta cruz, vejo que dentro de Ti queres satisfazer o Pai em tudo. Agradeces por todos, satisfazendo-O por todos, pedindo perdão por todos e, para todos, suplicas a graça de nunca mais Te ofenderem. E para obter isto do Pai, resumes toda a Tua vida, desde o primeiro instante da Tua concepção até o último respiro. Meu Jesus, Amor interminável, deixa que eu recapitule toda a Tua vida Contigo, com a Mãe inconsolável, com São João e com as mulheres piedosas.

 

Recapitulemos a Vida e as dores de Jesus

 

Meu doce Jesus, agradeço-Te por tantos espinhos que trespassaram a tua adorável cabeça, pelas gotas de sangue que derramaste dela, pelas pancadas que recebeste sobre ela e pelos cabelos que Te arrancaram. Agradeço-te por todo o bem que fizeste e pediste para todos, pelas luzes e pelas boas inspirações que nos concedeste e por todas as vezes que perdoaste todos os nossos pecados de pensamento, de soberba, de orgulho e de amor-próprio.

Ó meu Jesus, peço-Te perdão, em nome de todos, por todas as vezes que Te coroamos de espinhos, por todas as gotas de sangue que fizemos derramar da Tua sacratíssima cabeça, por todas as vezes que não correspondemos às tuas inspirações. Ó bom Jesus, por todas estas dores que padeceste, peço-Te, que nos alcances a graça de nunca mais cometer pecados de pensamento. Quero ainda Te oferecer tudo aquilo que sofreste em Tua santíssima cabeça, para  dar toda a glória que as criaturas Te teriam dado, se tivessem feito bom uso de sua inteligência.

Ó meu Jesus, adoro os Teus santíssimos olhos e Te agradeço todas as lágrimas e todo o sangue que derramaste, por causa das pontadas cruéis dos espinhos, os insultos, os escárnios e os desprezos suportados durante toda a Tua Paixão. Peço-Te perdão por todos aqueles que se servem da vista para Te ofender e Te ultrajar, implorando-Te pelas dores padecidas em Teus sacratíssimos olhos, que nos concedas a graça que ninguém mais Te ofenda com olhares malignos. Quero oferecer-Te ainda, tudo aquilo que Tu mesmo sofreste em Teus santíssimos olhos, para Te dar toda a glória que as criaturas Te teriam dado, se os seus olhares estivessem fixos somente no Céu, na Divindade e em Ti, ó meu Jesus.

Adoro os Teus santíssimos ouvidos; agradeço-Te tudo quanto sofreste enquanto os algozes, no Calvário, ensurdeciam-Te com gritos e escárnios. Peço-Te perdão, em nome de todos, por todas as conversas maldosas que se ouvem e Te suplico que se abram os ouvidos de todos os homens às verdades eternas, às vozes da Graça e que ninguém mais Te ofenda com o sentido do ouvido. Quero, ainda, oferecer-Te tudo aquilo que Tu mesmo sofreste em Teus santíssimos ouvidos, para Te dar toda a glória que as criaturas Te teriam dado, se tivessem feito um uso santo deste sentido.

Ó meu Jesus, adoro e beijo o Teu santíssimo rosto e Te agradeço tudo quanto sofreste pelos escarros, bofetadas e escárnios recebidos, e por todas as vezes que Te deixaste espezinhar pelos Teus inimigos. Peço-Te perdão em nome de todos, por todas as vezes que tiveram a ousadia de Te ofender, pedindo-Te pelas bofetadas e pelos escarros, que todos reconheçam, louvem e glorifiquem a Tua Divindade; aliás, ó meu Jesus, eu mesmo quero ir ao mundo inteiro, do Oriente ao Ocidente, do Sul ao Norte, unir as vozes de todas as criaturas e transformá-las em outros tantos atos de louvor, de amor e de adoração. Ó meu Jesus, quero também levar a Ti os corações das criaturas, a fim de que Tu possas lançar sobre todos a luz, a verdade, o amor e o  compadecimento pela Tua Pessoa divina; e enquanto perdoas a todos, imploro-Te que não permitas que alguém volte a Te ofender e, se for necessário, também, à custa do meu sangue. Enfim, quero oferecer-Te tudo o que sofreste em Teu santíssimo rosto, para Te dar toda a glória que as criaturas Te teriam reservado, se ninguém tivesse ousado Te ofender.

Adoro a Tua santíssima boca e Te agradeço por Teu primeiro choro, todo o leite com que foste amamentado, todas as palavras que pronunciaste, os beijos inflamados que deste à Tua santíssima Mãe, o alimento que tomaste, a amargura do fel, a sede ardente que padeceste na cruz e as preces que elevaste ao Pai. Peço-Te perdão por todas as murmurações e palavras maldosas e mundanas que se proferem e por todas as blasfêmias que as criaturas pronunciam. Ofereço-Te as Tuas palavras, em reparação das palavras más proferidas por elas; ofereço-Te a mortificação de Teu gosto, para reparar a gula das criaturas e todas as ofensas que Te fizeram com o mau uso da língua. Ofereço-Te tudo o que sofreste em Tua santíssima boca, para Te dar toda a glória que as criaturas Te teriam dado, se nenhuma delas tivesse ousado Te ofender com o sentido do gosto e com o mau uso da língua.

Ó Jesus, agradeço-Te por tudo e, em nome de todos, elevo a Ti, um hino de agradecimento eterno, infinito. Ó meu Jesus, ofereço-Te tudo o que padeceste na Tua santíssima Pessoa, para Te dar toda a glória que Te teriam dado todas as criaturas, se tivessem conformado a sua vida com a Tua.

Ó Jesus, agradeço-Te por tudo quanto sofreste em Teus santíssimos ombros, por todos os golpes que recebeste, por todas as chagas que deixaste abrir em Teu sacratíssimo Corpo e por todas as gotas de sangue que derramaste. Peço-Te perdão, em nome de todos, por todas as vezes que, por amor às comodidades, ofenderam-Te com prazeres ilícitos e maus. Ofereço-Te a Tua dolorosa flagelação para reparar todos os pecados cometidos com todos os sentidos, o amor aos próprios gostos, aos prazeres sensíveis, ao próprio eu, a todas as satisfações naturais. Ofereço-Te tudo o que sofreste em Teus ombros, para Te dar toda a glória que as criaturas Te teriam dado, se em tudo tivessem procurado agradar somente a Ti, refugiando-se à sombra da Tua divina proteção.

Meu Jesus, beijo o Teu pé esquerdo; agradeço-Te todos os passos que deste em Tua vida mortal e todas as vezes que cansaste os Teus pobres membros para ir à procura de almas para as conduzires ao Teu Coração. Ó meu Jesus, ofereço-Te todas as minhas ações, passos e movimentos, com a intenção de Te reparar por tudo e por todos. Peço-Te perdão pelas pessoas que não agem com reta intenção; uno as minhas ações às Tuas, para divinizá-las e oferecê-las unidas a todas as obras que realizaste com Tua santíssima Humanidade, para te dar a glória que Te teriam dado as criaturas, se tivessem operado santamente e com reta intenção.

Ó meu Jesus, beijo o Teu pé direito e Te agradeço tudo quanto sofreste e sofres, ainda, por mim, especialmente nesta hora em que estás suspenso na cruz. Agradeço-Te pela dilaceração que os cravos fazem em Tuas Chagas, que se rasgam cada vez mais, com o peso de Teu sacratíssimo Corpo.

Peço-Te perdão por todas as rebeliões e desobediências que cometem as criaturas, oferecendo-Te as dores de Teus santíssimos pés em reparação destas ofensas, para Te dar a glória que as criaturas Te teriam dado, se em tudo tivessem se submetido a Ti.

Ó meu Jesus, beijo a Tua santíssima mão esquerda; agradeço-Te por quanto sofreste por mim, por todas as vezes que aplacaste a Justiça divina, satisfazendo por tudo! Beijo a Tua Mão direita e agradeço todo o bem que realizaste e fazes por todos. Agradeço-Te, de modo especial, as obras da Criação, da Redenção e da Santificação. Peço-Te perdão em nome de todos, por todas as vezes que fomos ingratos por Teus benefícios, por nossas inúmeras obras levadas a cabo sem reta intenção. Em reparação de todas estas ofensas, ofereço-Te toda a perfeição e santidade das Tuas obras, para Te dar toda aquela glória que as criaturas Te teriam dado, se tivessem correspondido a todos estes benefícios.

Ó meu Jesus, beijo o Teu sacratíssimo Coração e Te agradeço por tudo quanto sofreste, desejaste e zelaste por amor de todos e cada um em particular. Peço-Te perdão por tantos desejos perversos, afetos e tendências negativas. Perdão, ó Jesus, por tantos que preferem o amor das criaturas ao Teu. E, para te dar toda a glória que elas Te negaram, ofereço-Te tudo aquilo que fez e continua a realizar o Teu Coração tão adorável.

 

Reflexões e práticas

 

Jesus elevado na cruz, fica suspenso sem tocar o chão. E nós, procuramos viver desapegados do mundo, das criaturas e de tudo quanto é terrestre? Tudo deve concorrer para formar a cruz sobre a qual devemos nos estender e permanecer suspensos como Jesus, distantes de tudo o que é terreno, a fim de que as criaturas não se apeguem a nós.

O Jesus angustiado não tem outro leito, senão a cruz; outro refúgio, senão as chagas e os insultos.  E o nosso amor a Jesus chega a tal nível que encontra alívio no sofrimento? Tudo o que fazemos: orações, padecimentos e outras coisas, encerremos tudo nestas chagas, mergulhando tudo no sangue de Jesus; só encontraremos conforto em Suas dores. Assim, as chagas de Jesus serão as nossas, o Seu sangue atuará continuamente em nós para nos purificar e nos adornar e, desta forma, receberemos todas as graças para nós e para a salvação das almas. Com o depósito do sangue de Jesus em nosso coração, se cometermos alguma falta, pediremos a Jesus que não nos conserve maculados na Sua presença, mas que nos lave com o Seu sangue e nos mantenha ao Seu lado. Se nos sentirmos fracos, rezaremos a Jesus a fim de que dê um pouco do Seu sangue à nossa alma, para nos dar força. O doce Jesus pede por Seus algozes; aliás, perdoa-os. E nós, recitamos a prece de Jesus, para perdoar continuamente os pecadores diante do Pai e para implorar a misericórdia para eles, também para aqueles que nos ofendem?

Enquanto rezamos, atuamos e caminhamos, não esqueçamos nem sequer as pobres almas que estão para dar um último respiro. Levemos a elas, como auxílio e conforto, as preces e os beijos de Jesus, para que o Seu preciosíssimo sangue as purifique e faça com que elas se elevem ao Céu.

Meu Jesus, de Tuas chagas, de Teu sangue, quero obter a força para poder repetir em mim a Tua própria vida; assim, poderei implorar para todos o bem que Tu mesmo realizaste.

 

Vigésima primeira Hora – Da 1 às 2 da tarde.

Segunda Hora de agonia na Cruz.

Segunda, terceira e quarta palavras de Jesus.

 

Segunda palavra na Cruz

 

Meu amor trespassado, enquanto rezo Contigo, a força arrebatadora de Teu amor e das Tuas dores mantém fixo o meu olhar em Ti; mas o meu coração dilacera-se ao ver-Te sofrer tanto assim. Anseias de amor e de dor, e as chamas que ardem em Teu Coração elevam-se a tal ponto que estão prestes a reduzir-Te a cinzas; o amor que Teu Coração contém é mais forte do que a própria morte e Tu, desejando desabafá-Lo, olhando o ladrão à Tua direita, retira-o do Inferno. Com a Tua graça, tocas o seu coração e o ladrão fica completamente transformado, reconhece-Te, confessa-Te como Deus e, profundamente mortificado, diz: “Senhor, lembra-Te de mim quando estiveres no Paraíso”. E Tu não hesitas em responder-lhe: “Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso”, transformando-o no primeiro triunfo do Teu amor. Mas, vejo que no Teu amor não roubas o coração só ao bom ladrão, mas também a muitos agonizantes! Ah, Tu pões à sua disposição o Teu sangue, o Teu amor e os Teus méritos, recorrendo a todos os artifícios e estratégias divinas para sensibilizar os seus corações e roubá-los para ti. Mas, também nisto, o Teu amor é provado! Quantas negações, quantas desconfianças e quantos desesperos! E a dor é tanta que, de novo, ficas em silêncio!

Ó meu Jesus, quero reparar por aqueles que se desesperam da Misericórdia divina no momento da morte. Meu doce amor, inspira em todos a confiança em Ti e a certeza iluminada, especialmente àqueles que se encontram à mercê da agonia. E, em virtude da Tua palavra, concede-lhes luz, força e ajuda para poder morrer santamente e ir desta terra para o Céu. Ó Jesus, contém todas as almas em Teu santíssimo Corpo, em Teu sangue e em Tuas chagas. Portanto, por mérito deste Teu preciosíssimo sangue, não permitas que uma só alma se perca! O Teu sangue continue a bradar por todas, com a Tua voz: “Hoje mesmo estareis Comigo no Paraíso!”

 

Terceira palavra na Cruz

 

Meu Jesus, Crucificado e angustiado, Tuas dores aumentam cada vez mais. Ah, nesta cruz, Tu és o verdadeiro Rei das Dores! Entre tantos sofrimentos, nenhuma alma Te passa despercebida; pelo contrário, dás a cada uma delas a Tua própria vida. Mas o Teu amor é contrariado pelas criaturas, desprezado, descuidado e, não podendo desabafar, torna-se mais intenso, provoca-Te sofrimentos indizíveis. Nestes tormentos, procuras descobrir o que mais podes dar ao homem para conquistá-lo e dizes: “Vê, ó alma, quanto Te amei! Se não queres ter piedade de Ti mesmo, tem piedade pelo menos do Meu amor!”. Entretanto, vendo que nada mais tens para dar-lhe, uma vez que já lhe deste tudo, diriges Teu olhar apagado à Tua Mãe; também ela está mais do que agonizante por causa de Tuas dores. E é tanto o amor que a aflige, que a crucifica como a Ti. Como Mãe e Filho, compreendeis-vos, e suspiras com satisfação e Te confortas ao ver que podes dar à criatura a Tua Mãe e, considerando em João todo o gênero humano, com voz tão terna que comoves a todos, dizes: “Mulher, eis o teu filho”; e a João: “Eis a tua Mãe”. A Tua voz penetra em seu Coração materno e, unida às vozes do Teu sangue, continuas a dizer: “Minha Mãe, confio-te todos os Meus filhos, todo o amor que sentes por Mim, sente-o também por eles; todos os teus cuidados e ternuras maternas sejam para os Meus filhos; tu os salvarás a todos para Mim”. Tua Mãe aceita. Entretanto, as dores são tão fortes que Te fazem novamente silenciar.

Ó meu Jesus, desejo reparar as ofensas que se fazem à santíssima Virgem, as blasfêmias e as ingratidões de tantos que não querem reconhecer os benefícios que Tu reservaste a todos, dando-nos Maria como Mãe.

Como podemos agradecer-Te tantos benefícios? Ó Jesus, recorremos à Tua própria fonte e Te oferecemos o Teu sangue, as Tuas feridas, o amor infinito do Teu Coração! Ó Virgem santíssima, o que tu sentes ao ouvir a voz do Bom Jesus que te deixa a todos nós como Mãe?

Ó Virgem bendita, nós te agradecemos por isto e, para te agradecer como mereces, oferecemos-te os próprios agradecimentos de teu Jesus. Ó doce Mãe, sejas tu a nossa Mãe; cuida de nós e nunca permitas que te ofendamos, o mínimo sequer. Conserva-nos sempre unidos a Jesus. Com as tuas mãos, vincula-nos todos a Ele, de maneira que nunca mais possamos fugir d’Ele. Com as tuas próprias intenções, quero reparar por todas as ofensas que se fazem ao teu Jesus e a ti mesma, minha terna Mãe!

Ó meu Jesus, enquanto estás imerso em tantas dores, Tu oras ainda mais pela causa da salvação das almas. Não ficarei indiferente diante disto, mas, como pomba, quero levantar voo sobre as Tuas feridas, beijá-las, curá-las e mergulhar em Teu sangue, para poder dizer Contigo: “Almas, almas!”. Quero sustentar a Tua cabeça trespassada e dolorida para Te reparar e Te pedir misericórdia, amor e perdão para todos.

Ó meu Jesus, reina na minha mente e a cura em virtude dos espinhos que trespassaram a Tua cabeça; não permitas que qualquer perturbação entre em mim. Fronte majestosa do meu Jesus, beijo-te. Atrai todos os meus pensamentos para te contemplar e te compreender. Olhos dulcíssimos do meu Bem, ainda que cobertos de sangue, olhai-me; olhai minha miséria, minha debilidade, meu pobre coração e fazei com que eu possa experimentar os efeitos admiráveis do vosso olhar divino. Ouvidos do meu Jesus, apesar de ensurdecidos pelos insultos e pelas blasfêmias dos ímpios, estais à nossa escuta; escutai as minhas orações e não desprezeis as minhas reparações. Sim, escuta, ó Jesus, o grito do meu coração! Então, ele sossegará, quando o tiveres enchido com o Teu amor. Rosto belíssimo do meu Jesus, mostra-te, faz com que eu te veja, a fim de que de todos e de tudo eu desapegue o meu pobre coração. A tua beleza me enamore continuamente e me conserve sempre arrebatado em ti. Boca suavíssima do meu Jesus, falai-me, fazei ressoar sempre a tua voz em mim, e o poder da tua palavra destrua tudo o que não é Vontade de Deus, o que não é amor.

Ó Jesus, estendo meus braços ao Teu pescoço para abraçar-Te e Tu me estendes os Teus braços para me abraçar. Ó meu Bem, por favor, faz com que seja tão intenso este abraço amoroso que nenhuma força humana possa nos desvincular e, assim abraçados, apoiarei o meu rosto em Teu Coração e depois, com confiança, beijarei os Teus lábios e Tu me darás o Teu beijo de amor. Assim, me farás respirar Teu hálito dulcíssimo, Teu amor, Tua vontade, Tuas dores e toda a Tua vida divina. Santíssimos ombros do meu Jesus, sempre fortes e constantes no padecimento por amor a mim, dai-me fortaleza, constância e heroísmo no sofrimento por amor a Ele.

Ó Jesus, não permitas que eu seja inconstante no amor; antes, faz-me parte da Tua imutabilidade! Peito inflamado do meu Jesus, dá-me as Tuas chamas; não as podes conter por mais tempo e o meu coração, com ansiedade, procura-as através daquele sangue e daquelas Chagas. Ó Jesus, aquilo que mais Te atormenta são as chamas do Teu amor; ó meu Bem, torna-me participante delas. Será que não Te compadeces de uma alma tão fria e pobre do Teu amor? Santíssimas mãos do meu Jesus, vós que criastes o Céu e a terra, estais dilaceradas a ponto de não vos poderdes mexer! Ó meu Jesus, continua a Tua Criação: a Criação do amor. Cria, em todo o meu ser, uma vida nova, a vida divina; pronuncia as Tuas palavras no meu pobre coração e transforma-o todo no Teu. Santíssimos pés do meu Jesus, nunca me deixeis sozinho, fazei com que eu corra sempre convosco e não dê sequer um passo longe de vós. Jesus, com o meu amor e as minhas reparações, desejo aliviar-Te das penas que Tu sofres em Teus santíssimos pés.

Ó meu Jesus crucificado, adoro o Teu sangue preciosíssimo! Beijo, uma a uma, as Tuas chagas, desejando incutir nelas todo o meu amor, as minhas adorações e as reparações mais sentidas. Seja o Teu sangue, para todas as almas, luz nas trevas, conforto nas dores, força na fragilidade, perdão na culpa, ajuda nas tentações, defesa nos perigos, sustento na morte e asas para transportá-las desta terra para o Céu.

Ó Jesus, venho a Ti e no Teu Coração faço o meu ninho e a minha morada. De dentro do Teu Coração, ó meu doce Amor, chamarei todos a Ti; e se alguém quiser aproximar-se para Te ofender, exporei o meu peito e não permitirei que Te fira. Ao contrário, eu o fecharei em Teu Coração, falarei do Teu amor e transformarei as ofensas em amor.

Ó Jesus, jamais permitas que eu saia de Teu Coração. Alimenta-me com as Tuas chamas, dá-me vida com a Tua Vida para que eu possa Te amar como Tu mesmo desejas ser amado.

 

Quarta palavra na Cruz

 

Jesus sofredor, enquanto estou abraçado e abandonado em Teu Coração, enumerando as Tuas penas, vejo que um calafrio violento invade a Tua santíssima Humanidade; Teus membros agitam-se como se um quisesse separar-se do outro e, entre convulsões provocadas pelas dores atrozes, Tu bradas com voz forte: “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?”. A este Teu grito, todos tremem; as trevas tornam-se mais densas; a Mãe, petrificada, empalidece e desfalece!

Minha Vida! Meu tudo! Meu Jesus, o que vejo? Ah! Tu estás prestes a morrer. As próprias dores, que Te são tão fiéis, estão prestes a deixar-Te. No entanto, depois de tanto sofrimento, com imensa dor, vês que as almas não estão todas unidas a Ti; antes, vês que muitas delas se perderão e, ao  desvincularem-se de Teus membros, sentes a dolorosa separação. E Tu, devendo satisfazer a Justiça divina também por elas, sentes a morte de cada uma e as próprias penas que sofrerão no Inferno. Gritas com força a todos os corações: “Não me abandoneis; se quiserdes mais penas, estou pronto, mas não vos separeis da Minha Humanidade. Esta é a dor das dores, é a morte das mortes; todo o resto, nada seria para mim, se Eu não padecesse a vossa separação! Tende piedade do Meu sangue, das Minhas Chagas e da Minha Morte! Este grito será contínuo aos vossos corações. Não me abandoneis!”

Meu Amor, quanto sofro Contigo! Tu te afliges; a Tua santíssima cabeça já cai sobre o Teu peito e a vida Te abandona.

Meu Amor, sinto que estou prestes a morrer. Também quero gritar Contigo: “Almas, almas!”. Não me separarei desta cruz, destas feridas, para Te pedir almas e, se Tu quiseres, penetrarei nos corações das criaturas e os circundarei com as Tuas penas, para que não fujam de mim . E, se for possível, eu  me posicionarei à porta do Inferno a fim de recuar as almas para lá destinadas e conduzi-las a Teu Coração. Mas Tu agonizas e Te calas, enquanto eu choro a Tua morte iminente. Ó meu Jesus, tenho compaixão de Ti. Estreito com força Teu Coração ao meu, beijo-o e olho-o com toda a ternura de que sou capaz. E, para Te aliviar mais, faço minha a ternura divina e com ela quero me compadecer de Ti, transformar o meu coração em rios de docilidade e transbordá-lo no Teu para amenizar a amargura que sentes pela perda das almas.

Ó meu Jesus, por meio deste abandono, ainda Te peço que ajudes tantas almas amantes que, para tê-las como companhia em Teu abandono, pareces privá-las de Ti, deixando-as nas trevas. Ó Jesus, as penas destas almas sejam como preces que as chamam para perto de Ti, para te aliviarem em Tua dor.

Reflexões e práticas

 

Jesus perdoa o bom ladrão com tanto amor que, imediatamente, o leva consigo para o Paraíso. E nós, rezamos sempre pelas almas dos que estão para morrer e têm necessidade de uma oração, para que se lhes feche o Inferno e se lhes abram as portas do Céu?

Os sofrimentos de Jesus na cruz aumentam, mas, esquecendo-se de Si mesmo, Ele reza sempre por nós; nada reserva para Si e nos dá tudo, a começar por Sua santíssima Mãe, entregando-nos o que havia de mais precioso em Seu Coração. E nós, damos tudo a Jesus?

Em tudo o que fazemos: orações, ações e outras coisas, temos sempre a intenção de absorver um novo amor, para podermos em seguida dar tudo a Ele? Devemos absorvê-lo para dá-lo, a fim de que tudo o que fizermos tenha o sinal da obra de Jesus.

Quando o Senhor nos dá fervor, luz e amor, usamos tudo isto em benefício do próximo? Procuramos incluir as almas nesta luz e neste fervor para animar o Coração de Jesus a convertê-las? Ou então, com egoísmo, conservamos as Suas graças só para nós?

Ó meu Jesus, cada pequena centelha de amor que sinto em meu coração se transforme num  incêndio que consuma todos os corações das criaturas e as encerre no Teu Coração.

Que uso fazemos do grande dom que nos concedeu na pessoa da sua Mãe? Fazemos nosso o amor de Jesus, as Suas ternuras e tudo o que Ele fazia, para contentar a Sua Mãe? Podemos dizer que a nossa Mãe divina encontra em nós a felicidade que encontrava em Jesus? Estamos sempre próximos como filhos fiéis, obedecemos e imitamos as suas virtudes? Procuramos fazer tudo para  não nos afastarmos de seu olhar materno, para que nos conserve sempre intimamente ligados a Jesus? Em tudo o que fazemos, chamamos os olhares da Mãe celeste para nos orientar, a fim de podermos agir santamente, como filhos verdadeiros, sob seu olhar misericordioso? Para lhe podermos dar a felicidade, como lhe dava o seu Filho, peçamos a Jesus todo o amor que dedicava à Sua santíssima Mãe, a glória que lhe dava continuamente, a ternura e todas as delicadezas de amor. Façamos tudo isto nosso e digamos à Mãe celeste: “Temos Jesus em nós e, para fazer-te feliz e para que tu encontres em nós aquilo que encontravas em Jesus, nós damos tudo a ti. Além disso, Mãe belíssima, queremos dar ainda a Jesus toda a felicidade que Ele encontrava em ti. Por isso, desejamos entrar em teu Coração e tomar o teu amor, toda a tua felicidade, todas as tuas ternuras e cuidados maternais, para dar tudo isto a Ele. Mãe de Jesus e nossa, as tuas mãos maternas sejam as suaves correntes que nos conservam vinculados a ti e a Jesus.”

Jesus não se poupa em nada. Amando-nos com grande amor, gostaria de salvar todos nós e, se fosse possível, quereria arrancar do Inferno todas as almas e padecer todas as suas dores. Não obstante, Ele vê que, com esforço, as almas querem fugir dos Seus braços e, não podendo conter a Sua própria dor, exclama: “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?”. E nós, podemos dizer que o nosso amor pelas almas é semelhante ao de Jesus? Nossas orações, nossas dores e todos os nossos pequenos atos estão unidos aos atos e às preces de Jesus, para arrancar as almas do Inferno? Como temos compaixão de Jesus neste Seu sofrimento imenso? Se a nossa vida se pudesse consumar em um holocausto contínuo, não seria suficiente para consolar esta dor. Cada pequeno ato, esforço, pensamento que fazemos unidos a Jesus pode servir para conquistar almas, para que não caiam no Inferno. Unidos a Jesus, teremos em nossas mãos o Seu próprio poder. Ao contrário, se não realizarmos nossos atos unidos a Ele, estes não servirão sequer para impedir que  uma só alma vá para o Inferno.

Meu Amor e meu tudo, conserva-me intimamente unido ao Teu Coração, a fim de que sinta depressa o quanto o pecador Te entristece ao separar-se de Ti e, assim poder fazer logo a minha parte. Ó meu Jesus, o Teu amor amarre o meu coração para que, abrasado pelo Teu fogo, possa sentir o amor que Tu mesmo tinhas pelas almas. Quando sofro dores, penas e amarguras, então, ó Jesus, desabafa a Tua justiça sobre mim e recebe a satisfação que desejas; mas o pecador, ó Jesus, seja salvo e as minhas dores constituam um vínculo que Te ligue ao pecador, e a minha alma receba a consolação de ver Tua Justiça satisfeita.

 

 

 

Vigésima segunda Hora – Das 2 às 3 da tarde.

Terceira Hora de agonia na Cruz.

Quinta, sexta e sétima palavras de Jesus.

A morte de Jesus.

 

Quinta palavra na Cruz

 

Ó meu Crucificado agonizante, abraçado à cruz sinto o fogo que arde em toda a Tua santíssima Pessoa. Teu Coração bate com tanta força que, elevando as Tuas costelas, Tu Te atormentas de modo tão angustiante e horrível, a ponto de fazer com que toda Tua santíssima Humanidade passe por uma transformação que Te torna irreconhecível. O amor que arde em Teu Coração, seca-Te e queima-Te totalmente. Tu, não conseguindo contê-lo, sentes com vigor o tormento, não só da sede corporal, devido ao derramamento de todo o Teu sangue, mas muito mais da ardente sede da salvação das nossas almas. Como água, desejarias beber-nos para nos salvar a todos dentro de Ti e, por isso, reunindo todas as Tuas forças, bradas: “Tenho sede”. Ah, estas palavras! Tu as repete a todos os corações: “Tenho sede da tua vontade, dos teus afetos, dos teus desejos e do teu amor; não podes dar-Me uma água mais fresca e doce que a tua alma. Por favor, não Me deixes queimar. Tenho sede ardente e, por isso, sinto que não só Me ardem a língua e a garganta, a tal ponto que já não consigo articular sequer uma palavra, mas sinto que ressecam também o Meu Coração e as Minhas vísceras. Tem piedade da Minha sede! Piedade!”. E, como que delirando pela grande sede, abandonas-Te à Vontade do Pai.

Ah, o meu coração não pode mais viver, ao ver a iniquidade de Teus inimigos que, em vez de água, Te dão fel e vinagre, e não os rejeitas! Ah, compreendo! É o fel de tantas culpas, é o vinagre de nossas paixões não controladas que querem Te dar e que, em vez de Te aliviarem, abrasam-Te ainda mais. Ó meu Jesus, eis meu coração, meus pensamentos e meus afetos; eis todo o meu ser, a fim de que sacies a Tua sede e alivies a Tua boca que arde amargurada.

Tudo o que possuo, tudo o que sou, tudo é para Ti, ó meu Jesus. Se fossem necessárias as minhas penas para poder salvar mesmo ao menos uma só alma, eis-me aqui! Estou pronto a sofrer tudo: ofereço-me inteiramente a ti! Faz de mim o que mais Te agradar.

Quero reparar a dor que Tu sofres por todas as almas que se perdem, e o sofrimento que Te provocam as almas que, enquanto Tu permites as tristezas e os abandonos, em vez de oferecerem a Ti o que sofrem para aliviar a sede ardente que Te devora, abandonam-se a si mesmas, fazendo-Te sofrer ainda mais.

 

 

 

Sexta palavra na Cruz

 

Meu bem agonizante, o mar interminável dos Teus sofrimentos, o fogo que Te consome e, acima de tudo, o Querer Supremo do Pai, que quer que Tu morras, não nos dão esperança de que possas continuar a viver. E eu? Como poderei viver sem Ti? As forças abandonam-Te, os olhos apagam-se, o rosto transforma-se e reveste-se de uma palidez mortal. A boca está entreaberta, a respiração é ofegante e interrompida, a tal ponto que já não há esperança que Te possa reanimar. Ao fogo que Te queima, segue-se um calafrio e um suor frio que banha a Tua fronte. Os músculos e os nervos contraem-se cada vez mais devido à atrocidade das dores e pelos pregos que Te trespassam. As chagas alargam-se ainda mais, e eu tremo, sinto-me morrer. Olho para Ti, ó meu bem, e vejo que dos Teus olhos descem as últimas lágrimas, anunciadoras de que a morte está próxima, enquanto, com dificuldade ainda dizes: “Tudo está consumado!”

Ó meu Jesus, já esgotaste tudo e nada Te resta. O amor chegou a seu fim. E eu? Deixei-me consumir  inteiramente por Teu amor? Como poderei agradecer-Te? Como poderei manifestar-Te a minha gratidão? Ó meu Jesus, desejo reparar por todos, reparar a ingratidão ao Teu amor e consolar-Te das afrontas que recebes das criaturas, enquanto estás consumido de amor na cruz.

 

Sétima palavra na Cruz

 

Jesus, meu Crucificado a morrer, já estás prestes a dar os últimos respiros da Tua Vida mortal; Tua santíssima Humanidade já está gélida. Parece que o Teu Coração já não bate. Juntamente com Madalena, abraço Teus pés e, se fosse possível, gostaria de dar a minha vida para animar a Tua.

Entretanto, ó Jesus, vejo que reabres Teus olhos agonizantes e olhas em redor da cruz, como se quisesses dar o último adeus a todos. Olhas para Tua Mãe dolorosa, que não se move e silenciosa devido às intensas dores que sente, e então dizes: “Adeus, Mãe. Parto, mas Te conservarei em Meu Coração. Cuida dos Meus e de teus filhos”. Olhas para a Madalena chorosa , para o fiel João e para os Teus próprios inimigos e, com Teus olhares, dizes: “Eu vos perdoo e vos dou o beijo da paz”. Nada escapa ao Teu olhar. De todos Te despedes e perdoas todos. Depois, reúnes todas as Tuas forças e, com voz forte e impetuosa, gritas: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito!”. E, inclinando a cabeça, expiras.

Meu Jesus, depois deste grito toda a natureza se agita e chora a Tua morte, a morte do seu Criador! A terra treme com força e, ao tremer, parece que chora e quer despertar as almas para Te reconhecerem como verdadeiro Deus. O véu do Templo rasga-se, os mortos ressuscitam, o sol, que  até então chorava Tuas dores, retirou com terror a sua própria luz. A este grito, Teus inimigos ajoelham-se, batem no peito e dizem: “Verdadeiramente Ele é o Filho de Deus!”. E Tua Mãe, estática e agonizante, sofre penas mais dolorosas que a morte.

Meu Jesus morto! Com este brado, também nos entregas a todos nas mãos do Pai, a fim de que não nos rejeite. Por isso, gritas forte, não só com a voz, mas com todos os Teus padecimentos e com as vozes do Teu sangue: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito e todas as almas!”. Meu Jesus, também me abandono em Ti. Dá-me a graça de morrer totalmente no Teu amor, na Tua Vontade, enquanto Te peço que nunca permitas que, nem em vida nem na morte, eu me afaste de Tua santíssima Vontade. Entretanto, quero reparar por todos aqueles que não se abandonam perfeitamente à Tua santíssima Vontade, perdendo assim ou desperdiçando o precioso fruto da Tua Redenção. Qual não será a dor do Teu Coração, ó meu Jesus, ao ver tantas criaturas que evitam  Teus braços e se abandonam a si mesmas? Ó meu Jesus, tem piedade de todos, tem piedade de mim.

Beijo a Tua cabeça coroada de espinhos e Te peço perdão por tantos pensamentos meus de soberba, de ambição e de amor-próprio, enquanto Te prometo que, todas as vezes que me vier um pensamento que não for totalmente para ti, ó Jesus, e me encontrar em ocasiões de Te ofender, gritarei depressa: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó Jesus, beijo Teus lindos olhos ainda molhados de lágrimas e cobertos de sangue coagulado.  Peço-Te perdão por todas as vezes que te ofendi com olhares perversos e imodestos; prometo-Te que todas as vezes que os meus olhos forem levados a observar coisas da terra, bradarei imediatamente: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó meu Jesus, beijo os Teus sacratíssimos ouvidos, ensurdecidos até os últimos momentos por insultos e horríveis blasfêmias. Peço-Te perdão por tantas vezes que ouvi ou fiz ouvir conversas que nos afastam de Ti; por todas as conversas perversas das criaturas. Prometo-Te que, todas as vezes que tiver a ocasião de ouvir conversas que não convêm, depressa bradarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó meu Jesus, beijo o Teu santíssimo rosto, pálido, inchado e ensanguentado. Peço-Te perdão por tantos desprezos, afrontas e insultos que recebes de nós, criaturas extremamente vis, mediante os nossos pecados. Prometo-Te que, cada vez que me vier a tentação de não dar a ti toda a glória, o amor e a adoração que Te são devidos, logo gritarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó meu Jesus, beijo a Tua sacratíssima boca seca e amarga. Peço-Te perdão por todas as vezes que Te ofendi com as minhas conversas negativas, pelas vezes que ajudei a entristecer-Te e a fazer aumentar a Tua sede. Prometo-Te que, cada vez que me vier o pensamento de começar a dizer coisas que possam Te ofender, depressa bradarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó meu Jesus, beijo o Teu santíssimo pescoço e vejo, ainda, os sinais das correntes e das cordas que Te oprimiram. Peço-Te perdão por todos os vínculos e apegos das criaturas, que acrescentaram cadeias e cordas ao Teu sacratíssimo pescoço. Prometo-Te que, todas as vezes que me sentir inquieto devido a apegos, desejos e afetos que não sejam por Ti, gritarei logo: “Jesus e Maria, recomendo-Vos a minha alma!”

Meu Jesus, beijo os Teus santíssimos ombros e Te peço perdão por tantas satisfações ilícitas, pelos muitos pecados cometidos com os cinco sentidos do meu corpo. Prometo-Te que, todas as vezes que me vier o pensamento de me apegar a algum prazer ou satisfação que não seja para a Tua glória, depressa bradarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Meu Jesus, beijo o Teu santíssimo peito e peço-Te perdão por todas as horrendas insensibilidades, indiferenças, friezas e ingratidões que recebes das criaturas e prometo-Te que, todas as vezes que sentir arrefecido o meu amor por Ti, logo gritarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!

Meu Jesus, beijo as Tuas sacratíssimas mãos. Peço-Te perdão por todas as obras más e indiferentes, por tantos atos pervertidos, pelo amor-próprio e pela estima pessoal. Prometo-te que todas as vezes que me vier o pensamento de não agir somente em função do Teu amor, bradarei imediatamente: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó meu Jesus, beijo os Teus santíssimos pés e Te peço perdão por tantos passos, tantos caminhos percorridos sem a reta intenção, por tantas pessoas que se afastam de Ti para ir em busca de prazeres terrenos. Prometo-Te que, todas as vezes que me vier o pensamento de me afastar de Ti, depressa gritarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

Ó Jesus, beijo o Teu sacratíssimo Coração e nele, com a minha alma, desejo encerrar todas as almas que redimiste, para que todas sejam salvas, sem qualquer exceção.

Ó Jesus, encerra-me em Teu Coração e fecha as portas a fim de que eu só possa ver a Ti. Prometo-Te que, todas as vezes que me vier o pensamento de querer sair deste Coração, logo bradarei: “Jesus e Maria, recomendo-vos a minha alma!”

 

Reflexões e práticas

 

Jesus arde de sede. E nós, ardemos de amor por Jesus? Os nossos pensamentos e afetos têm sempre a finalidade de saciar a Sua sede ardente?

Jesus sedento, não conseguindo aguentar mais a sede que O queima, acrescenta: “Tudo está consumado!”. Portanto, Jesus consumiu-se por todos nós. E nós, esforçamo-nos em tudo para ser uma constante consumação de amor a Jesus? Cada ato, palavra e pensamento conduziam Jesus à consumação. E cada ato nosso, palavra e pensamento nos impele a nos consumarmos por amor de Jesus?

Ó Jesus, minha doce Vida, o Teu hálito consumado sopre sempre em meu pobre coração para poder receber o sinal de Tua consumação.

Na cruz, Jesus cumpre em tudo a Vontade do Pai e expira com um perfeito ato de abandono na Sua santíssima Vontade. E nós, realizamos em tudo a Vontade de Deus? Abandonamo-nos perfeitamente na Sua Vontade, sem considerar se obtemos bom êxito ou fracassamos, felizes unicamente por estarmos abandonados nos Seus santíssimos braços? O morrer a nós mesmos é  contínuo por amor a Jesus? Podemos dizer que, embora vivamos, não vivemos; que morremos para tudo, a fim de viver, não de nossa vida, mas somente da vida de Jesus? Ou seja, tudo o que fazemos, que pensamos, que desejamos e amamos reflete em nós a vida de Jesus, para fazer morrer nossa palavra, nosso passo, nosso desejo e nosso pensamento, tudo em Jesus?

Ó meu Jesus, a minha morte seja uma morte constante por amor a Ti, e cada morte que padeço seja uma vida que tenciono dar a todas as almas!

 

 

 

Vigésima Terceira Hora – Das 3 às 4 da tarde

Jesus morto é trespassado com um golpe de lança.

 

A deposição da Cruz

 

Meu Jesus morto, toda a natureza lançou um brado de dor quando expiraste, e chorou a Tua morte dolorosa, reconhecendo em Ti o seu Criador. Milhares de Anjos sobrevoam em volta da cruz e choram a Tua morte. Eles Te adoram como nosso verdadeiro Deus e Te acompanham ao Limbo, aonde vais beatificar tantas almas que, desde há séculos, aspiram ardentemente por Ti. Meu Jesus morto, não consigo separar-me de Tua cruz, nem me sacio de beijar e voltar a beijar Tuas santíssimas chagas, que me falam com eloquência de quanto Me amaste. Ao ver as dilacerações horríveis, a profundidade de Tuas feridas que deixam descoberto os Teus ossos, sinto que estou prestes a morrer! Gostaria de chorar muito sobre estas feridas, para lavá-las com minhas lágrimas! Quereria amar-Te muito, para curar-Te totalmente com meu amor e devolver a beleza natural à Tua Humanidade irreconhecível! Gostaria de ficar sem um pingo de sangue para encher as Tuas veias vazias com o meu sangue e chamar-Te de novo à vida.

Ó meu Jesus, o que é que o amor não pode fazer? O amor é vida. E eu, com meu amor, quero dar-Te vida e, se o meu não é suficiente, dá-me o Teu amor; com ele tudo poderei; sim, poderei dar vida à Tua santíssima Humanidade. Ó meu Jesus, mesmo depois de morto desejas mostrar-me que me amas, atestar-me o Teu amor e dar-me refúgio, reservando-me abrigo no Teu sagrado Coração. Por isso, impelido por uma força suprema e para ter certeza de Tua morte, um soldado trespassa o Teu Coração com uma lança, abrindo em Ti uma ferida profunda. E Tu, meu Amor, derramas as últimas gotas de sangue e água, contidas em Teu ardente Coração.

Ah, quantas coisas me diz esta chaga aberta pelo amor! E se a Tua boca emudece, é o Teu Coração que me fala, dizendo: “Meu filho, depois de ter dado tudo, desejei ser trespassado por esta lança, a fim de criar um refúgio para todas as almas neste Meu Coração. Aberto, ele gritará continuamente a todos: ‘Vinde a Mim se quiserdes ser salvos!’. Neste Coração encontrareis a santidade e sereis santos, achareis alívio nas aflições, força na debilidade, paz nas dúvidas e   companhia no abandono. Ó almas que Me amais, se quiserdes amar-Me verdadeiramente, vinde habitar sempre neste Coração; aqui encontrareis o amor verdadeiro para Me amar, chamas intensas para arder-vos e consumar-vos de amor. Tudo se centraliza neste Coração; aqui estão contidos os Sacramentos, a Minha Igreja, a vida da Minha Igreja e a vida de todas as almas. Nele sinto também as profanações que se fazem contra a Minha Igreja, as tramas dos inimigos, as setas que lhe lançam, Meus filhos espezinhados, porque não há ofensa que este Meu Coração não sinta. Então, Meu filho, a Tua vida esteja neste Meu Coração; defende-Me, repara-Me e conduz todos para ele.”

Meu amor, se uma lança feriu o Teu Coração por mim, rogo-Te que, também tu, com as Tuas mãos, atinja meu coração, meus afetos, meus desejos e todo o meu ser; não haja nada em mim que não seja ferido por Teu amor. Uno tudo às penas angustiantes da nossa amada Mãe que, pela dor, ao ver dilacerar-se o Teu Coração, desfalece de dor e amor e, como pomba, voa para ele, a ocupar o primeiro lugar, para ser a primeira Reparadora, a Rainha do Teu próprio Coração, a medianeira entre Ti e as criaturas. Também eu quero voar com a minha Mãe ao Teu Coração, para escutar como ela Te repara, e repetir as Tuas reparações por todas as ofensas que Tu recebes. Ó meu Jesus, reencontrarei a minha vida neste Teu Coração ferido; assim, em qualquer coisa que tiver de fazer, beberei sempre dele. Não darei mais vida aos pensamentos, mas se eles quiserem viver, tomarei os Teus. A minha vontade deixará de viver, mas se ela quiser ter vida, tomarei a Tua santíssima Vontade; o meu amor não terá mais vida, mas se ele quiser viver, tomarei o Teu amor. Ó meu Jesus, toda a Tua vida é minha. Esta é a Tua Vontade, esta é a minha vontade.

 

Jesus é deposto da Cruz

 

Meu Jesus morto, vejo que os Teus discípulos se apressam a depor-Te da cruz; José de Arimateia e Nicodemos, que até então ficaram escondidos, agora, com coragem e sem nada temer, querem dar-Te uma sepultura honrosa e, por isso, recorrem a martelos e torqueses para realizarem o ato sagrado e triste de Te despregarem da cruz, enquanto a Tua dolorosa Mãe estende seus braços maternais para Te receber no colo.

Meu Jesus, enquanto Te despregam, quero ajudar também Teus discípulos a apoiar o Teu santíssimo Corpo e, com os pregos que Te são tirados, prega-me totalmente a Ti e, com a Tua santa Mãe, quero adorar-Te, beijar-Te e depois fechar-me em Teu Coração para nunca mais sair dele.

 

Reflexões e práticas

 

Depois de sua morte, Jesus, por nosso amor, quis ser ferido por uma lança. E nós, deixamo-nos ferir inteiramente pelo amor de Jesus? Ou então nos deixamos ferir pelo amor das criaturas, pelos prazeres e pelo apego a nós mesmos? Também a insensibilidade, a obscuridade e as mortificações interiores e exteriores são chagas que o Senhor suscita à alma. Se não as recebermos das mãos de Deus, ferimo-nos a nós mesmos e as nossas feridas aumentam as paixões, as fraquezas, o amor- próprio e, enfim, todo o mal. Ao contrário, se as recebemos como feridas provocadas por Jesus, nestas feridas Ele colocará o Seu amor, Suas virtudes e Sua semelhança, que nos farão merecer Seus beijos, Suas carícias e todos os planos do Amor Divino. Estas feridas serão vozes contínuas que O invocarão e O farão ficar sempre conosco.

Ó meu Jesus, a Tua lança seja a minha sentinela e me defenda das feridas de todas as criaturas.

Jesus deixa-Se depor da cruz e colocar-Se nos braços da Mãe. E nós, depomos nas mãos da nossa Mãe todos os nossos temores, nossas dúvidas e nossas ansiedades? Jesus repousou no colo da Mãe divina. E nós, permitimos que Jesus descanse, afastando os nossos medos e as nossas agitações?

Minha Mãe, com as tuas mãos maternais, priva o meu coração de tudo o que possa impedir que Jesus descanse em mim.

 

 

 

Vigésima quarta Hora – Das 4 às 5 da tarde.

A sepultura de Jesus.

Maria santíssima desolada

 

Minha Mãe dolorosa, vejo que Te dispõe ao último sacrifício de ter que dar uma sepultura a Jesus, teu Filho morto. Completamente resignada à Vontade de Deus, acompanha-O e, com as tuas próprias mãos, coloca-O no sepulcro; mas, enquanto ajeitas aqueles membros e te preparas para dar-Lhe o último beijo e o último adeus, a tua dor é tanta que sentes como se arrancassem o Coração do teu peito. O amor te faz debruçar sobre aqueles membros e, em virtude do amor e da dor, a tua vida está para terminar, juntamente com o teu Filho morto. Pobre Mãe, como viverás sem Jesus? É a tua vida, o teu tudo. No entanto, esta é a Vontade do Eterno. Deverás combater com dois poderes insuperáveis: o amor e o Querer Divino. O amor te une, de maneira que não te podes separar; o Querer Divino impõe-se e pede o sacrifício. Pobre Mãe, como viverás? Quanta compaixão tenho de ti! Por favor, Anjos do Céu, vinde ajudá-la a separar-se dos membros petrificados de Jesus; de outro modo, ela morrerá!

Mas, ó milagre! Enquanto parecia que estava morta com Jesus, ouço a sua voz trêmula e interrompida pelos soluços, que diz: “Meu Filho amado, o único alívio que me restava e que diminuía as minhas dores, era a Tua santíssima Humanidade. Podia me lançar sobre estas chagas, adorando-as e beijando-as. Agora, até disto sou impedida, porque é assim que o Querer Divino quer, e eu aceito. Mas Tu sabes, Filho, que quero e não consigo. Só o pensar em me separar de Ti, já me deixa sem forças e sem vida. Por favor, ó Filho, para ter vida e força para me separar, permite-me que permaneça totalmente sepultada em Ti e que faça minha a Tua vida, Tuas dores,  Tuas reparações e tudo aquilo que Tu és. Ah, só uma troca de vida, entre mim e Ti, poderá dar-me força para fazer o sacrifício de me separar de Ti!”

Minha Mãe, com decisão, vejo-te acariciar, de novo, aqueles membros e encostar a tua cabeça à de Jesus; ao beijá-la, encerras nela os teus pensamentos e fazes teus os Seus espinhos, Seus pensamentos aflitos e ofendidos e tudo aquilo que sofreu na Sua santíssima cabeça. Oh, como quererias animar a inteligência de Jesus com a tua, para poderes dar vida por vida! Ao fazeres teus os pensamentos e os espinhos de Jesus, começaste a viver de novo.

Mãe dolorosa, vejo que beijas os olhos fechados de Jesus e sinto uma dor profunda ao ver que Jesus já não te olha. Quantas vezes os Seus olhares te enchiam do Paraíso e te faziam passar da morte para a vida. E, agora, percebendo que não és observada, sentes que estás prestes a morrer! Por isso, nos olhos de Jesus deixas os teus e tomas para ti os Seus, as suas lágrimas e amarguras ao ver as ofensas das criaturas, os inumeráveis insultos e desprezos.

Mas vejo, minha Mãe trespassada, que beijas os Seus santíssimos ouvidos; O chamas e volta a chamá-Lo, dizendo: “Meu Filho, é possível que já não me escutas? Tu que prestavas atenção ao menor dos meus gestos? E agora choro, chamo-Te e não me ouves? Ah, o amor é o tirano mais cruel! Tu eras para mim, mais que a minha própria vida. E agora deverei sobreviver a tanta dor? Por isso, ó Filho, deixo o meu ouvido no Teu e tomo para mim aquilo que padeceu o Teu santíssimo ouvido, o eco de todas as ofensas que nele ressoava. Só isto me pode dar vida: Tuas penas, Tuas dores”. E, enquanto dizes isto, a dor e a angústia de teu Coração são tão fortes, que perdes a voz e emudeces. Minha pobre Mãe! Minha pobre Mãe! Como tenho compaixão de ti! Quantas mortes cruéis padeces!

Mas o Querer Divino impõe-se e reanima-te. Tu olhas o santíssimo rosto de Jesus, beija-o e exclamas: “Adorado Filho, como estás desfigurado! Ah, estás tão irreconhecível que se o amor não me dissesse que é meu Filho, minha vida, meu tudo, já não Te reconheceria! Tua beleza transformou-se em deformidade, a Tua face em inchaços. A luz e a graça do Teu rosto, tamanhas a ponto que, ver-Te e ficar radiante eram a mesma coisa, mudou-se em palidez de morte, ó amado Filho. Filho, como estás destruído! Que horrenda mutilação o pecado provocou aos Teus santíssimos membros! Ah, como a Tua Mãe inseparável gostaria de Te devolver a Tua beleza primeira! Quero fundir o meu rosto no Teu e fazer meu o Teu, com as bofetadas, os escarros, os desprezos e tudo o que sofreste no Teu santíssimo rosto. Ah, Filho! Se me queres viva, dá-me as Tuas dores, se não, eu morro!”

Tua dor é tanta, que te sufoca, tira-te a palavra e permaneces como morta diante do rosto de Jesus. Pobre Mãe, como tenho compaixão de ti! Meus Anjos, vinde aliviar a minha Mãe! Sua dor é imensa, inunda-a, sufoca-a e nela não há mais vida nem força. Mas o Querer Divino, rompendo estas ondas, devolve-lhe a vida.

Aproxima-te da boca de Jesus e, beijando-a, sentes os teus lábios amargurarem com o fel que tanto amargou a Sua boca e, soluçando, continuas: Ó Filho, diz uma última palavra à Tua Mãe. Será possível que não poderei mais ouvir a Tua voz? Todas as palavras que me disseste durante a vida, como tantas flechas, ferem o meu coração de dor e de amor. E, agora, vendo-Te sem voz, colocam-se novamente em movimento no meu coração dilacerado, provocam-me muitas mortes e, à viva força, desejariam arrancar-Te uma última palavra Tua. Mas não a conseguindo, angustiam-me e me dizem: ‘Já não O escutarás, não ouvirás mais a Sua doce pronúncia, a melodia de Sua palavra criadora!’. Quantas palavras pronunciava, quantos Paraísos criavas em mim.  Ah, o meu Paraíso terminou e só terei amarguras! Ah, Filho, quero dar-Te a minha língua para animar a Tua. Dá-me o que Tu padeceste na Tua santíssima boca, a amargura do fel, a Tua sede ardente, as Tuas reparações e preces. E, ouvindo assim, a Tua voz por meio destas, minha dor será mais suportável, e a Tua Mãe poderá viver mediante as Tuas dores.”

Mãe dolorosa, vejo que te apressas, porque quem está ao teu redor quer fechar o sepulcro e, de repente, colocas as mãos de Jesus entre as tuas, beija-as, aperta-as ao teu Coração e, colocando as tuas mãos nas Suas, tomas para ti as dores e os trespasses daquelas santíssimas mãos. Depois, chegas aos pés de Jesus, olhando a dilaceração cruel que os pregos Lhes provocaram e, enquanto ali depões os teus, tomas para ti aquelas chagas e Te ofereces, no lugar de Jesus, para correr até os pecadores, para arrancá-los do Inferno.

Mãe aflita, vejo que dás o último adeus ao Coração trespassado de Jesus. Aqui, fazes uma pausa. É o último assalto ao teu Coração maternal. Sentes que teu Coração é arrancado do teu peito, pela força do amor e da dor e, por ele mesmo, foge para colocar-se, então, no santíssimo Coração de Jesus. E, vendo-te sem Coração, tu te apressas para receber no teu o Seu sacratíssimo Coração, Seu amor rejeitado por tantas criaturas, os inúmeros desejos ardentes deixados de realizar devido às suas ingratidões, as dores e os trespasses daquele santíssimo Coração, que te conservarão crucificada durante toda a tua vida. E, olhando a grande chaga, beija-a, saboreando o seu sangue e, sentindo em ti a vida de Jesus, tens a força de realizar a triste separação. Depois, abraçando-O, permites que coloquem a pedra do sepulcro.

Minha Mãe dolorosa, chorando, rogo-te para que, agora, não permitas que Jesus seja afastado do nosso olhar. Espera que, antes, recolha-me em Jesus, para receber em mim a Sua vida. Se tu que és a Imaculada, toda santa, a cheia de graça, não podes viver sem Jesus, muito menos eu, que sou fraco, miserável, repleto de pecados. Como posso viver sem Jesus? Mãe dolorosa, não me deixes sozinho, leva-me contigo, mas antes, depõe-me totalmente em Jesus, esvazia-me de tudo para poder inserir Jesus inteiro em mim, como o puseste em Ti. Começa por mim a tarefa maternal que Jesus te confiou na cruz e, penetrando no teu Coração materno a minha pobreza extrema, com as tuas próprias mãos enclausura-me totalmente em Jesus.

Encerra em minha mente os pensamentos de Jesus, a fim de que nenhum outro pensamento entre em mim. Veda os olhos de Jesus nos meus, a fim de que nunca possam fugir ao meu olhar, e o Seu ouvido no meu, para que sempre o acolha e em tudo faça a Sua santíssima Vontade. Depõe a Sua Vontade na minha a fim de que, admirando-O tão desfigurado por amor a mim, eu O ame, me compadeça d’Ele e repare. Une a Sua língua na minha, para que eu fale, reze e ensine com a língua de Jesus. Coloca as Suas mãos nas minhas, para que cada movimento que faça e cada obra que realize receba vida das obras e das ações de Jesus; Coloca os seus pés nos meus, a fim de que cada um dos meus passos seja, para as outras criaturas, uma vida de salvação, de força e de zelo.

E agora, minha Mãe aflita, permite-me que beije o Coração de Jesus e absorva o Seu preciosíssimo sangue e tu, recolhendo o Coração de Jesus no meu, possa eu viver do seu amor, de seus desejos e das suas penas. Enfim, toma a fria mão direita de Jesus, a fim de que me dê a última bênção.

A pedra fecha o sepulcro e tu, angustiada, beija-O e, chorando, tu Lhe dás o último adeus e vais embora. Mas a tua dor é tanta que, em certos momentos, ficas paralisada e gelada. Minha Mãe trespassada, contigo digo adeus a Jesus e, chorando, quero compadecer-me de ti e acompanhar-te em tua triste desolação. Desejo colocar-me ao teu lado para te dar, a cada um dos teus suspiros, respiros e sofrimentos, uma palavra de conforto, um olhar de compaixão. Recolherei as tuas lágrimas e te sustentarei em meus braços, caso te veja desfalecer.

Mas vejo que és obrigada a regressar a Jerusalém pelo caminho por onde vieste. Depois de dares alguns passos,  já te encontras diante da cruz, na qual Jesus tanto sofreu e depois morreu. Corres a abraçá-la e, vendo-te manchada de sangue, renovam-se no teu Coração, um por um, os sofrimentos que Jesus nela padeceu; e, não podendo conter a tua dor, exclamas entre soluços:

“Ó cruz, por que foste tão cruel com o meu Filho? Ah, em nada o poupaste! Que mal te fez? A mim, Mãe dolorosa, não me permitiste que lhe desse nem sequer um gole de água quando o pedia. E, para matar a Sua sede, deste-lhe fel e vinagre! Sinto o meu coração trespassado desfazer-se em água; gostaria de o ter aproximado de Seus lábios para Lhe saciar a sede e sofri ao ser afastada. Ó cruz, cruel sim, mas santa, porque foste divinizada e santificada pelo contato com o meu Filho! Pela crueldade que usaste para com Ele, dá-lhe, em troca, compaixão pelos pobres mortais e pelas dores que sofreu sobre ti; alcança graça e força para as almas que sofrem, a fim de que nenhuma delas se perca por causa de tribulações e cruzes. As almas custam-me muito; custam-me a vida de um Filho Deus, e eu, como corredentora e Mãe, uno-as a ti, ó cruz!”

E beijando-a e voltando a beijá-la, partes. Pobre Mãe, quanta compaixão tenho de ti! A cada passo e encontro surgem novas dores que, crescendo na sua imensidade e tornando-se mais amargas,  inundam-te, afogam-te e, a cada instante, sentes que estás para morrer. E eis que já chegastes no lugar onde, pela manhã, tu O encontraste exausto debaixo do enorme peso da cruz, derramando sangue e com um feixe de espinhos na cabeça a qual, ao bater-se contra a cruz, penetravam profundamente provocando-Lhe dores mortais a cada empurrão. O olhar de Jesus, cruzando-se com o teu, buscava piedade, mas os soldados, para impedir-vos este alívio, empurraram-no provocando a sua queda e um novo derramamento de sangue. Tu vês o terreno impregnado de sangue, lanças-te ao chão e, enquanto beijas aquele sangue, ouço que dizes:  “Meus Anjos, vinde fazer guarda a este sangue, a fim de que não seja pisada nem profanada sequer uma só gota.”

Mãe dolorosa, deixa que te dê a mão para erguer-te e aliviar-te, porque, vendo o sangue de Jesus, perdes a força. Assim que caminhas, logo encontras novas dores; em toda a parte vês traços de sangue, recordas as dores de Jesus e depois apressas o passo e te recolhes no Cenáculo. Também eu me recolho no Cenáculo, mas o meu Cenáculo é o santíssimo Coração de Jesus e dali quero chegar a ti para fazer-te companhia nesta hora de triste desolação. O meu coração não suporta deixar-te sozinha em tanto sofrimento.

Mas sinto-me trespassado ao ver que, assim que movimentas a cabeça, sentes penetrarem em ti os espinhos que tomaste de Jesus, as pontadas de todos os nossos pecados de pensamento que, penetrando até nos teus olhos, te fazem chorar lágrimas de sangue. E tendo nos teus olhos os olhos de Jesus, diante do teu olhar passam todas as ofensas das criaturas. Como ficas amargurada com isto! Como compreendes bem o que Jesus sofreu, tendo em ti as suas próprias dores! Mas uma dor não espera pela outra. Quando escutas, ficas ensurdecida pelo eco das vozes das criaturas e pela variedade destas ofensas que, chegando ao teu Coração, te perfuram, enquanto tu repetes: “Filho, como sofreste!”

Mãe desolada, quanta compaixão tenho de ti! Permite-me enxugar o teu rosto molhado de lágrimas e de sangue. Mas recuo ao vê-lo todo inchado, irreconhecível e pálido, de uma palidez mortal. Compreendo: são os maus tratos de Jesus que assumiste, os quais te fazem sofrer de tal modo que, quando moves os lábios em oração ou quando respiras com o teu peito em chamas, sentes o hálito amargo e os lábios secos pela sede de Jesus. Pobre Mãe, como tenho compaixão de ti! As tuas dores aumentam cada vez mais e, tomando tuas mãos nas minhas, vejo que estão trespassadas pelos pregos. É nas mãos que sentes a dor e vês os homicídios, as traições, os sacrifícios e todas as obras perversas, que repetem os golpes, alargando as chagas e tornando-as cada vez mais dolorosas. Quanta compaixão tenho de ti! És a verdadeira Mãe crucificada, de tal forma que nem sequer os pés ficam sem os pregos. Aliás, tu não só sentes serem pregados, mas como que dilacerados por tantos passos iníquos e pelas almas que vão para o Inferno. E tu corres para perto delas, para que não caiam nas chamas infernais.

Mas isto não é tudo, Mãe trespassada. Todas as tuas dores reunidas fazem eco no teu Coração e o trespassam, não com sete espadas, mas com milhares de espadas; Além do mais, tendo em ti o Divino Coração de Jesus, que contém todos os corações, e cuja palpitação envolve as palpitações de todos assim que palpitas, diz: “Almas! Amor!”. E tua palpitação: “Almas!”. Sentes todos os pecados fluírem na tua palpitação e te sente condenada à morte. E na  palpitação “Amor!”. sentes receber a vida. Deste modo, tu te encontras em contínuo ato de morte e de vida.

Mãe crucificada, olhando-te tenho compaixão de ti e das tuas dores; elas são indescritíveis. Gostaria de transformar meu ser em língua e voz para compadecer-me de ti, mas o meu compadecimento nada é diante de tanta dor. Por isso, chamo os Anjos, a própria Santíssima Trindade, e rezo para que coloquem, à tua volta, suas harmonias, suas satisfações e sua beleza, para abrandar e compadecer-se das tuas dores intensas. Que te amparem em seus braços e te paguem com amor todos os teus sofrimentos.

E agora, desolada Mãe, agradeço-te em nome de todos, por tudo o que sofreste e peço-te, por tua triste desolação, que me assistas no momento de minha morte. Quando estiver sozinho e abandonado por todos, no meio de mil ânsias e temores, vem retribuir-me a companhia que tantas vezes te fiz durante a vida. Vem assistir-me, coloca-me ao teu lado e afugenta o inimigo. Purifica a minha alma com tuas lágrimas, cobre-me com o sangue de Jesus, reveste-me com os seus méritos. Embeleza-me e cura-me com tuas dores e com todas as penas e obras de Jesus e, em virtude delas, faz desaparecer todos os meus pecados, concedendo-me o perdão total. E, ao expirar, recebe-me em teus braços, abriga-me debaixo de teu manto, esconde-me do olhar do inimigo, leva-me depressa para o Céu e deposita-me nos braços de Jesus. Estamos entendidos, minha querida Mãe?

E agora, peço-te que faças companhia a todos os agonizantes, em retribuição à companhia que te fiz hoje. Sê a Mãe de todos. São momentos extremos e necessitam de grandes auxílios. Por isso, não negues a ninguém o teu cuidado maternal.

Uma última palavra: ao deixar-te, peço-te que me introduzas no sacratíssimo Coração de Jesus e tu, minha Mãe das dores, sê minha sentinela a fim de que Jesus não me tire daí, e eu, mesmo que queira, não possa sair. Por isso, beijo a tua mão materna; e tu, abençoa-me.

 

Nos cum prole pia, benedicat Virgo Maria!

Com seu piedoso Filho, abençoa-nos, Virgem Maria!

 

 

 

 

Reflexões e práticas

 

Jesus é sepultado. Uma pedra guarda-O e impede que a Mãe volte a admirar o seu Filho. E nós, escondemo-nos do olhar das criaturas, somos indiferentes se todos nos esquecem? Nas coisas santas, permanecemos indiferentes, com aquela santa indiferença que não nos faz transgredir nada? No abandono total de Jesus, vencemos tudo com a santa indiferença que nos leva continuamente até Ele? E com nossa perseverança, fazemos uma suave corrente para O atrair a nós? Nosso olhar está sepultado no olhar de Jesus, de forma a olharmos somente aquilo que Jesus quer? Nossa voz está sepultada na voz de Jesus de tal forma que, se quisermos falar, só falamos com a língua de Jesus? Nossos passos estão sepultados nos Seus, de modo que, quando caminhamos, fiquem os sinais, não dos nossos, mas dos passos de Jesus? E  o nosso coração está sepultado no de Jesus, para poder amar e desejar, como o Seu Coração ama e deseja?

Minha Mãe, quando Jesus, para o bem da minha alma, esconde-se de mim, concede-me a graça que tu possuías na privação d’Ele, a fim de que eu Lhe possa dar toda a glória que Lhe deste, quando Ele foi deposto no Sepulcro.

Ó Jesus, quero rezar com Tua voz e, assim como Tua voz penetrava nos Céus e se repercutia nas vozes de todos, assim a minha, prestando honra à Tua própria voz, chegue também nos Céus para Te dar a glória e o amor da Tua própria palavra.

Meu Jesus, meu coração palpita, mas não estou feliz se não me fazes palpitar com o Teu Coração e, com a Tua palpitação, amarei como Tu amas. Eu irei Te dar o amor de todas as criaturas e haverá um só grito: “Amor, Amor!…” Ó meu Jesus, faz honra a Ti mesmo e, em tudo aquilo que eu faço, coloca o selo do Teu próprio poder, do Teu amor e da Tua glória!

 

 

 

 

Oração à Santíssima Trindade para pedir a glorificação da Serva de Deus Luísa Piccarreta

 

 

“Ó Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito

Santo, louvamos-Te, e damos-Te

graças pelo dom da santidade da

tua Serva fiel Luísa Piccarreta.

Pai, ela viveu na Tua Divina Vontade,

movendo-se sob a ação do Espírito Santo,

conforme ao Teu Filho, obediente até à

Morte de Cruz, Vítima e Hóstia a Ti agradável,

cooperando na obra da Redenção

do gênero humano.

As suas virtudes de obediência, de humildade,

de amor total a Cristo e à Igreja

levam-nos a pedir-Te o dom da sua glorificação

na Terra, para que resplandeça

diante de todos a Tua Glória, e que o Teu

Reino de Verdade, de Justiça e de Amor

se difunda, até aos confins da terra, através

do carisma particular do Fiat Voluntas

Tua sicut in Caelo et in terra.

Recorremos aos Teus méritos para obter

de Ti, Santíssima Trindade, a graça particular

que Te pedimos com a intenção de

cumprir a Tua Divina Vontade. Amém.

 

Concluir esta oração rezando um Pai Nosso,

Três Glórias e uma Ave Maria.

 

 

+ Giovan Battista Pichierri Arcebispo de Trani-Bisceglie-Barlettta

Trani, 29 de Outubro de 2005