“O mistério da encarnação do Filho de Deus e da maternidade de Maria é tão grande que exige um processo de interiorização […] Maria viveu plenamente a sua existência, os seus deveres cotidianos, a sua missão de Mãe, mas soube manter em si um espaço interior para meditar sobre a palavra e a vontade de Deus, sobre o que se realizava nela, sobre os mistérios da vida do seu Filho” (Papa Bento XVI, audiência Geral, 17 de agosto de 2011).

Os Nove Excessos de Amor na Encarnação do Verbo

Preparemo-nos para a Grande Festa do Santo Natal meditando o Mistério da Encarnação do Verbo, atenta e continuamente, durante o Tempo do Advento, com a Novena Os Nove Excessos de Amor, a qual Luísa Piccarreta fez pela primeira vez aos dezessete anos, e a qual ela nunca abandonou durante toda a sua vida.

Deus nos conceda abundantes graças, luz e amor que nos consome para renascermos com Ele na Vida da Divina Vontade.

Luísa Piccarreta: “Com uma Novena do Santo Natal, com cerca de dezessete anos, preparava-me para a festa do Santo Natal, praticando vários atos de virtude e mortificação, especialmente, honrando os nove meses que Jesus esteve no seio materno, com nove horas de meditação por dia, relacionadas sempre ao mistério da Encarnação.”


Primeiro Excesso de Amor (Amor Trinitário)

Em uma hora transportava-me com o pensamento ao paraíso e imaginava a Santíssima Trindade: o Pai que enviava o Filho à terra; o Filho, que prontamente obedecia ao Querer do Pai, o Espírito Santo que consentia.

A Minha mente confundia-se ao contemplar um mistério tão grande, um amor tão recíproco, tão igual, tão forte entre Eles e para com os homens; e depois, a ingratidão dos homens e especialmente a minha. Eu teria ficado não uma hora, mas todo o dia, porém uma voz interna dizia-me: “Basta, vem e observa outros excessos maiores do meu amor.” 

Segundo Excesso de Amor (Amor Aniquilado)

Então a minha mente era levada ao seio materno e ficava admirar ao considerar aquele Deus, tão grande no céu, agora tão aniquilado, pequenino, apertado, que não podia se mexer e quase nem respirar. A voz interna dizia-me: “Vês quanto te amei? Ah! Dá-me um pouco de espaço no teu coração; tira tudo aquilo que não é meu, que assim me darás mais facilidade para poder me mexer e respirar”.

O meu coração derretia-se, pedia-lhe perdão, prometia-lhe que queria ser toda sua, desatava em pranto, porém, digo-o para minha confusão, que regressava aos meus defeitos habituais. Oh, Jesus, como fostes bom com esta miserável criatura!

Terceiro Excesso de Amor (Amor Devorador)

Da segunda meditação passei à terceira, e uma voz interior me dizia:
“Minha filha, apoia a tua cabeça sobre o seio da minha Mãe, vê dentro dele a minha pequena humanidade; o meu amor devora-me; os incêndios, os oceanos, os mares imensos do amor da minha divindade inundavam-me, reduziam-me a cinzas, elevavam tanto as suas chamas que se levantavam e se estendiam por toda a parte, a todas as gerações, do primeiro ao último homem, e a minha pequena Humanidade era devorada em meio a tantas chamas! Mas sabes tu o que meu amor eterno me queria fazer devorar? As almas! E então fiquei contente quando as devorei todas, ficando concebidas comigo; era Deus, e devia operar como Deus – devia tomá-las todas, o meu amor não me daria paz se excluísse alguma. 

Ah! Minha filha, olha bem o seio da minha Mãe; fixa bem os teus olhos na minha humanidade concebida, e aí encontrarás tua alma concebida comigo, as chamas do meu amor que te devoram. Oh, quanto te amei e te amo!”

Eu me perdia no meio de tanto amor, nem sabia sair dali, mas uma voz chamava-me forte, dizendo-me: “Minha filha, isto ainda não é nada; segura-te mais em mim, dá as tuas mãos à minha querida Mãe a fim de que te tenha apertada no seu seio materno, e dá um outro olhar à minha pequena humanidade concebida e veja o quarto excesso do meu amor”.

Quarto Excesso de Amor (Amor Operante)

“Minha filha, do amor devorador passa a olhar o meu amor operante. Cada alma concebida me trouxe o fardo dos seus pecados, das suas fraquezas e paixões, e o meu amor ordenou-me que tomasse o fardo de cada um, e não só as almas concebidas, mas as penas de cada uma, as satisfações que cada uma delas devia dar ao meu Pai celeste. De modo que a minha Paixão foi concebida junto comigo. 

Olha-me bem no seio da minha Mãe celeste. Oh, como a a minha pequena humanidade era dilacerada, olha com atenção como a minha pequena cabeça está cercada por uma coroa de espinhos, que cingindo-me com força as têmporas me faz derramar rios de lágrimas dos olhos, sem poder mexer-me para os enxugar. 

Ah, tem compaixão de mim, enxuga-me os olhos de tanto chorar, tu que tens os braços livres para poder fazê-lo; esses espinhos são a coroa dos muitos  pensamentos maus que se apinham nas mentes humanas. Oh! Como me espetam mais do que os espinhos que germinam na terra. Mas observa agora, que longa crucificação de nove meses, não podia mexer nem um dedo, nem uma mão, nem um pé; estava sempre imóvel, não havia lugar para me mover um pouco. Que longa e dura crucificação, acrescentando que todas as obras más, tomando forma de pregos, trespassavam-me as minhas mãos e os pés repetidamente”.

E assim continuava a me narrar, pena por pena, todos os martírios da sua pequena humanidade, querer dizê-los todos seria muito extenso. Por tudo isso, eu abandonava-me ao pranto, e escutava dizer no meu interior:
“Minha filha, quereria abraçar-te, mas não posso, não há espaço, estou imóvel, não posso fazê-lo; gostaria de ir a ti, mas não posso caminhar. Por enquanto, abraça-me e vem tu a mim, que depois, quando eu sair do seio materno, irei a ti.”

E no momento em que com a minha mente o abraçava e o apertava fortemente junto ao meu coração, uma voz interior dizia-me: “Basta por agora, minha filha, passa a considerar o quinto excesso do meu amor.”


Quinto Excesso de Amor (Amor abandonado em amarga solidão)

“Então a voz interior continuava: ‘Minha filha, não te separes de mim, não me deixes sozinho; outro excesso do meu amor é que meu amor quer companhia, não quer estar sozinho. Mas tu sabes com quem quer estar acompanhado? Pela criatura. Observa, no seio da minha Mãe, junto a mim estão todas as criaturas, concebidas comigo. Eu, todo amor, estou com elas; quero dizer-lhes o quanto as amo, quero falar com elas para lhes contar minhas alegrias e as minhas dores, que vim ao meio delas para fazê-las feliz, para consolá-las; que estarei no meio delas como um irmãozinho, dando a cada uma todos os meus bens, o meu reino, a custo da minha morte. Quero dar-lhes os meus beijos, as minhas carícias; quero entreter-me com elas, mas ai, quantas dores me dão! Quem foge de mim, quem se faz de surdo e me reduz ao silêncio, quem despreza os meus bens e não se importa com o meu reino, e retribui os meus beijos e carícias com o descuido e esquecimento de mim, e o meu encanto convertem-no em pranto amargo.

Oh! Como estou sozinho, mesmo no meio de tantos! Oh, como me pesa a minha solidão; não tenho a quem dizer uma palavra, com quem me desafogar, nem mesmo no amor; estou sempre triste e taciturno, porque se falo, não sou escutado . Ah! Minha filha, peço-te, suplico-te, não me deixes só em tanta solidão; dá-me o bem de me deixares falar escutando-me, dá ouvidos aos meus ensinamentos. Eu sou o mestre dos mestres, quantas coisas quero te ensinar! Se me ouvires, fará cessar o meu pranto e vou me entreter contigo. Não queres te entreter comigo?” 

E enquanto eu me abandonava nele, compadecendo-me por sua solidão, a voz interna seguia: “Basta, basta, e continua a considerar o sexto excesso do meu amor.” 

Sexto Excesso de Amor (Amor confinado nas densas trevas do pecado). 

“Minha filha, vem, pede à minha querida Mãe que dê um lugarzinho para ti no seu seio materno, a fim de que tu mesma vejas o estado doloroso no qual me encontro”; assim, com o pensamento, parecia-me que a nossa Mãe Rainha, para contentar a Jesus, abria um pequeno espaço em seu seio e me punha dentro. Mas era tal e tanta a obscuridade que não o via, só sentia a sua respiração; e ele no meu interior continuava dizendo: “Minha filha, olha um outro excesso do meu amor. Eu sou a luz eterna, o sol é uma sombra da minha luz, mas vês onde me conduziu o meu amor, em que escura prisão estou? Não há um raio de luz, para mim é sempre noite, mas noite sem estrelas, sem repouso, sempre acordado. Estou sempre acordado; que aflição! A estreiteza da prisão que não me deixa me mover minimamente, as densas trevas; também a respiração, respiro por meio da respiração da minha Mãe, oh, quão difícil é! E a isso, acrescenta as trevas das culpas das criaturas, cada culpa era uma noite para mim, que todas juntas formavam um abismo de escuridão sem confins. Que aflição! Oh, excesso do meu amor! Fazer-me passar de uma imensidão de luz, de largueza, para uma profundidade de densas trevas e de tal estreiteza até o ponto de me faltar a liberdade de respirar, e isto tudo por amor às criaturas”.  

E enquanto isto dizia, gemia, quase com gemidos sufocados por falta de espaço, e chorava. Eu desfazia-me em pranto, agradecia-lhe, compadecia-me, queria fazer-lhe um pouco de luz com o meu amor, como ele me dizia. Mas quem pode dizer tudo? A mesma voz interior acrescentava: “Basta por agora; e passa ao sétimo excesso do meu amor.'” 

Sétimo Excesso de Amor (Amor não correspondido)

A voz interior continuava: “Minha filha, não me deixes sozinho em tanta solidão e em tanta escuridão. Não saias do seio da minha Mãe, para que possas ver o sétimo excesso do Meu amor. Escuta-me, no seio do meu Pai eu era plenamente feliz; não existia bem que não possuísse, alegria, felicidade, tudo estava à minha disposição; os anjos, reverentes, adoravam-me e estavam às minhas ordens. Ah! O excesso do meu amor, poderia dizer, fez-me mudar minha fortuna, restringiu-me nesta sombria prisão, despojou-me de todas as minhas alegrias, felicidade e bens, para me vestir de todas as infelicidades das criaturas; e tudo isso para fazer uma troca: para dar-lhes a minha fortuna, as minhas alegrias e a minha felicidade eterna. Mas isso não teria sido nada se não tivesse encontrado nelas a soma da ingratidão e obstinada perfídia.

Oh, como Meu amor eterno ficou surpreso diante de tanta ingratidão e chora a obstinação e perfídia do ser humano. A ingratidão foi o espinho mais doloroso que me trespassou o coração desde a minha concepção até a minha morte.
Olha o meu coraçãozinho, está ferido e a sangrar. Que martírio! Que espasmos eu sinto! Minha filha, não me sejas ingrata; a ingratidão é a pena mais intensa para o teu Jesus, é fechar-me as portas na cara para deixar-me congelado de frio. Mas, diante de tanta ingratidão, o meu amor não se deteve e colocou-se em atitude de amor suplicante, orante, gemente e mendicante; e este é o oitavo excesso do meu amor”. 

Oitavo Excesso de Amor (Amor Mendicante, Gemente e Suplicante) 

“Minha filha, não Me deixes sozinho, apoia a tua cabeça sobre o seio materno da minha amada Mãe, que mesmo de fora, escutarás os meus gemidos, as  minhas súplicas; e vendo que nem os meus gemidos e nem as minhas súplicas movem a criatura à compaixão do meu amor, coloco-me em atitude do mais pobre dos mendigos, e, estendendo a minha mãozinha, peço, por piedade, ao menos como esmola, as suas almas, os seus afetos e os seus corações.

O Meu amor queria vencer a todo o custo o coração humano, e vendo que depois dos sete excessos do meu amor ficava ainda esquivo, fazendo-se de surdo, não se importava comigo e nem queria se dar a mim, o meu amor quer ir mais longe; devia ter parado, mas não, quer sair além de seus limites, e desde o seio da minha Mãe, fazia chegar a minha voz a cada coração, e com modos mais insinuantes, com as orações mais ardentes, com as palavras mais penetrantes. E sabes o que lhe dizia?

“Meu filho, dá-me o teu coração, dar-te-ei tudo aquilo tu queres desde que me dês em troca o teu coração, eu desci do céu para tomá-lo; Ah, não o negues a mim! Não desiludas as minhas esperanças!”

Mas vendo-o esquivo e que muitos viravam as costas para mim, eu passava então a gemer, juntava as minhas mãozinhas e, chorando, com uma voz sufocada pelos soluços, acrescentava-lhes: “Ai! Ai! Sou o pequeno mendigo; nem sequer por esmola me queres dar o teu coração?” Não é este um excesso maior do meu amor: que o Criador, para se aproximar da criatura, tome a forma de pequena criança para não lhe influir temor, e peça ao menos como esmola o coração da criatura, mas vendo que não o quer dar, roga, geme e chora?” 

Depois disso sentia que me dizia: “E tu, não queres me dar o teu coração? Acaso tu também queres que soluce, rogue e chore, para me dares o teu coração?”; e enquanto isto dizia, sentia como se soluçasse. E eu disse: “Meu Jesus, não chores, dou-vos o meu coração, todo o meu ser”. E assim, a voz interior continuava: “Vai mais além, e passa ao nono excesso do meu amor”.

Nono Excesso de Amor (Amor Agonizante)

“Minha filha, o meu estado é cada vez mais doloroso; se me amas, fixa o teu olhar em mim, para ver se ao teu pequeno Jesus, podes lhe dar algum alívio; uma palavrinha de amor,  uma carícia, um beijo dará descanso ao meu pranto e às minhas aflições.

Escuta, minha filha, depois de ter dado oito excessos do meu amor, e o homem me ter correspondido tão mal, o meu amor não se deu por vencido, e a um oitavo excesso quis acrescentar o nono, o qual foram as ânsias, os suspiros de fogo, os desejos ardentes de querer sair do seio materno para abraçar o homem, e esse desejo reduzia a minha pequena humanidade, ainda não nascida, a uma agonia tal, a ponto de dar o último suspiro. E enquanto esta prestes a dar o último respiro, a minha Divindade, que era inseparável de mim, dava-me sorvos de vida, e assim, retomava a vida para continuar a minha agonia e voltar a morrer de novo.

Foi este o nono excesso do meu amor: agonizar e morrer de amor contínuo pela criatura. Oh! Que longa agonia de nove meses! Oh, como o amor sufocava-me  e fazia-me morrer, e se não tivesse tido a Divindade comigo, que me dava de novo a vida cada vez que estava por morrer, o amor teria me consumido antes de sair à luz do dia.”

Depois acrescentava: “Olha-me, escuta-me como agonizo, como o meu pequeno coração bate, se aflige e queima; olha-me, estou morrendo”, e fazia  profundo silêncio. Eu sentia-me morrer, gelava-se o sangue nas veias e a tremer dizia-lhe: “Meu amor, minha vida, não morras, não me deixes sozinha; tu queres amor e eu amar-te-ei, nunca te deixarei, dá-me as tuas chamas para poder te amar mais, e consumir-me toda por ti.”



Referente a esta Novena, o Santo sacerdote Aníbal Maria Di Francia, confessor extraordinário de Luísa, revisor e censor dos seus primeiros 19 volumes e primeiro editor de alguns dos seus escritos, numa carta, disse: “Ao ler os 9 exercícios do Natal (do qual já temos pronto o Projeto) fica-se estupefato pelo imenso Amor e pelo imenso sofrer de nosso Senhor Jesus Cristo bendito por nosso amor, pela saúde das almas. Em nenhum livro li, a este respeito, uma Revelação tão comovedora e penetrante…” (De uma carta de Santo Aníbal Maria Di Francia a Luísa Piccarreta, em 1927, falando dos Nove Excessos de Amor de Jesus no seio de sua Mãe, na Novena de preparação ao Santo Natal).

Fonte: Textos tomados do primeiro volume dos escritos da Serva de Deus Luísa Piccarreta 
Tradução: Ir. Cesar A. Arango, RCJ e Ir. Carine Edveirges Zendron, FIC
Revisão do texto: Eldi Inês Eillms
Extraído do livro: Os nove Excessos de Amor de Jesus no Ventre de Maria (1a. Edição – 2020)
Com o apoio de: Congregação Rogacionista do Coração de Jesus, Província São Lucas  http://www.rogacionistas.org.br/